Egwene estava sentada, assistindo às outras duas entre bocejos. A noite já avançara muito além da hora em que ela costumava dormir. Nynaeve estava com cara de quem morrera havia uma semana, com os olhos fechados, como se nunca mais tivesse a intenção de abri-los, e os punhos brancos de tão cerrados sobre o colo. Egwene torcia para que o mau humor da Sabedoria não se manifestasse, não depois de ela conseguir se manter calma por tanto tempo.
— Sinta o luxo atravessá-la — instruía Verin. Sua voz não mudou, mas seus olhos começaram a brilhar de repente. — Sinta o luxo. O luxo do Poder. Um luxo igual a uma brisa, uma leve agitação no ar. — Egwene se endireitou. Fora assim que Verin a guiara todas as vezes em que realmente sentira o Poder fluindo por seu corpo. — Uma brisa suave, o menor dos movimentos no ar. Suave.
De repente, os cobertores empilhados pegaram fogo, como se fossem lenha banhada em seiva.
Nynaeve abriu os olhos com um grito. Egwene não estava certa se gritava ou não. Tudo o que sabia era que estava de pé, tentando chutar os cobertores em chamas para fora antes que incendiassem a tenda. Antes que conseguisse dar um segundo chute, as chamas desapareceram, deixando fios de fumaça saindo de uma massa esturricada e o cheiro de lã queimada.
— Ora — comentou Verin — Ora. Não esperava ter que apagar um incêndio. Não vá desmaiar agora, criança. Está tudo bem. Já cuidei de tudo.
— Eu… eu estava zangada — resmungou Nynaeve por entre os lábios trêmulos, o rosto pálido. — Ouvi você falando sobre uma brisa, me dizendo o que fazer, e o fogo simplesmente veio à minha cabeça. Eu… eu não queria queimar nada. Foi apenas uma pequena fogueira, na… na minha cabeça. — Ela estremeceu.
— Acho até que foi uma fogueira pequena, sim. — Verin soltou uma gargalhada que desapareceu quando ela voltou a olhar para o rosto de Nynaeve. — Você está bem, criança? Se estiver se sentindo mal, eu posso… — Nynaeve sacudiu a cabeça, e Verin assentiu. — Você precisa é de descanso. Vocês duas. Fui dura demais com vocês. Precisam descansar. A Amyrlin vai querer todas nós de pé antes do amanhecer. — Levantando-se, ela tocou os cobertores torrados com a ponta do pé. — Mandarei trazerem mais alguns cobertores para vocês. Espero que isto mostre a ambas como ter controle é importante. Vocês têm que aprender a fazer o que é preciso, e nada mais. Além de machucar outras pessoas, caso retirem mais do Poder do que conseguem usar com segurança, e vocês ainda não conseguem lidar com muito, mas isso vai aumentar… Se retirarem demais, podem destruir a si mesmas. Podem morrer. Ou podem se exaurir, destruir a habilidade que possuem. — Como se ela não tivesse dito que as duas estavam caminhando em uma corda bamba, acrescentou um animado “Durmam bem”. E foi embora.
Egwene abraçou Nynaeve com força.
— Está tudo bem, Nynaeve. Não precisa ter medo. Assim que você aprender a controlar…
Nynaeve deu uma risada rouca.
— Eu não estou com medo. — Ela olhou de relance para os cobertores fumegantes e desviou o olhar depressa. — É preciso mais do que um foguinho para me assustar.
Mas ela não voltou a olhar para os cobertores, mesmo quando um Guardião veio retirá-los dali e deixar outros novos.
Verin não voltou, como dissera. De fato, no decorrer da jornada para sul e para oeste, dia após dia, tão rápido quanto os soldados da infantaria conseguiam avançar, Verin não prestou mais atenção às duas mulheres de Campo de Emond do que Moiraine ou qualquer uma das Aes Sedai. Não é que fossem hostis; eram apenas um tanto distantes e distraídas, como se estivessem preocupadas. Sua frieza aumentou o incômodo de Egwene e trouxe de volta todas as histórias que ouvira na infância.
