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Rand resistiu ao impulso de olhar ao redor. E definitivamente não olhou para o alto. Tudo o que bastaria para deixá-los desesperados era mais uma daquelas linhas de fumaça no céu, bem naquele momento.

— Não há nada aqui para nos ferir — respondeu com firmeza. — E nos manteremos bem vigilantes para garantir que nada de mau aconteça.

Ele queria rir de si mesmo por soar tão certo. Ele não tinha certeza de coisa alguma. Mas, ao ver os outros naquele estado — Loial com as orelhas peludas caídas e Hurin tentando não olhar para lugar algum —, Rand sabia que ao menos um deles tinha que parecer seguro, ou o medo e a incerteza destruiriam a todos. Há de ser o que a Roda tecer . Ele afastou esse pensamento de sua mente. Isso não tem nada a ver com a Roda. Nada a ver com ta’veren, Aes Sedai ou o Dragão. É apenas o que é, e só.

— Loial, já acabou? — O Ogier assentiu, esfregando o bastão de combate com certo arrependimento. Rand se virou para Hurin. — Você ainda sente o rastro?

— Sinto, Lorde Rand. Sinto.

— Então vamos. Assim que encontrarmos Fain e os Amigos das Trevas, voltaremos para casa como heróis, levando a adaga de Mat e a Trombeta de Valere. Vá na frente, Hurin. — Heróis? Eu ficarei feliz se todos nós sairmos daqui com vida.

— Não gosto deste lugar — anunciou o Ogier, sério. Ele segurava o bastão como se esperasse usá-lo em breve.

— Que bom que não pretendemos ficar, não é? — retrucou Rand.

Hurin deu uma gargalhada alta, como se aquilo fosse uma piada, mas Loial lhe lançou um olhar sério.

— Que bom que não pretendemos, Rand!

Mas, enquanto cavalgavam rumo ao sul, o rapaz pôde notar que seu comentário despreocupado sobre como voltariam para casa deixara os outros dois um pouco animados. Hurin estava sentado ligeiramente menos curvado em sua sela, e as orelhas de Loial não pareciam mais tão murchas. Não era hora ou lugar para dizer a eles que também estava com medo, então guardou a informação para si e lidou com ela sozinho.

Hurin manteve o bom humor durante toda a manhã, murmurando “Que bom que não pretendemos ficar” e rindo, até Rand sentir vontade de pedir para ele se calar. Perto do meio-dia, no entanto, o farejador ficou mais quieto. Ele balançava a cabeça e franzia a testa, e Rand descobriu que gostaria que o homem ainda estivesse repetindo suas palavras e rindo.

— Há algo errado com o rastro, Hurin? — perguntou.

O farejador deu de ombros, parecendo preocupado.

— Sim, Lorde Rand. Mas também não, como se diz por aí.

— Tem que ser um ou outro. Você perdeu o rastro? Não há problema se perdeu. Você disse que estava fraco, para começar. Se não conseguirmos achar os Amigos das Trevas, encontraremos outra Pedra e voltaremos por ela. — Luz, tudo menos isso. Rand manteve o rosto impassível. — Se os Amigos das Trevas conseguem vir para cá e sair, nós também conseguimos.

— Ah, eu não o perdi, Lorde Rand. Ainda consigo sentir o fedor deles. Não é isso. É só… É que… — Com uma careta, Hurin soltou de uma vez: — É como se eu estivesse me lembrando do cheiro, Lorde Rand, e não sentindo. Mas não estou. Há dezenas de rastros cruzando-o o tempo todo, dezenas e dezenas, com todo tipo de cheiro de violência. Alguns são até recentes, só que pálidos, como tudo o mais. Esta manhã, logo após deixarmos a clareira, eu podia jurar que, bem onde eu estava, centenas de pessoas haviam sido assassinadas alguns minutos antes. Mas não havia corpo algum, nem marcas na grama, a não ser as dos nossos cavalos. Eu não deveria sentir um cheiro desses sem o chão estar todo revirado e ensanguentado, mas não havia nem uma marca. É tudo assim, milorde. Mas estou seguindo o rastro. Estou. Este lugar me deixou nervoso. É isso. Deve ser.

Rand olhou de soslaio para Loial, pois o Ogier sabia de algo estranho que podia contar a eles, mas Loial parecia tão intrigado quanto Hurin. Rand fez a voz soar mais confiante do que ele se sentia.

