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Outro grito se fez ouvir, mais desesperado que o primeiro.

— A menos que ela saiba voar — disse Rand —, está atrás de nós, vindo do sul. — Ele chutou os flancos de Vermelho para sair em disparada.

— Tome cuidado, você mesmo disse! — gritou Loial, atrás dele. — Luz, Rand, lembre-se! Tome cuidado!

Rand inclinou-se em sua sela, deixando o garanhão correr. Os gritos o atraíram. Era fácil dizer para tomar cuidado, mas aquela mulher estava aterrorizada. Ela não gritava como se ele tivesse tempo para tomar cuidado. À beira de outro riacho, em um canal de margens íngremes mais fundas do que a maioria, ele puxou as rédeas. Vermelho parou, provocando uma chuva de pedras e terra. Os gritos vinham… dali!

Um olhar bastou para ver o que se passava. A uns duzentos passos de distância, uma mulher estava de pé ao lado de seu cavalo, no riacho, ambos colados à outra margem. Com um pedaço de galho, ela se defendia de… alguma coisa que rosnava para ela. Por um momento, Rand engoliu em seco, aturdido. Era como um sapo do tamanho de um urso, ou um urso com a pele verde-acinzentada de um sapo. Um urso dos grandes.

Sem parar para pensar na criatura, ele saltou de seu cavalo e sacou o arco. Se tentasse se aproximar a cavalo, poderia não dar tempo. A mulher mal conseguia conter a… coisa… com o galho. Era uma boa distância, e ele não parava de piscar enquanto tentava calculá-la, pois ela parecia variar em algumas braças toda vez que a criatura se movia, e era um alvo grande. Sua mão enfaixada tornava di ícil puxar a corda do arco, mas Rand disparou uma flecha pouco antes de seus pés tocarem o chão.

A flecha afundou até a metade naquela pele dura, e a criatura se virou para encarar Rand, que recuou um passo, apesar da distância. Jamais vira um animal com cabeça em forma de cunha, muito menos com um bico serrilhado em forma de gancho, perfeito para arrancar carne. E tinha três olhos, pequenos e ferozes, emoldurados por pelos que pareciam duros. Recuperando-se, a criatura começou a atravessar o riacho na direção de Rand em grandes saltos, espirrando água para todos os lados. Aos olhos do rapaz, alguns dos saltos pareciam cobrir o dobro da distância de outros, embora tivesse certeza de não haver diferença real entre eles.

— Nos olhos! — gritou a mulher. Ela parecia estranhamente calma, considerando seus gritos. — Você precisa acertar nos olhos para matá-lo.

Ele puxou outra flecha até a orelha. Relutante, procurou o vazio. Não queria, mas fora assim que Tam lhe ensinara, e ele sabia que nunca conseguiria acertar o alvo sem isso. Meu pai, pensou, com uma sensação de perda, e o vazio o preencheu. A luz tremeluzente de saidin estava ali, mas ele a ignorou. Ele era um com o arco, com a flecha, com a forma monstruosa que saltava em sua direção. Um com o olho minúsculo. Ele sequer sentiu a flecha abandonar a corda do arco.

A criatura subiu em mais um salto, e, no auge, a flecha atingiu o olho do meio. A coisa caiu, espalhando uma imensa quantidade de água e lama. Sua queda provocou ondulações na água, mas a criatura não se levantou.

— Um bom tiro, e disparado com bravura — disse a mulher. Ela estava montada em seu cavalo, indo a seu encontro. Rand sentiu uma vaga surpresa por ela não ter fugido assim que a criatura foi distraída. Ela passou direto pelo ser caído, cujos movimentos ainda geravam pequenas ondulações enquanto morria, e sequer olhou para baixo. Subiu a margem com seu cavalo e desmontou. — Poucos homens teriam coragem de enfrentar o ataque de um grolm, milorde.

