Verin olhou para ela e piscou várias vezes, quase como se estivesse se perguntando de onde a garota surgira.
— Com você? Nada, ora. Seu problema é bem diferente. A maioria das garotas que desejam se tornar Aes Sedai, até mesmo as que têm a semente dentro delas, como você, também tem medo disso. Mesmo depois de chegarem à Torre, de aprender o que fazer e como fazer, precisam ser orientadas durante meses, passo a passo, por uma irmã ou uma das Aceitas. Mas não você. Pelo que Moiraine falou, você se jogou de cabeça assim que percebeu que podia, tateando na escuridão sem sequer pensar se haveria um poço sem fundo no próximo passo. Ah, houve outras assim, você não é única. A própria Moiraine foi uma. Quando soube o que você tinha alcançado, não havia mais nada a fazer a não ser começar a ensiná-la. Moiraine nunca lhe explicou nada?
— Nunca. — Egwene desejou que não tivesse soado tão sem ar. — Ela tinha… outras questões para tratar.
Nynaeve fungou de leve.
— Bem, Moiraine nunca acreditou que devia contar às pessoas aquilo que não precisavam saber. Saber não atende a nenhum objetivo real, mas, se pararmos para pensar, não saber também não. Quanto a mim, sempre prefiro saber a não saber.
— Existe isso? Um poço sem fundo, quer dizer?
— É claro que não chega a tanto — respondeu Verin, inclinando a cabeça. — Mas e o próximo passo? — Ela deu de ombros — Sabe, criança, quanto mais você tenta tocar a Fonte Verdadeira, mais fácil ica. Sim, no começo você se estende na direção da Fonte e quase sempre é como tentar agarrar o ar. Ou você consegue tocar saidar, mas, mesmo quando sente o Antigo Poder fluindo por seu corpo, descobre que não pode fazer nada com ele. Ou até faz alguma coisa, mas não era o que pretendia. Aí é que reside o perigo. Normalmente, com orientação, treinamento e o próprio medo reduzindo o passo, a habilidade de tocar a Fonte e de canalizar o Poder se juntam à habilidade de controlar o que se está fazendo. Mas você começou a tentar canalizar sem ninguém para lhe ensinar algum controle do que faz. Eu sei que você acha que não foi muito longe, e não foi mesmo, mas é como alguém que aprendeu sozinha a subir colinas correndo, pelo menos às vezes, mas nunca aprendeu a descer do outro lado ou a caminhar. Mais cedo ou mais tarde, vai cair, se não aprender o restante. Agora, não estou falando de algo parecido com o que acontece quando um daqueles pobres homens começa a canalizar, você não vai ficar louca nem morrer, não com irmãs para ensiná-la e guiá-la. Mas o que você poderia acabar fazendo por acidente, sem ter a intenção? — Por um instante, o ar distraído desapareceu de Verin. Por um instante, ao que pareceu, o olhar da Aes Sedai passara de Egwene para Nynaeve com a mesma agudeza que o da Amyrlin. — Suas habilidades inatas são fortes, criança, e vão ficar mais fortes ainda. Você precisa aprender a controlá-las antes que se machuque, que machuque alguém ou muita gente. Era isso o que Moiraine estava tentando ensiná-la. É isso o que vou tentar ensinar a você esta noite, e uma irmã a ajudará com isso todas as noites, até a colocarmos nas mãos capazes de Sheriam. Ela é a Mestra das Noviças.
Egwene pensou: Será que ela sabe a respeito de Rand? Não deve saber. Ela nunca permitiria que ele deixasse Fal Dara se sequer suspeitasse . Mas tinha certeza de que não era imaginação o que vira.
— Obrigada, Verin Sedai. Vou tentar.
Nynaeve se levantou com elegância.
— Vou me sentar ao pé do fogo e deixar você duas sozinhas.
— Você deveria ficar — respondeu Verin. — Poderia ganhar muito com isso. Pelo que Moiraine falou, você não deve precisar de muito treinamento para se tornar uma das Aceitas.
Nynaeve hesitou apenas por um instante antes de sacudir a cabeça com firmeza.
