— Eu não o tocarei! — Rand sentiu o vazio ao seu redor, sentiu saidin. — Não tocarei.
— Você não consegue evitar.
— Deixe-me… em… PAZ!
— Poder. — A voz de Ba’alzamon se tornou suave, insinuante. — Você pode ter poder outra vez, Lews Therin. Está vinculado a ele agora, neste momento. Eu sei. Posso ver. Sinta o brilho dentro de você. Sinta o poder que está ao seu alcance. Tudo o que precisa fazer é estender as mãos e agarrá-lo. Mas a Sombra está no meio do caminho. Loucura e morte. Você não precisa morrer, Lews Therin, nunca mais.
— Não — respondeu Rand, mas a voz continuou, perfurando-o.
— Eu posso ensiná-lo a controlar esse poder para que ele não o destrua. Não há mais ninguém vivo que possa lhe ensinar isso. O Grande Senhor das Trevas pode protegê-lo da loucura. O poder pode ser seu, e você pode viver para sempre. Para sempre! Tudo o que precisa fazer em troca é servir. Apenas servir. Palavras simples: “Eu sou seu, Grande Senhor.” E o poder será seu. Poder além do que sonham aquelas mulheres de Tar Valon. E vida eterna. Basta você se oferecer e servir.
Rand umedeceu os lábios. Não enlouquecer. Não morrer.
— Nunca! Eu caminho na Luz — exclamou, rouco — e você jamais poderá me tocar!
— Tocá-lo, Lews Therin? Tocá-lo? Eu posso consumi-lo! Experimente e entenda, como eu entendia!
Aqueles olhos escuros se tornaram fogo outra vez, e aquela boca virou uma chama que brotou e cresceu até parecer mais brilhante que um sol de verão. Cresceu, e de repente a espada de Rand brilhou como se tivesse acabado de sair da forja. Ele berrou quando a bainha queimou suas mãos, gritou e deixou a espada cair. E a neblina pegou fogo, um fogo imprevisível, um fogo que queimava tudo.
Gritando, Rand batia nas roupas fumegantes, que eram consumidas e caíam em cinzas. Batia com as mãos, que, aos poucos, escureciam e murchavam enquanto a carne nua rachava e descascava nas chamas. Ele gritou. A dor pulsava no vazio dentro dele, que tentou se arrastar mais para o fundo. O brilho estava lá, a luz maculada estava quase ao seu alcance. Meio louco, sem se importar mais com o que era, ele estendeu seus sentidos para saidin e tentou envolvê-la ao seu redor, tentou se esconder das queimaduras e da dor.
Tão de repente quanto começou, o fogo acabou. Rand olhou, espantado, para a mão que saía da manga vermelha de seu casaco. Não havia sequer um chamuscado na lã. Eu imaginei aquilo tudo. De modo frenético, olhou ao redor. Ba’alzamon havia desaparecido. Ainda dormindo, Hurin se remexeu. O farejador e Loial ainda eram apenas dois montes se destacando na neblina baixa. Eu imaginei mesmo.
Antes que tivesse a chance de ficar aliviado, uma dor espetou sua mão direita, e ele a virou para olhar. Sobre a palma, estava a marca de uma garça. A garça do cabo de sua espada, furiosa e vermelha, tão bem-feita quanto se tivesse sido desenhada com a habilidade de um artista.
Rand tirou um lenço do bolso do casaco e o enrolou na mão. Ela latejava. O vazio ajudaria, pois ele ficava apenas ciente da dor no vazio, sem senti-la, mas Rand afastou o pensamento. Por duas vezes, agora, uma vez sem saber e outra de propósito, não podia esquecer, ele tentara canalizar o Poder Único enquanto estava no vazio. Era com aquilo que Ba’alzamon queria tentá-lo. Era aquilo que Moiraine e o Trono de Amyrlin queriam que ele fizesse. E ele não faria.
16
No Espelho da Escuridão
— O senhor não devia ter feito isso, Lorde Rand — censurou Hurin quando o rapaz os despertou logo ao raiar do dia. O sol ainda estava escondido abaixo do horizonte, mas havia luz o bastante para enxergar. A neblina havia se dissipado quando ainda estava escuro, dispersando-se com relutância. — Se você ficar cansado por ter nos poupado, milorde, quem nos levará para casa?