Sua mãe sempre lhe dissera que as histórias sobre Aes Sedai eram um monte de bobagens contadas pelos homens, mas nem sua mãe nem qualquer outra mulher no Campo de Emond haviam conhecido uma Aes Sedai antes de Moiraine chegar lá. Ela mesma passara um bom tempo com Moiraine, o que era prova de que nem todas as Aes Sedai eram como as histórias contavam. Manipuladoras frias e destruidoras implacáveis. As que provocaram a Ruptura do Mundo. Agora ela sabia que, pelo menos, os que provocaram a Ruptura do Mundo eram Aes Sedai homens, quando ainda existiam, na Era das Lendas. Mas aquilo não ajudava muito. Nem todas as Aes Sedai eram como as histórias contavam, mas quantas, e quais?
As Aes Sedai que vinham à tenda toda noite eram tão diferentes entre si que não a ajudavam a clarear sua mente. Alviarin era fria e ia direto ao ponto, como se fosse uma comerciante que tivesse vindo comprar lã e tabaco. Ficou surpresa por Nynaeve participar da aula, mas aceitou. Tinha críticas afiadas, porém estava sempre pronta para tentar outra vez. Alanna Mosvani ria e passava tanto tempo falando do mundo e dos homens quanto ensinando. Mas Alanna estava interessada demais em Rand, Perrin e Mat para o gosto de Egwene. Especialmente em Rand. A pior de todas eram Liandrin, a única que usava o xale: as outras os haviam guardado na bagagem antes de deixar Fal Dara. Liandrin ficava sentada, mexendo na franja vermelha do xale, e ensinava pouco, e ainda por cima com relutância. Ela interrogava Egwene e Nynaeve como se as duas tivessem sido acusadas de algum crime, e todas as perguntas eram sobre os três rapazes. Não parou de falar até Nynaeve colocá-la para fora — Egwene não entendeu bem por que Nynaeve fizera aquilo —, mas saiu com um aviso.
— Cuidado, minhas ilhas! Vocês não estão mais em sua aldeia. Agora estão molhando os dedos em águas onde há coisas para mordê-las.
Por fim, a coluna chegou à aldeia de Meddo, nas margens do Mora, um rio que corria ao longo da fronteira entre Shienar e Arafel e desembocava no Erinin.
Egwene estava certa de que eram as perguntas da Aes Sedai sobre Rand que a tinham feito começar a sonhar com ele, isso e o fato de se preocupar se ele e os outros tinham precisado seguir a Trombeta de Valere até dentro da Praga. Os sonhos eram sempre ruins, mas no começo eram apenas pesadelos normais. Entretanto, na noite em que chegaram a Meddo, os sonhos mudaram.
— Perdão, Aes Sedai — chamou Egwene, timidamente —, mas a senhora viu Moiraine Sedai? — A Aes Sedai magra a despachou com um gesto e desceu apressada pela rua lotada da aldeia, gritando para alguém tomar cuidado com o cavalo. A mulher pertencia à Ajah Amarela, embora não estivesse usando o xale naquele momento. Egwene não sabia mais nada sobre ela, nem mesmo o nome.
Meddo era uma pequena aldeia, embora Egwene tivesse ficado chocada ao perceber que o que ela agora chamava de “pequena aldeia” era do tamanho de Campo de Emond. O lugar estava lotado, com muito mais forasteiros do que habitantes. Cavalos e pessoas enchiam as ruas estreitas, acotovelando-se até as docas, passando por aldeões que caíam de joelhos sempre que uma Aes Sedai passava em disparada, quase sem ser vista. As luzes fortes das tochas iluminavam tudo. As duas docas se estendiam na direção do Rio Mora como dedos de pedra, e cada uma abrigava um par de pequenos navios de dois mastros. Lá, cavalos estavam sendo levados a bordo por faixas de contenção, com cabos e berços de lona sob as barrigas. Mais navios, de amuradas altas e resistentes, com lampiões no alto dos mastros, lotavam o rio iluminado pelo luar. Já tinham sido carregados ou aguardavam sua vez. Barcos a remo conduziam arqueiros e piqueiros, cujas lanças erguidas faziam os barcos parecerem gigantescos peixes-cobrelos nadando na superfície.
No cais esquerdo, Egwene encontrou Anaiya, que supervisionava o carregamento e chamava a atenção daqueles que não trabalhavam rápido o bastante. Embora nunca tivesse trocado mais do que duas palavras com Egwene, Anaiya parecia diferente das outras, mais semelhante a uma mulher de sua região. Egwene podia vê-la fazendo pão na cozinha, algo que não imaginava nenhuma das outras fazendo.
— Anaiya Sedai, você viu Moiraine Sedai? Preciso falar com ela.