— Agradeço a oferta, mas posso esperar até chegarmos a Tar Valon. Egwene, se precisar de mim, estarei…
— Por qualquer definição — interrompeu Verin —, você é uma mulher crescida, Nynaeve. Normalmente, quanto mais jovem a noviça, melhor ela se sai. Não apenas com o treinamento, mas também porque se espera que uma noviça faça o que lhe mandarem, quando mandarem e sem questionar. Isso só é de fato útil até o verdadeiro treinamento atingir determinado estágio: uma hesitação na hora errada ou dúvidas quanto ao que lhe mandaram fazer podem ter consequências trágicas. Mas é melhor seguir a disciplina o tempo todo. Das Aceitas, por outro lado, espera-se que questionem, pois entende-se que sabem o bastante para determinar quais perguntas podem fazer e quando fazê-las. Qual você preferiria ser?
As mãos de Nynaeve apertaram a saia, e ela voltou a olhar para a abertura da tenda, franzindo a testa. Por fim, fez um gesto ligeiro com a cabeça e voltou a se sentar no chão.
— Acho que posso ficar.
— Ótimo — respondeu Verin. — Agora, você já conhece esta parte, Egwene, mas, em consideração a Nynaeve, vou conduzi-la passo a passo. Com o tempo, isso se tornará um re flexo, e você vai fazer mais rápido do que consegue pensar. Porém agora o melhor é ir devagar. Feche os olhos, por favor. No começo, flui melhor se você não tiver distrações. — Egwene fechou os olhos. Houve uma pausa. — Nynaeve — disse Verin —, por favor, feche os olhos. De fato, ajudará muito. — Mais uma pausa. — Obrigada, criança. Agora, você deve se esvaziar. Esvazie seus pensamentos. Só existe uma coisa em sua mente: o botão de uma flor. Só isso. Apenas o botão. Você pode ver cada detalhe dele. Pode sentir o cheiro. Tocá-lo. Cada veia de cada folha, cada curva de cada pétala. Você pode sentir a seiva pulsando. Sinta-o. Conheça-o. Seja ele. Você e o botão são a mesma coisa. Vocês são um. Você é o botão.
A voz dela continuou, em um tom hipnótico, mas Egwene não estava mais ouvindo de verdade. Já fizera esse exercício antes, com Moiraine. Era lento, porém a mulher dissera que se tornaria mais rápido com a prática. Dentro de si, ela era um botão de rosa, com pétalas vermelhas bem curvadas, fechadas. No entanto, de repente havia mais alguma coisa ali. Luz. Uma luz pressionava as pétalas. Bem devagar, as pétalas se abriram, virando-se na direção da luz, absorvendo-a. A rosa e a luz eram um. Egwene e a luz eram um. Ela podia sentir a réstia mais tênue daquilo se esgueirando por seu corpo. Esticou-se em busca de mais, se estendeu procurando mais…
Em um instante, tudo se foi: a rosa e a luz. Moiraine também lhe dissera que aquilo não poderia ser forçado. Com um suspiro, abriu os olhos. Nynaeve tinha uma expressão lúgubre no rosto. Verin estava calma como sempre.
— Você não pode forçar a acontecer — dizia a Aes Sedai. — Você deve deixar que aconteça. Deve se render ao Poder antes de poder controlá-lo.
— Isto é uma tolice sem tamanho — resmungou Nynaeve. — Eu não me sinto como uma flor. No máximo, me sinto um arbusto de abrunheiro. Acho que vou mesmo ficar esperando ao lado do fogo.
— Como desejar — respondeu Verin. — Já mencionei que as noviças executam algumas tarefas? Elas lavam pratos, limpam o chão, lavam a roupa, servem à mesa, toda espécie de tarefas. Eu acho que as serviçais fazem um trabalho bem melhor, mas o consenso é que o trabalho fortalece o caráter. Ah, você vai ficar? Ótimo. Bem, criança, lembre-se de que mesmo um arbusto de abrunheiro às vezes dá flores, lindas e brancas, por entre os espinhos. Agora voltemos ao começo, Egwene. Feche os olhos.
Várias vezes antes de Verin partir, Egwene sentiu o luxo do Poder percorrer seu corpo, mas nunca de forma muito intensa, e o máximo que conseguiu com aquilo foi produzir uma agitação no ar que fez a dobra da tenda se mover de leve. Tinha certeza de que um espirro teria provocado o mesmo efeito. Desejou que Moiraine fosse a professora.
Nynaeve sequer chegou a sentir um vislumbre daquilo, ou pelo menos foi o que disse. No final, seus olhos estavam fixos e sua boca tão apertada que Egwene teve medo de que ela fosse começar a brigar com Verin, como se a Aes Sedai fosse uma aldeã desrespeitando sua privacidade. Mas Verin apenas lhe mandou fechar os olhos novamente, dessa vez sem Egwene.