A Aes Sedai olhou ao redor, franzindo a testa, distraída.
— O quê? Ah, é você, criança. Moiraine foi embora. E sua amiga, Nynaeve, já está na Rainha do Rio. Eu mesma tive que enfiá-la em um barco, enquanto a mulher gritava que não partiria sem você. Luz, que confusão! Você também deveria estar a bordo. Encontre algum barco que vá para a Rainha do Rio. Vocês duas vão viajar com o Trono de Amyrlin, então fique atenta quando embarcar. Nada de cenas ou chiliques.
— Em que navio Moiraine Sedai está?
— Moiraine não está em um navio, garota. Ela foi embora. Partiu há dois dias, e a Amyrlin está furiosa. — Anaiya fez uma careta de desagrado e sacudiu a cabeça, embora a maior parte de sua atenção ainda estivesse voltada para os trabalhadores. — Primeiro Moiraine desaparece com Lan, e logo em seguida Liandrin, e depois Verin. Nenhuma delas disse sequer uma palavra a alguém. Verin nem mesmo levou seu Guardião; Tomas está roendo as unhas de preocupação. — A Aes Sedai olhou para o céu. A lua crescente brilhava sem a interferência das nuvens. — Precisaremos chamar o vento mais uma vez, e a Amyrlin não vai ficar nada feliz com isso. Ela disse que nos quer a caminho de Tar Valon em uma hora e não vai aceitar atrasos. Eu não quero estar na pele de Moiraine, Liandrin ou Verin quando ela as encontrar. As três vão desejar ser noviças outra vez. Ora, criança, qual é o problema?
Egwene respirou bem fundo. Moiraine partiu? Não pode ser! Preciso contar a alguém, alguém que não vá rir de mim. Ela imaginou Anaiya em Campo de Emond, ouvindo os problemas da ilha: a mulher se encaixava naquela imagem.
— Anaiya Sedai, Rand está em apuros.
Anaiya lhe lançou um olhar pensativo.
— Aquele garoto alto da sua aldeia. Já está sentindo saudade dele, é? Bem, eu não deveria ficar surpresa se ele estiver em apuros. Jovens dessa idade geralmente estão. Embora seja o outro… Mat?… que tem cara de encrenqueiro. Muito bem, criança. Não queria rir de você nem fazer pouco-caso. Que tipo de problema, e como sabe? Ele e Lorde Ingtar devem ter apanhado a Trombeta e já devem estar de volta a Fal Dara, a esta altura. Ou então tiveram que segui-la até a Praga, e não há nada que se possa fazer a respeito.
— Eu… eu não acho que eles estejam na Praga ou em Fal Dara. Eu tive um sonho — disse, de forma um pouco desafiadora. Soava bobo quando falava, mas parecera bem real. Decerto fora um pesadelo, mas fora real. Primeiro havia um homem com uma máscara sobre o rosto e fogo no lugar dos olhos. Apesar da máscara, ela achou que ele tinha ficado surpreso ao vê-la. O olhar dele a apavorara até pensar que seus ossos se quebrariam de tanto tremer, mas de repente ele desapareceu, e ela viu Rand dormindo no chão, envolto em um manto. Uma mulher estava parada de pé ao lado dele, olhando-o. Seu rosto estava oculto pelas sombras, mas seus olhos pareciam brilhar como a lua, e Egwene soube que ela era maligna. Então veio um clarão de luz, e eles sumiram. Os dois. E, depois daquilo tudo, quase como se estivesse separada da cena, havia a sensação de perigo, como se uma armadilha estivesse começando a se fechar na perna de um cordeiro inocente, uma armadilha com diversas mandíbulas. Era como se o tempo tivesse desacelerado, e ela pudesse ver as mandíbulas de ferro se fechando aos poucos. O sonho não se desvanecera com o despertar, como normalmente acontecia. E o perigo parecia tão grande que ela ainda queria olhar por cima do ombro, mas, de algum modo, sabia que o alvo era Rand, e não ela.
Ela se perguntou se a mulher era Moiraine, e se repreendeu por ter pensado aquilo. Liandrin se encaixava melhor. Ou quem sabe Alanna: ela também mostrara interesse em Rand.
Ela não conseguiu contar o que havia acontecido a Anaiya. Com muita formalidade, disse:
— Anaiya Sedai, sei que parece tolice, mas ele está em perigo. Um grande perigo. Eu sei. Pude sentir. Ainda posso.
