Para ter alguma companhia, ele abriu o manto de Thom Merrilin, expondo a harpa e a lauta em suas caixas de couro duro sobre os retalhos multicoloridos. Retirou a lauta de ouro e prata da caixa, lembrando-se das lições do menestrel enquanto a segurava, e tocou algumas notas de “O Vento que Balança o Salgueiro” bem baixinho, para não acordar os outros. Mesmo baixo, o som triste soava alto demais naquele lugar, real demais. Com um suspiro, recolocou a flauta na caixa e fechou o embrulho.
Manteve a vigília por um longo tempo noite adentro, deixando os outros dormirem. Não sabia quão tarde era quando percebeu, de súbito, que uma neblina se formara. Ela estava perto do chão, espessa, tornando Hurin e Loial montes indefinidos que se destacavam entre nuvens. Acima deles, ficava menos espessa, mas, ainda assim, encobria a terra ao redor, ocultando tudo, menos as árvores mais próximas. A lua parecia vista através de um líquido sedoso. Qualquer coisa poderia aproximar-se sem ser vista. Ele tocou a espada.
— Espadas não adiantam contra mim, Lews Therin. Você já devia saber disso.
A névoa se revolveu ao redor dos pés de Rand quando ele deu meia-volta, puxando a espada com as mãos, a lâmina com a marca da garça bem à frente. O vazio se abriu dentro dele, que, pela primeira vez, mal notou a luz maculada de saidin.
Uma figura envolta em sombras se aproximou na neblina, caminhando com um cajado grande. Atrás dela, como se a sombra da sombra fosse enorme, a neblina escureceu e ficou mais negra que a noite. Rand sentiu arrepios. A figura chegou mais perto, até assumir a forma de um homem, com roupas e luvas pretas e uma máscara de seda preta cobrindo o rosto. A sombra vinha com ela. O cajado também era preto, como se a madeira tivesse sido queimada, mas era liso e suave como água ao luar. Por um instante, os buracos para olhos da máscara brilharam, como se por trás deles houvesse fogo em vez de olhos, mas Rand não precisava daquilo para saber quem era.
— Ba’alzamon — murmurou. — Estou sonhando. Tenho que estar. Eu peguei no sono, e…
Ba’alzamon soltou uma gargalhada que soava como o rugido de uma fornalha aberta.
— Você sempre tenta negar o que é, Lews Therin. Se estender minha mão, posso tocá-lo, Fratricida. Eu sempre posso tocá-lo. Sempre, em toda parte.
— Eu não sou o Dragão! Meu nome é Rand al’…! — Rand trincou os dentes para se calar.
— Ah, eu conheço o nome que você usa agora, Lews Therin. Conheço cada nome que você usou, Era após Era, muito antes de sequer se tornar o Fratricida. — A voz de Ba’alzamon ficou mais alta, e às vezes o fogo de seus olhos subia em chamas tão altas que Rand podia vê-los através das aberturas na máscara de seda, vê-los como mares infinitos de chama. — Eu conheço você, conheço seu sangue e sua linhagem até a primeira fagulha de vida que já existiu, até o Primeiro Momento. Você nunca poderá se esconder de mim. Nunca! Estamos ligados de forma tão certa quanto as duas faces de uma mesma moeda. Homens comuns podem se esconder na trama do Padrão, mas ta’veren se destacam como faróis de fogo no topo de uma colina, e você, você se destaca como se dez mil flechas brilhantes flutuassem no céu para indicá-lo! Você é meu, e está sempre ao alcance da minha mão!
— Pai das Mentiras! — Conseguiu dizer Rand. Apesar do vazio, sua língua queria se colar ao céu da boca. Luz, por favor, que isso seja um sonho! O pensamento surgiu e logo desapareceu do vazio. Mesmo que seja um daqueles sonhos que não é sonho. Ele não pode estar parado diante de mim de verdade. O Tenebroso está preso em Shayol Ghul, preso pelo Criador no momento da Criação… Ele sabia demais acerca da verdade para que aquilo pudesse ajudá-lo. — Esse nome lhe foi bem dado! Se pudesse apenas me levar, por que ainda não o fez? Porque não pode. Eu caminho na Luz, e você não pode me tocar!
