— Os Amigos das Trevas e os Trollocs, milady — respondeu Hurin, de repente. Ele fez uma mesura desajeitada, ainda em sua sela. — Eles cometeram um assassinato na fortaleza de Fal Dara e roubaram a Trombeta de Valere, milady, mas Lorde Rand vai recuperá-la.
Rand olhou com pesar para o farejador, e Hurin deu um sorrisinho fraco. Lá se vai o segredo. Aquilo não importava ali, imaginou, mas quando voltassem ao seu mundo…
— Selene, você não deve contar sobre a Trombeta a ninguém. Se a notícia se espalhar, teremos mil pessoas em nossos calcanhares tentando pegá-la para si mesmas.
— Não, de jeito nenhum — retrucou Selene —, pois ela não pode cair em mãos erradas. A Trombeta de Valere. Não consigo lhe dizer quantas vezes sonhei em tocá-la, segurá-la em minhas mãos. O senhor precisa me prometer que, quando a pegar, vai me deixar tocá-la.
— Antes de fazer isso, precisamos encontrá-la. E é melhor começarmos a andar. — Rand ofereceu a mão para ajudá-la a montar, e Hurin desceu correndo para segurar o estribo. — Seja o que for aquilo que matei… um grolm?… Pode haver mais deles por perto.
A mão dela era firme, segurando a sua com uma força surpreendente, e sua pele era como… seda? Algo mais macio, mais suave. Rand sentiu um arrepio.
— Sempre há — respondeu Selene. A égua branca e alta agitou-se e mostrou os dentes para Vermelho, mas o toque de Selene nas rédeas a aquietou.
Rand colocou o arco atravessado nas costas e montou em Vermelho. Luz, como a pele de alguém pode ser tão suave?
— Hurin, onde está o rastro? Hurin? Hurin?
O farejador levou um susto e parou de encarar Selene.
— Sim, Lorde Rand. Ah… o rastro. Sul, milorde. Ainda sul.
— Então vamos cavalgar. — Rand olhou apreensivo para a massa verde-acinzentada do grolm caída no riacho. Tinha sido melhor acreditar que eles três eram as únicas coisas vivas naquele mundo. — Siga o rastro, Hurin.
No começo, Selene cavalgou ao lado de Rand, tagarelando sobre tudo, fazendo-lhe diversas perguntas e chamando-o de lorde. Ele tentou dizer várias vezes que não era lorde, e sim um pastor, e todas as vezes em que a olhava, não conseguia pronunciar as palavras. Uma dama como ela não conversaria do mesmo jeito com um pastor, mesmo que esse pastor tivesse salvado sua vida.
— Você será um grande homem quando encontrar a Trombeta de Valere — disse-lhe ela. — Um homem digno de lendas. O homem que soar a Trombeta criará suas próprias lendas.
— Eu não quero soá-la, nem quero fazer parte de lenda nenhuma. — Ele não sabia se ela estava usando perfume, mas a mulher parecia exalar um aroma, algo que ocupava toda a sua cabeça com ela. Especiarias doces e picantes provocavam cócegas em seu nariz, fazendo-o engolir em seco.
— Todos os homens querem ser grandes. Você poderia ser o maior de todas as Eras.
Aquilo parecia demais com o que Moiraine dissera. O Dragão Renascido decerto se destacaria ao longo das Eras.
— Não — respondeu, com fervor. — Eu só… — Ele pensou no desprezo dela se lhe dissesse agora que era apenas um pastor depois de deixá-la acreditar que era um lorde, e mudou o que ia dizer. — Eu só estou tentando encontrá-la. E ajudar um amigo.
Ela ficou calada por um instante, então observou:
— Você machucou sua mão.
— Não é nada.
Ele tentou enfiar a mão ferida no casaco. Ela latejava de tanto segurar as rédeas, mas Selene estendeu uma das mãos e pegou a dele.
Rand ficou tão surpreso que permitiu, e então não havia nada a fazer, apenas puxar a mão com brutalidade ou deixá-la desamarrar o lenço. O toque dela era frio e seguro. A palma dele estava bem vermelha e inchada, mas a garça ainda se destacava, muito óbvia.
Ela tocou a marca com um dedo, mas não disse nada a respeito, nem mesmo para perguntar como acontecera.
— Você pode ficar sem conseguir dobrar direito a mão, se isto não for tratado. Tenho um unguento que pode ajudar. — De um bolso interno do manto, ela puxou um pequeno frasco de pedra, abriu-o e começou a esfregar uma pomada branca na queimadura com suavidade, enquanto cavalgavam.