— Eu precisava pensar — explicou Rand. Nada indicava que Ba’alzamon ou a neblina haviam estado ali. O rapaz tocou o lenço enrolado na mão direita. Aquilo era prova de que Ba’alzamon estivera ali. Ele queria ir embora daquele lugar. — Já está na hora de subir na sela se quisermos alcançar os Amigos das Trevas de Fain. Passou da hora. Podemos comer pão enquanto cavalgamos.
Loial, que se espreguiçava, parou de repente. Seus braços atingiam uma altura que só poderiam alcançar se Hurin ficasse de pé sobre os ombros de Rand.
— Sua mão, Rand. O que houve?
— Eu a machuquei. Não foi nada.
— Eu coloquei um bálsamo nos alforjes…
— Não é nada! — Rand percebeu que falara com rispidez, mas um vislumbre da marca com certeza suscitaria perguntas às quais ele não queria responder. — Estamos perdendo tempo. Vamos embora.
Ele começou a encilhar Vermelho com dificuldade, por causa da mão ferida, e Hurin subiu em seu cavalo.
— Não precisa ficar tão nervoso — resmungou Loial.
Um rastro, decidiu Rand, quando partiram, seria algo natural naquele mundo. Havia um excesso de coisas antinaturais por ali. Até mesmo uma única pegada de cavalo seria bem-vinda. Fain, os Amigos das Trevas e os Trollocs deveriam ter deixado alguma marca. Ele se concentrou no chão por onde passavam, tentando distinguir algum sinal de que algo vivo tinha passado por ali.
Não havia nada, nem uma pedra virada ou um punhado de terra remexido. Ele chegou a olhar para o chão atrás deles, mais uma vez, apenas para se assegurar de que os cascos deixavam marcas naquela terra. O solo revirado e os talos de grama amassados indicavam a passagem deles, mas o caminho à frente estava intacto. No entanto, Hurin insistia que podia sentir o rastro, fraco e fino, que ainda conduzia ao sul.
Mais uma vez, o farejador se concentrou no rastro que seguiam, como um cão de caça farejando cervos, e, mais uma vez, Loial cavalgou perdido em pensamentos, murmurando sozinho e esfregando o imenso bordão que levava à sua frente na sela.
Cavalgavam havia menos de uma hora quando Rand viu o pináculo à frente. Estava tão ocupado à procura de rastros que só reparou na alta coluna afunilada quando já se projetava sobre as árvores um pouco adiante.
— O que será aquilo? — A coluna ficava bem no caminho deles.
— Não sei o que pode ser, Rand — respondeu Loial.
— Se este… se aqui fosse nosso mundo, Lorde Rand… — Hurin mudou de posição na sela, desconfortável. — Bem, aquele monumento que Lorde Ingtar mencionou, que foi erguido para celebrar a vitória de Artur Asa-de-gavião sobre os Trollocs, era um enorme pináculo. Mas foi destruído havia mil anos. Não restou nada, a não ser uma grande elevação, parecida com uma colina. Eu o vi quando fui a Cairhien a mando de Lorde Agelmar.
— De acordo com Ingtar — comentou Loial —, o monumento ainda está a três ou quatro dias de viagem. Se é que há um igual aqui; não sei por que teria. Acho que não existem pessoas neste lugar.
O farejador voltou a olhar para o chão.
— Mas é isso, não é, Construtor? Não tem ninguém aqui, mas aí está o monumento à nossa frente. Talvez devêssemos ficar longe dele, milorde Rand. Não dá para saber o que é ou quem pode estar lá, em uma terra como esta.
Rand tamborilou os dedos no cepilho de sua sela por um momento, pensando.
— Precisamos ficar o mais perto possível do rastro — disse, por fim. — Não parece que estamos nos aproximando de Fain nesse passo, e não quero perder mais tempo, se puder evitar. Se virmos alguma pessoa ou qualquer coisa fora do comum, daremos a volta até retomarmos o caminho. Mas até lá, continuaremos em frente.
— Como quiser, milorde. — A voz do farejador saiu estranha, e ele olhou de soslaio para Rand. — Como quiser.
O rapaz franziu a testa por um instante, antes de entender qual era o problema, então foi sua vez de suspirar. Lordes não se explicavam a seus seguidores, apenas a outros lordes. Eu não pedi a ele que pensasse que sou um maldito lorde. Mas ele pensa , pareceu responder uma vozinha, e você está deixando. Você optou por isso, a obrigação agora é sua.