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— Onde estamos? O que aconteceu? Onde estão todos? Onde estamos, Lorde Rand? — Ele caiu de joelhos, torcendo as mãos, mas seu olhar ainda dardejava de um lado para o outro. — O que aconteceu?

— Não sei — respondeu Rand, devagar. — Estava torcendo para que fosse um sonho, mas… Talvez seja um sonho. — Ele já tivera experiências com sonhos que não eram sonhos, experiências que não queria repetir nem lembrar. Levantou-se com cuidado. Tudo permaneceu como estava.

— Acho que não é — respondeu Loial. Ele estava analisando a coluna, e não parecia feliz. Suas sobrancelhas compridas caíram sobre as bochechas, e as orelhas peludas pareciam ter murchado. — Acho que esta é a mesma pedra ao lado da qual dormimos ontem à noite. Acho que sei o que ela é, agora. — Pela primeira vez, ele parecia angustiado por saber algo.

— Isso é… — Não. O fato de que aquela era a mesma pedra não era mais louco do que o que ele via a seu redor: Mat, Perrin e os shienaranos haviam sumido, e tudo mudara. Pensei que tivesse escapado, mas começou outra vez. E não é mais loucura. A menos que eu esteja louco . Ele olhou para Loial e Hurin. Eles não estavam agindo como se ele estivesse louco, pois viam o mesmo que ele. Algo nos degraus chamou sua atenção. Eram as cores diferentes, sete no total, que iam do azul ao vermelho. — Uma para cada Ajah — disse.

— Não, Lorde Rand — gemeu Hurin. — Não. As Aes Sedai não fariam isso conosco. Elas não fariam! Eu caminho na Luz!

— Todos nós caminhamos, Hurin — respondeu Rand. — As Aes Sedai não lhe farão mal. — A menos que você se meta no caminho delas. Será que aquilo era obra de Moiraine, de algum jeito? — Loial, você disse que sabe o que é a pedra. O que é?

— Eu disse que acho que sei, Rand. Havia um pedaço de um livro antigo, apenas algumas páginas, mas uma delas tinha o desenho dessa pedra. Essa Pedra — havia algo no modo como ele dizia “pedra” que deixava marcada sua importância — ou uma bem parecida com ela. E abaixo dizia: “De Pedra em Pedra correm as linhas do ‘se’, entre os mundos que poderiam ser.”

— O que isso quer dizer, Loial? Não faz o menor sentido.

O Ogier balançou a enorme cabeça com tristeza.

— Eram apenas algumas páginas. Algumas diziam que, na Era das Lendas, algumas Aes Sedai, as mais poderosas, eram capazes de usar essas Pedras. Não explicava como, mas acho, pelo que pude decifrar, que talvez essas Aes Sedai utilizassem as Pedras para viajar para esses mundos, de algum jeito. — Ele olhou para as árvores queimadas e logo abaixou os olhos de novo, como se não quisesse pensar no que haveria além da borda. — Mas, ainda que as Aes Sedai possam usá-las, ou que pudessem, não havia Aes Sedai conosco para canalizar o Poder, então não sei como isso pode ter acontecido.

Rand sentiu arrepios. Aes Sedai as utilizavam. Na Era das Lendas, quando existiam Aes Sedai homens. Ele teve uma vaga lembrança do vazio se fechando ao seu redor ao adormecer, repleto daquele brilho incômodo. E lembrou-se da casa da aldeia e da luz na qual mergulhara para escapar. Se aquela era a metade masculina da Fonte Verdadeira… Não, não pode ser. Mas e se for? Luz, eu estava me perguntando se deveria fugir ou não, e o tempo todo isso já estava dentro da minha cabeça. Talvez eu tenha nos trazido até aqui. Ele não queria pensar naquilo.

— Mundos que poderiam ser? Não estou entendendo, Loial.

O enorme e desconfortável Ogier deu de ombros.

— Eu tampouco, Rand. A maioria do que estava escrito soava como: “Se uma mulher vai para a esquerda ou para a direita, o luxo do Tempo se divide? A Roda, então, tece dois Padrões? Mil, para cada um de seus giros? Tantos quantas forem as estrelas? Um deles é real, enquanto os outros são meras sombras e re flexos?” Veja, não era muito claro. Em grande parte, eram perguntas, e a maioria parecia se contradizer. E também não havia muitas. — Ele voltou a encarar a coluna de pedra, olhando-a como se desejasse que ela desaparecesse. — Supõe-se que exista um bom número dessas Pedras espalhadas por todo o mundo, ou que um dia existiram, mas nunca ouvi falar de alguém que tivesse encontrado uma. Nunca ouvi falar de alguém que tivesse encontrado qualquer coisa parecida com isso.