Ba’alzamon inclinou-se sobre o cajado e olhou para Rand por um momento, depois se aproximou de Loial e Hurin, olhando bem para eles. A enorme sombra se moveu junto. Ele não fez a neblina se mover, percebeu Rand. Ele se movia, o cajado balançava com seus passos, mas a neblina cinza não se revolvia nem girava ao redor de seus pés, como fazia com Rand. Aquilo lhe deu esperança. Talvez Ba’alzamon de fato não estivesse ali. Talvez fosse mesmo um sonho.
— Você tem uns seguidores estranhos — comentou Ba’alzamon. — Sempre teve. Esses dois. A garota que tenta protegê-lo. Uma proteção pobre e fraca, Fratricida. Se ela tivesse uma vida inteira para crescer, jamais ficaria forte o bastante para que você conseguisse se esconder atrás dela.
Garota? Quem? Moiraine não é uma garota.
— Não sei do que está falando, Pai das Mentiras. Você mente e mente, e, mesmo quando fala a verdade, distorce-a até virar mentira.
— É mesmo, Lews Therin? Você sabe o que é, quem é. Eu já lhe contei. Assim como aquelas mulheres de Tar Valon. — Rand mudou de posição, e Ba’alzamon soltou uma gargalhada, que soou como um pequeno trovão. — Elas acham que estão seguras em sua Torre Branca, mas, entre meus seguidores, há até algumas delas. A Aes Sedai chamada Moiraine lhe contou quem você é, não contou? Ela mentiu? Ou ela é uma das minhas? A Torre Branca quer usá-lo como um cão em um cabresto. Estou mentindo? Eu minto quando a firmo que você busca a Trombeta de Valere? — Ele gargalhou outra vez. Mesmo com a serenidade do vazio, Rand precisou se controlar para não tampar os ouvidos. — Às vezes, velhos inimigos lutam por tanto tempo que se tornam aliados e nem percebem. Eles pensam que o atacam, mas estão tão conectados que é como se você mesmo desse o golpe.
— Você não me guia — afirmou Rand. — Eu o renego.
— Eu tenho mil cordas atadas a você, Fratricida, cada uma mais fina que a seda e mais forte que o aço. O tempo atou mil cordas a nós dois. A batalha que temos lutado, você se lembra de alguma parte? Tem algum vislumbre do que lutamos antes, das incontáveis batalhas que remontam ao início do Tempo? Eu sei muita coisa que você não sabe! Essa batalha logo chegará ao fim. A Última Batalha está chegando. A última, Lews Therin. Você realmente pensa que pode evitá-la? Seu pobre verme trêmulo! Você me servirá ou morrerá! E, desta vez, o ciclo não reiniciará com sua morte. O túmulo pertence ao Grande Senhor das Trevas. Desta vez, se você morrer, será completamente destruído. Desta vez, a Roda será quebrada não importa o que faça, e o mundo será refeito com um novo molde. Sirva-me! Sirva a Shai’tan, ou será destruído para sempre!
O ar pareceu ficar mais denso com o som daquele nome. A escuridão atrás de Ba’alzamon inchou e cresceu, ameaçando engolir tudo. Rand a sentiu engolfá-lo, ao mesmo tempo mais fria que o gelo e mais quente que carvões, era mais negra que a morte e o sugava para suas profundezas, engolindo o mundo.
Ele agarrou o cabo da espada com força, até os dedos doerem.
— Eu renego você, renego seu Poder. Eu caminho na Luz. A Luz nos preserva, e nos abrigamos na palma da mão do Criador. — Ele piscou. Ba’alzamon ainda estava ali, e a enorme escuridão ainda pendia atrás dele, mas era como se tudo o mais tivesse sido apenas ilusão.
— Você quer ver meu rosto? — A pergunta veio em um sussurro.
Rand engoliu em seco.
— Não.
— Mas devia.
Uma mão enluvada se elevou até a máscara negra.
— Não!
A máscara caiu. Era um rosto de homem horrivelmente queimado. Entre as fissuras vermelhas com bordas pretas que entrecruzavam aquele rosto, no entanto, a pele parecia saudável e suave. Olhos escuros encaravam Rand, e lábios cruéis sorriam em um clarão de dentes brancos.
— Olhe para mim, Fratricida, e veja a centésima parte de seu próprio destino. — Por um momento, aqueles olhos e boca se tornaram portas para infinitas cavernas de fogo. — É isso que usar o Poder sem restrições pode fazer, até mesmo comigo. Mas eu me curo, Lews Therin. Eu conheço os caminhos para um poder maior. Ele queimará você como uma mariposa voando direto para uma fornalha.