O cerne de seu ser flutuava no vazio. Ele podia ver a luz — saidin — mesmo de olhos fechados, sentia seu calor cercando-o, cercando tudo, cobrindo tudo. Ela tremeluzia como a chama de uma vela vista através de papel encerado. Encerado com um óleo rançoso. Um óleo com um cheiro horrível.
Ele se estendeu em direção a ela, não sabia ao certo como fizera aquilo, mas fizera algo, um movimento, um esticar-se até a luz, na direção de saidin… e não pegou nada, como se tivesse passado os dedos por água. A sensação era a de um lago coberto de lodo, com espuma flutuando sobre a água limpa abaixo, mas ele não conseguia recolher água alguma. Ela escorreu diversas vezes por entre seus dedos, que não seguravam nem gotas da água, apenas a espuma escorregadia que fazia sua pele se arrepiar.
Desesperado, tentou formar uma imagem da clareira como era antes, com Ingtar e os piqueiros dormindo ao lado de seus cavalos, Mat e Perrin, e a Pedra enterrada até a ponta. Ele a formou fora do vazio, agarrando-se à concha de vazio que o encapsulava. Tentou vincular a imagem à luz, forçar as duas a se juntarem. A clareira como era antes, e ele, Loial e Hurin lá, junto. Sua cabeça doía. Junto com Mat, Perrin e os shienaranos. Queimando, em sua cabeça. Juntos!
O vazio se estilhaçou em mil lascas afiadas como navalhas que cortaram sua mente.
Estremecendo, ele recuou, cambaleando, com os olhos arregalados. Suas mãos doíam de tanto apertar a Pedra, e seus braços e ombros latejavam com a dor. Seu estômago ficou embrulhado com a sensação de sujeira que o cobria, e sua cabeça… Ele tentou acalmar a respiração. Aquilo nunca acontecera antes. Quando o vazio ia embora, desaparecia como uma bolha furada, apenas isso, em um piscar de olhos. Nunca se quebrava como vidro. Ele sentia a cabeça dormente, como se os mil cortes tivessem acontecido tão depressa que a dor ainda não tivera tempo de chegar. Mas cada corte parecera tão real quanto se tivesse sido feito com uma faca. Ele tocou a têmpora e ficou surpreso por não ver sangue nos dedos.
Hurin ainda estava ali parado, olhando para ele, ainda con fiante. No máximo, o farejador parecia mais seguro a cada minuto que se passava. Lorde Rand estava fazendo alguma coisa. Era para isso que os lordes serviam. Eles protegiam a terra e o povo com seus corpos e vidas, e, quando algo dava errado, consertavam e cuidavam para que se fizesse o que era certo e justo. Contanto que Rand estivesse fazendo alguma coisa, qualquer coisa, Hurin estaria con fiante de que tudo daria certo no fim. Era aquilo que os lordes faziam.
Loial tinha um olhar diferente, e sua testa estava franzida de modo ligeiramente intrigado, mas seu olhar também estava voltado para Rand, que se perguntou o que ele estava pensando.
— Valeu a tentativa — disse o rapaz. Teve a sensação do óleo rançoso dentro de sua cabeça. — Luz, está dentro de mim! Não quero isso dentro de mim! — Estava desaparecendo devagar, mas ele ainda achava que iria vomitar. — Vou tentar de novo em alguns minutos.
Torceu para soar con fiante. Não fazia ideia de como as Pedras funcionavam, se o que ele estava fazendo tinha alguma chance de dar certo. Talvez existam regras para usá-las. Talvez seja preciso fazer algo especial. Luz, talvez você não possa usar a mesma Pedra duas vezes, ou… Ele interrompeu a linha de raciocínio. Olhando para Loial e Hurin, achou que entendia o que Lan quis dizer ao falar que o dever era mais pesado que a montanha.
— Milorde, eu acho… — Hurin deixou as palavras morrerem, parecendo atordoado por um momento. — Milorde, talvez, se encontrarmos os Amigos das Trevas, seja possível fazer com que um deles nos diga como voltar.
— Eu perguntaria a um Amigo das Trevas ou ao próprio Tenebroso se achasse que ele responderia a verdade — respondeu Rand. — Mas somos tudo o que há. Só nós três. — Só eu. Sou eu quem tem que fazer isso.
— Poderíamos seguir o rastro deles, milorde. Se os pegarmos…
Rand encarou o farejador.