Ela estava toda de branco: seu vestido de cavalgada tinha uma divisão nas saias e era cingido de prata, e as botas que despontavam sob a bainha do vestido também tinham ornamentos prateados. Até mesmo a sela era branca, com detalhes em prata. Sua égua, branca como a neve, de pescoço elegante e passos graciosos, era quase da altura do baio de Rand. Mas foi a própria mulher, que o rapaz julgou ter, talvez, a idade de Nynaeve, que chamou sua atenção. Para começar, era alta: se fosse um palmo mais alta, ela quase poderia olhá-lo nos olhos. Além disso, era linda: a pele branca como mar fim contrastava muito com os longos cabelos negros como a noite e os olhos pretos. Ele já vira mulheres bonitas. Moiraine era bonita, embora fria, assim como Nynaeve, quando o mau humor não a deixava de cara feia. Egwene e Elayne, a Filha-Herdeira de Andor, eram belas o bastante para deixar um homem sem fôlego. Mas aquela mulher… Ele ficou sem fala; sentiu o coração começar a bater outra vez.

— Seus criados, milorde?

Assustado, ele olhou ao redor. Hurin e Loial haviam se juntado a eles. Hurin olhava para a mulher do jeito que Rand sabia ter olhado, e até o Ogier parecia fascinado.

— Meus amigos — respondeu. — Loial e Hurin. Meu nome é Rand. Rand al’Thor.

— Nunca pensei nisso antes — disse Loial, de súbito, como se estivesse falando sozinho —, mas se existe uma beleza humana perfeita, em rosto e forma, então você…

— Loial! — exclamou Rand.

As orelhas do Ogier se enrijeceram de vergonha. As orelhas do próprio Rand estavam vermelhas, pois as palavras de Loial eram bem parecidas com o que ele estava pensando.

A mulher soltou uma risada musical, mas no instante seguinte parecia repleta de uma formalidade régia, como uma rainha em seu trono.

— Meu nome é Selene — apresentou-se. — Você arriscou sua vida e salvou a minha. Sou sua, Lorde Rand al’Thor. — E, para horror de Rand, ela se ajoelhou diante dele.

Sem olhar para Hurin ou Loial, ele a levantou depressa.

— Um homem que não se dispõe a morrer para salvar uma mulher não é homem. — De repente, ele se envergonhou, corando. Aquele era um ditado shienarano, e ele sabia que soava pomposo antes mesmo de as palavras saírem de sua boca, mas os modos dela o contagiaram, e ele não conseguiu evitar. — Quer dizer… Isto é, foi… — Idiota, você não pode dizer a uma mulher que salvar a vida dela não foi nada. — A honra foi minha. — Aquilo soou vagamente shienarano e formal. Torceu para que servisse, pois sua mente estava tão vazia de ideias sobre o que dizer que era como se ele ainda estivesse no vazio.

Então se deu conta do olhar dela fixo nele. A expressão não mudara, mas aqueles olhos escuros o faziam sentir-se nu. Sem querer, pensou em Selene sem roupas. Seu rosto voltou a ficar vermelho.

— Aaah! Ah, de onde você é, Selene? Não vimos outro ser humano desde que chegamos aqui. Sua cidade fica por perto?

Ela o encarou, pensativa, e ele recuou. Aquele olhar o deixara consciente de como estavam próximos.

— Não sou deste mundo, milorde — respondeu ela. — Não existem pessoas aqui. Não há nada vivo, a não ser os grolm e algumas criaturas como eles. Eu sou de Cairhien. E não sei bem como vim parar aqui. Saí para cavalgar e parei para tirar um cochilo, e, quando acordei, eu e meu cavalo estávamos aqui. Só posso esperar, milorde, que o senhor possa me salvar outra vez e me ajudar a voltar para casa.

— Selene, eu não sou um… Quer dizer, por favor, chame-me apenas de Rand. — Ele sentiu as orelhas queimarem outra vez. Luz, não fará mal algum ela pensar que sou um lorde. Que me queime, não fará mal algum!

— Se é o que deseja… Rand. — O sorriso dela fez a garganta do rapaz se apertar. — Você vai me ajudar?

— Claro que sim. — Que me queime, como ela é bonita! E me olha como se eu fosse o herói de alguma história . Ele sacudiu a cabeça para espantar aqueles pensamentos tolos. — Mas antes precisamos encontrar os homens que estamos seguindo. Vou tentar mantê-la fora de perigo, mas precisamos encontrá-los. Venha conosco, é melhor do que ficar aqui sozinha.

Por um momento, ela ficou em silêncio, com o rosto impassível e calmo. Rand não tinha ideia do que ela estava pensando, mas parecia que o analisava outra vez.

— Um homem que cumpre seu dever — disse, por fim. Um pequeno sorriso tocou seus lábios. — Gosto disso. Sim. Quem são esses malfeitores que o senhor segue?