— Eu sei que está dando o melhor de si, Hurin. Todos estamos nervosos. Siga o rastro o melhor que puder, e vamos encontrá-los.

— Como quiser, Lorde Rand. — Hurin fez o cavalo avançar. — Como quiser.

Mas, ao cair da noite, ainda não havia sinal dos Amigos das Trevas, e Hurin disse que o rastro estava bem mais fraco. O farejador não parava de murmurar para si mesmo sobre “lembrar”.

Não havia sinal deles. Nada. Rand não era um rastreador tão bom quanto Uno, mas qualquer garoto de Dois Rios era bom o bastante para encontrar uma ovelha perdida ou um coelho para o jantar. Ele não vira rastro algum. Era como se nada vivo algum dia tivesse passado pela terra antes deles. Algo devia ter acontecido, se os Amigos das Trevas estavam à frente deles. Mas Hurin continuava seguindo o rastro que dissera sentir.

Quando o sol tocou o horizonte, os três montaram acampamento em um bosque intocado pelo fogo e comeram um pouco do que havia em seus alforjes. Pão ázimo com carne-seca e, para beber, água salobra. Não era uma refeição muito boa, não satisfazia bem a fome e estava longe de ser gostosa. Rand julgou que tinham o suficiente para uma semana. Depois disso… Hurin comeu devagar, com determinação, mas Loial engoliu a comida com uma careta e se recostou com seu cachimbo, mantendo o grande bastão por perto. Rand manteve a fogueira baixa e bem escondida entre as árvores. Fain e seus Amigos das Trevas poderiam estar perto o bastante para ver uma fogueira, apesar das preocupações de Hurin sobre a estranheza daquele rastro.

Parecia-lhe estranho que tivesse começado a pensar nos outros como Amigos das Trevas da Fain, os Trollocs de Fain. Fain era apenas um louco. Então por que eles o resgataram? Fain era parte do esquema do Tenebroso para encontrá-lo. Talvez o resgate tivesse algo a ver com isso. Então por que ele está fugindo, em vez de me caçar? E o que matou aquele Desvanecido? O que aconteceu naquele aposento cheio de moscas? E aqueles olhos que me vigiaram em Fal Dara? E aquele vento que me prendeu como um inseto em seiva de pinheiro? Não. Não, Ba’alzamon deve estar morto . As Aes Sedai não acreditavam naquilo. Moiraine não acreditava, nem a Amyrlin. Teimoso, ele se recusou a continuar pensando naquilo. Tudo que precisava pensar no momento era em encontrar aquela adaga para Mat. Encontrar Fain e a Trombeta.

Nunca termina, al’Thor.

A voz era como uma leve brisa passando por sua nuca, um murmúrio fino e gelado que se esgueirava por entre as frestas de sua mente. Ele quase procurou o vazio para fugir, mas lembrou-se do que o aguardava lá e resistiu à vontade.

Na semiobscuridade do crepúsculo, ele treinou as formas da garça com sua espada, como Lan lhe ensinara, embora sem o vazio. Cortando a Seda, Beija-flor Beija a Rosa-de-mel. E Garça Atravessando os Juncos, para o equilíbrio. Perdendo-se nos movimentos rápidos e precisos, esquecendo-se de onde estava por um tempo, Rand praticou até ficar coberto de suor. Mas tudo voltou ao acabar o treino, nada havia mudado. Não estava frio, mas ele sentiu um arrepio e fechou o manto ao redor do corpo enquanto se encolhia perto do fogo. Os outros perceberam seu estado de espírito e terminaram de comer depressa e em silêncio. Ninguém reclamou quando ele jogou terra sobre as últimas chamas.

Rand pegou a primeira vigia, caminhando nas bordas do matagal com o arco e às vezes afrouxando a espada na bainha. A lua fria estava quase cheia, erguendo-se alta na escuridão, e a noite estava tão silenciosa e vazia quanto fora o dia. Vazia era a palavra certa. A terra estava tão vazia quanto um jarro de leite empoeirado. Era di ícil acreditar que houvesse alguém no mundo inteiro, naquele mundo, a não ser eles três. Era di ícil acreditar que os Amigos das Trevas estivessem ali, em algum lugar à frente.