O unguento era frio no começo, mas depois pareceu derreter-se e liberar calor na pele. E funcionou tão bem quanto os de Nynaeve às vezes funcionavam. Ele observou, surpreso, a vermelhidão desaparecer e o inchaço diminuir sob o toque suave de Selene.
— Alguns homens — começou ela, sem tirar os olhos da mão dele — escolhem buscar a grandeza, ao passo que outros são forçados a ela. É sempre melhor escolher do que ser forçado. Um homem que é forçado nunca é inteiramente senhor de si, precisa dançar de acordo com os cordéis de quem o forçou.
Rand puxou a mão. A marca parecia ter sido gravada em sua pele havia uma semana ou mais, praticamente curada.
— Como assim? — quis saber, quase ríspido.
Ela sorriu para ele, que sentiu vergonha de sua explosão.
— Ora, a Trombeta, é claro — respondeu, bem calma, guardando a pomada. Sua égua, que andava ao lado do Vermelho, era alta o bastante para que os olhos dela ficassem apenas um pouco abaixo dos de Rand. — Se você encontrar a Trombeta de Valere, não haverá como escapar da grandeza. Mas ela lhe será forçada ou você a tomará para si? Eis a questão.
Ele flexionou a mão. Selene tinha um jeito de falar tão parecido com o de Moiraine.
— Você é uma Aes Sedai?
As sobrancelhas de Selene se ergueram. Seus olhos escuros reluziram para ele, mas sua voz saiu suave:
— Aes Sedai? Eu? Não.
— Não quis ofendê-la. Desculpe.
— Me ofender? Não estou ofendida, mas não sou Aes Sedai. — Seu lábio se curvou em desprezo, mas até essa expressão era bonita. — Elas se encolhem no que pensam ser segurança quando poderiam fazer tanta coisa. Elas servem quando poderiam governar; deixam homens lutarem em guerras quando poderiam trazer ordem ao mundo. Não, nunca me chame de Aes Sedai. — Ela sorriu e pôs a mão no braço de Rand, para mostrar que não estava zangada. Aquele toque o fez engolir em seco. O rapaz ficou aliviado quando ela deixou a égua ficar para trás, ao lado de Loial. Hurin abaixou a cabeça para ela, como um velho criado de família.
Rand ficou aliviado, mas também sentiu falta de sua companhia. Ela estava apenas a duas braças de distância. Ele se virou na sela para vê-la cavalgando ao lado de Loial, que se curvava na sela para falar com a jovem. Mas não era a mesma coisa do que ela estar logo ali a seu lado, perto o bastante para sentir aquele cheiro inebriante, perto o bastante para tocá-la. Ele se endireitou, com raiva. Não que quisesse tocá-la exatamente. Lembrou a si mesmo de que amava Egwene e sentiu-se culpado por precisar desse lembrete. Mas ela era linda, achava que ele era um lorde e dissera que ele poderia ser um grande homem. Ele discutiu consigo mesmo, amargo, em pensamentos. Moiraine também diz que você pode ser grande, que é o Dragão Renascido. Selene não é uma Aes Sedai. Isso mesmo, ela é uma nobre de Cairhien, e você é um pastor. Ela não sabe disso. Por quanto tempo você vai deixar que ela acredite nessa mentira? Só até sairmos daqui. Se sairmos. Ao se dar conta daquilo, seus pensamentos se aquietaram, deixando um silêncio lúgubre.
Ele tentou ficar de olho no terreno por onde cavalgavam, pois, se Selene dissera que havia mais daquelas coisas, daqueles grolm, por ali, ele acreditava. Hurin estava concentrado demais em farejar o rastro para reparar em qualquer outra coisa, e Loial estava concentrado demais em sua conversa com Selene para notar algo até que aquilo o mordesse no calcanhar, mas era di ícil manter-se atento. Virar a cabeça rápido demais fazia seus olhos lacrimejarem, e uma colina ou um bosque podiam estar a uma milha de distância de um ângulo e a poucas centenas de braças de outro.
As montanhas estavam ficando mais próximas, disso, ele tinha certeza. A Adaga do Fratricida assomava-se no céu, uma imensidão serrilhada e de picos nevados. A terra ao redor deles já se elevava em pequenos morros, que anunciavam a chegada das montanhas. Eles alcançariam a borda das montanhas bem antes de escurecer, talvez em apenas uma hora. Mais de cem léguas em menos de três dias. Pior do que isso: passamos grande parte de um dia ao sul do Erinin, no mundo real. Foram mais de cem léguas em menos de dois dias aqui.