O olhar de Anaiya se tornou pensativo.
— Ora, ora — respondeu ela, baixinho —, essa é uma possibilidade que eu aposto que ninguém considerou. Você pode ser uma Sonhadora. A chance é pequena, criança, mas… Não temos uma assim há… hã… quatrocentos ou quinhentos anos. E o Sonho está bem ligado à Profecia. Se você realmente consegue Sonhar, pode ser que consiga Prever também. Isso seria um dedo no olho das Vermelhas. Claro que poderia ser apenas um pesadelo comum, provocado por cansaço, pela comida fria e pela viagem di ícil desde que deixamos Fal Dara. Além da saudade que você sente do seu rapaz. Muito mais provável. Sim, sim, criança, eu sei. Você está preocupada com ele. Seu sonho indicava que tipo de perigo?
Egwene sacudiu a cabeça.
— Ele apenas desapareceu, e eu senti o perigo. E maldade. Eu senti a maldade antes mesmo de ele sumir. — Ela estremeceu e esfregou as mãos. — Ainda consigo sentir.
— Bem, falaremos mais a esse respeito na Rainha do Rio. Se você for uma Sonhadora, cuidarei para que tenha o treinamento que Moiraine deveria estar aqui para… Você aí! — gritou a Aes Sedai, de súbito, e Egwene sobressaltou-se. Um homem alto que acabara de se sentar sobre um barril de vinho fez o mesmo. Vários outros apertaram o passo. — Isso é para levar para bordo, não para você sentar! Conversaremos no barco, criança. Não, seu tolo! Você não vai conseguir carregá-lo sozinho! Quer se machucar? — Anaiya saiu andando a passos largos pela doca, mostrando aos infelizes aldeões uma língua mais áspera do que Egwene suspeitara que ela possuía.
Egwene espiou a escuridão, na direção do sul. Ele estava lá, em algum lugar. Não em Fal Dara nem na Praga. Ela tinha certeza disso. Aguente firme, seu idiota cabeça de lã. Se você for morto antes que eu consiga tirá-lo disso, vou esfolá-lo vivo. Não lhe ocorreu se perguntar como iria tirá-lo de qualquer coisa se estava a caminho de Tar Valon.
Puxando o manto mais para junto do corpo, foi procurar um barco que a levasse para a Rainha do Rio.
13
De Pedra em Pedra
A luz do sol nascente despertou Rand, e ele se perguntou se estava sonhando. O rapaz sentou-se devagar, com o olhar fixo à sua frente. Tudo mudara, ou quase tudo. O sol e o céu estavam como ele esperava, ainda que pálidos e cobertos de nuvens. Loial e Hurin continuavam deitados um de cada lado dele, dormindo enrolados em seus mantos, e seus cavalos permaneciam amarrados a um passo de distância, mas o restante da comitiva havia desaparecido. Os soldados, os cavalos, seus amigos, tudo e todos haviam sumido.
A clareira também havia mudado, e agora eles estavam no meio, não na extremidade. Perto de sua cabeça, havia um cilindro de pedra cinza de três braças de altura e um passo inteiro de largura, com a super ície inteiramente coberta por centenas, talvez milhares, de diagramas e marcas entalhados na pedra, em algum idioma que ele não reconhecia. O chão da clareira era pavimentado com pedras brancas, nivelado como um pátio e tão polido que quase reluzia. Degraus largos e altos levavam até a borda, mais alta, em anéis concêntricos de pedra, cada qual de uma cor diferente. E, quanto à borda, as árvores estavam enegrecidas e retorcidas, como se uma chuva de fogo as tivesse atingido. Tudo parecia mais pálido do que deveria estar, como o sol, que estava mais brando, como se fosse visto através de uma neblina. Só que não havia neblina. Apenas os três homens e os cavalos pareciam realmente sólidos. Mas, quando ele tocou a pedra abaixo de si, teve a sensação de que ela era sólida o bastante.
Estendeu a mão e sacudiu Loial e Hurin.
— Acordem! Acordem e me digam que estou sonhando. Por favor, acordem!
— Já é de manhã? — resmungou Loial, sentando-se, então seu queixo caiu, e seus olhos grandes e redondos foram se arregalando.
Hurin acordou assustado, então se levantou de um pulo, saltando como uma pulga sobre uma pedra quente, olhando para todos os lados.