— Lorde Rand? — Agora de pé, Hurin parecia mais calmo, mas sua expressão era ansiosa, e ele agarrava o casaco na altura da cintura com ambas as mãos. — Lorde Rand, o senhor vai nos levar de volta, não vai? Para o lugar de onde viemos? Eu tenho esposa, milorde, e filhos. Melia já ficaria mal se eu morresse, mas, se não tiver sequer meu corpo para levar ao abraço da mãe, vai lamentar até o fim de seus dias. O senhor entende, milorde. Eu não posso deixá-la sem saber o que me aconteceu. O senhor vai nos levar de volta. E, se eu morrer, se não puder levar meu corpo para ela, vai lhe contar o que houve, para que ela tenha pelo menos isso. — Ele não fazia mais perguntas, no final. Um tom con fiante se insinuara em sua voz.

Rand abriu a boca para explicar outra vez que não era um lorde, então a fechou sem dizer nada. Era algo bem irrelevante naquele momento. Você o meteu nessa situação. Ele queria negar, mas sabia o que era, sabia que podia canalizar, ainda que isso sempre parecesse acontecer independente da sua vontade. Loial disse que Aes Sedai usavam as Pedras, e aquilo só poderia significar o Poder Único. O que Loial dizia saber podia ser tomado como certo, pois o Ogier nunca a firmava saber o que não sabia. E não havia mais ninguém por perto que dominasse o Poder. Você o envolveu nessa situação e tem que tirá-lo. Você tem que tentar.

— Farei o melhor que puder, Hurin. — E, como Hurin era shienarano, ele acrescentou: — Pela minha Casa e pela minha honra. É a Casa de um pastor e a honra de um pastor, mas farei com que valham tanto quanto as de um lorde.

Hurin soltou o casaco. A confiança chegara a seus olhos. Ele fez uma grande mesura.

— É uma honra servi-lo, milorde.

Rand sentiu-se imediatamente culpado. Agora ele acha que você vai levá- lo para casa, porque os lordes de Shienar sempre cumprem suas promessas. O que você vai fazer agora, Lorde Rand?

— Nada disso, Hurin. Nada de se curvar. Eu não… — De repente, percebeu que não poderia dizer ao homem que não era um lorde, mais uma vez. Tudo o que mantinha o farejador de pé era pensar que Rand era um lorde, e ele não podia tirar aquilo dele, não naquele momento. Não ali. — Nada de se curvar — concluiu, sem jeito.

— Como quiser, Lorde Rand. — O sorriso de Hurin era quase tão grande quanto o da primeira vez em que o rapaz o vira.

Rand pigarreou.

— Sim. Bem, é o que eu quero.

Ambos o encaravam, Loial curioso, e Hurin con fiante, ambos esperando para ver o que ele faria. Eu os trouxe aqui. Devo ter feito isso. Então tenho que levá-los de volta. O que quer dizer…

Respirando fundo, ele andou pelas pedras brancas do calçamento até chegar ao cilindro coberto de símbolos. Pequenas linhas escritas em algum idioma desconhecido cercavam cada símbolo, letras estranhas que fluíam em curvas e espirais e de repente viravam ganchos quebrados e ângulos, então continuavam a fluir. Pelo menos não era escrita Trolloc. Relutante, Rand tocou a coluna. Tinha o aspecto de qualquer pedra seca e polida, mas a sensação ao toque era de algo curiosamente escorregadio, como metal coberto de óleo.

Ele fechou os olhos e formou a chama. O vazio veio devagar, hesitante. Ele sabia que seu próprio medo o detinha, o medo do que estava tentando fazer. Quanto mais rápido alimentava a chama com medo, mais vazio vinha. Não posso fazer isso. Canalizar o Poder. Eu não quero. Luz, deve haver outro jeito. Sem se permitir desistir, ele forçou os pensamentos a se aquietarem. Podia sentir o suor brotando em sua testa. Continuou, determinado, alimentando a chama com seus temores, fazendo com que ela crescesse e crescesse. E o vazio estava lá.