— Você ainda consegue sentir o cheiro deles?
— Consigo, milorde. — Hurin franziu a testa. — É fraco e pálido, como todo o resto neste lugar, mas consigo sentir o cheiro do rastro. Bem ali em cima. — Ele apontou para a beira da clareira. — Não entendo, milorde, mas… Ontem à noite, podia jurar que o rastro dava a volta na clareira, novamente por onde viemos. Bem, ela está no mesmo lugar agora, só que aqui é mais fraca, como já expliquei. Não é velha, não está fraca por isso, mas… Não sei, Lorde Rand, só sei que está aqui.
Rand parou para pensar. Se Fain e os Amigos das Trevas estavam ali, onde quer que “ali” fosse, talvez soubessem como voltar. Tinham que saber, já que haviam chegado lá. E eles estavam com a Trombeta e a adaga. Mat precisava daquela adaga. Se não tivesse outro motivo, aquele bastaria para encontrá-los. O que finalmente o fez decidir, percebeu, envergonhado, é que tinha medo de tentar outra vez. Medo de tentar canalizar o Poder. Ele tinha menos medo de confrontar Amigos das Trevas e Trollocs com apenas Hurin e Loial do que de fazer aquilo.
— Então iremos atrás dos Amigos das Trevas. — Ele tentou soar seguro, do jeito que Lan ou Ingtar falariam. — A Trombeta deve ser recuperada. Se não conseguirmos descobrir um jeito de tirá-la deles, pelo menos saberemos onde estarão quando reencontrarmos Ingtar. — Espero que eles não perguntem como vamos reencontrá-lo . — Hurin, certifique-se de que esse rastro é mesmo aquele que estamos seguindo.
O farejador saltou para sua sela, ansioso para fazer alguma coisa, talvez ansioso para sair da clareira, e fez o cavalo subir correndo os amplos degraus coloridos. Os cascos do animal ressoaram alto na rocha, mas não deixaram marcas.
Rand guardou as cordas que prendiam Vermelho nos alforjes. O estandarte ainda estava lá, mas ele não teria se importado muito se o embrulho tivesse sido deixado para trás. Então pegou o arco e a aljava e montou nas costas do garanhão. O embrulho do manto de Thom Merrilin se avolumava atrás da sela.
Loial conduziu sua grande montaria para mais perto. De pé, a cabeça do Ogier chegava quase ao ombro de Rand, que estava montado. Loial ainda parecia intrigado.
— Você acha que deveríamos ficar? — perguntou Rand. — Tentar usar a Pedra mais uma vez? Se os Amigos das Trevas estiverem aqui, neste lugar, temos que encontrá-los. Não podemos deixar a Trombeta de Valere nas mãos deles, você ouviu a Amyrlin. E temos que recuperar aquela adaga. Mat morrerá sem ela.
Loial assentiu.
— Sim, Rand, precisamos. Mas as Pedras…
— Encontraremos outra. Você disse que elas estavam espalhadas por aí, e, se forem todas iguais a esta, com esses degraus enfeitando os arredores, não deve ser muito difícil encontrar outra.
— Rand, aquele fragmento dizia que as Pedras vinham de uma Era mais antiga que a Era das Lendas, e que mesmo as Aes Sedai não as entendiam, embora as utilizassem. Algumas das Aes Sedai realmente poderosas as utilizavam, com o Poder Único, Rand. Como você acha que vai usar esta aqui para nos levar de volta? Ou qualquer outra que encontrarmos?
Por um momento, Rand só pôde encarar o Ogier, pensando mais rápido do que já pensara em toda a vida.
— Se são mais antigas do que a Era das Lendas, talvez as pessoas que as construíram não tenham usado o Poder. Deve haver outro jeito. Os Amigos das Trevas chegaram aqui, e eles com certeza não usaram o Poder. Seja qual for esse outro jeito, vou descobrir. Eu levarei a gente de volta, Loial. — Rand olhou para a alta coluna de pedra com marcas estranhas e sentiu uma pontada de medo. Luz, se pelo menos eu não precisar usar o Poder para isso. — Eu levarei a gente de volta, Loial, eu juro. De um jeito ou de outro.
O Ogier assentiu, ainda não convencido. Montou em seu cavalo imenso e acompanhou Rand escadaria acima para se juntar a Hurin entre as árvores enegrecidas.