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De súbito, Selene sorriu e fez uma mesura debochada.

— Manterei seu segredo, lorde Rand al’Thor.

Rand olhou de relance para ela e pigarreou outra vez. Ela está zangada comigo? Ficaria zangada se eu tivesse tentado beijá-la, acho . Desejou que ela não o olhasse daquele jeito, como se soubesse o que ele estava pensando.

— Hurin, existe alguma chance de que os Amigos das Trevas tenham usado essa Pedra antes de nós?

O farejador negou com a cabeça, timidamente.

— Eles estavam se desviando para oeste, Lorde Rand. A menos que esses portais sejam mais comuns do que eu imagino, diria que ainda estão naquele outro mundo. Mas eu não levaria nem uma hora para veri ficar. A terra aqui é a mesma de lá, e eu conseguiria encontrar o lugar onde perdi o rastro, se é que o senhor me entende, e ver se eles já estão longe.

Rand olhou para o céu. O sol, um sol maravilhosamente forte e nem um pouco pálido, já ia baixo a oeste, estendendo as sombras dos quatro sobre a clareira. O crepúsculo deveria chegar em mais uma hora.

— Pela manhã — respondeu. — Mas receio que já os perdemos. — Não podemos perder aquela adaga! Não podemos! — Selene, se esse for o caso, pela manhã nós a levaremos de volta ao seu lar. Fica na cidade de Cairhien mesmo, ou…?

— Pode ser que vocês ainda não tenham perdido a Trombeta de Valere — disse Selene, baixinho. — Como sabem, eu sei um pouco sobre esses mundos.

Espelhos da Roda — concordou Loial.

Ela o olhou, então assentiu.

— Sim. Exatamente. Esses mundos de fato são uma espécie de espelhos, ainda mais aqueles que não têm gente. Uns refletem apenas grandes acontecimentos do mundo verdadeiro, enquanto outros já têm uma sombra desse re flexo antes mesmo que o evento ocorra. A passagem da Trombeta de Valere decerto seria um grande acontecimento. Re flexos do que será se revelam mais fracos do que re flexos do que é ou do que foi, e Hurin disse que o rastro que seguiu estava fraco.

Hurin piscou, incrédulo.

— A senhora quer dizer, milady, que eu estava sentindo o cheiro de onde aqueles Amigos das Trevas vão passar? Que a Luz me ajude, eu não gostaria disso! Já é ruim o bastante sentir onde a violência esteve, sem ter que sentir também onde ela vai estar. Não deve haver muitos pontos onde não acontecerá algum tipo de violência em algum momento. Isso seria o bastante para me deixar louco. Aquele lugar de onde acabamos de sair quase conseguiu. Lá, eu podia sentir o tempo todo o cheiro de morte, sofrimento e o mal mais vil que se pode imaginar. Podia até mesmo sentir o cheiro daquilo em nós. Em todos nós. Até mesmo na senhora, milady, se me permite dizer. É que aquele lugar mexeu tanto comigo como mexia com meus olhos. — Ele tremeu. — Estou feliz por termos saído. Ainda não consegui parar de sentir aquele cheiro.

Rand esfregou a marca na palma da mão, distraído.

— O que acha, Loial? Será que é mesmo possível estarmos à frente dos Amigos das Trevas de Fain?

O Ogier deu de ombros, franzindo a testa.

— Não sei, Rand. Não sei nada sobre isso. Acho que voltamos ao nosso mundo. Acho que estamos na Adaga do Fratricida. Tirando isso… — Ele deu de ombros outra vez.

— Deveríamos levá-la para casa, Selene — disse Rand. — Sua família deve estar preocupada.

— Em alguns dias veremos que estou certa — interrompeu ela, com impaciência. — Hurin consegue descobrir onde perdeu o rastro, ele mesmo disse. Podemos vigiar o rastro. A Trombeta de Valere não deve estar muito além do alcance, aqui. A Trombeta de Valere, Rand. Pense nisso. O homem que soar a Trombeta será uma lenda para sempre.

— Eu não quero ter nada a ver com lendas — respondeu, ríspido. Mas se os Amigos das Trevas passarem por você… E se Ingtar os perder? Os Amigos das Trevas ficarão com a Trombeta de Valere para sempre, e Mat morrerá . — Está certo, em alguns dias. Na pior das hipóteses, é provável que a gente encontre Ingtar e os outros. Não acho que eles tenham parado ou voltado só porque nós… fomos embora.

— Sábia decisão, Rand — concordou Selene —, e bem pensada.

Ela tocou o braço dele e sorriu, e Rand se viu pensando outra vez em beijá-la.

— Ah… precisamos ir mais para perto de onde eles passarão, se passarem. Hurin, pode encontrar um lugar para acamparmos antes de escurecer, um lugar de onde possamos vigiar o ponto onde você perdeu o rastro? — Ele olhou de relance para a Pedra-portal e pensou em dormir ali ao lado, mas se lembrou de como o vazio se insinuara nele durante o sono, da última vez, e na luz dentro do vazio. — Um lugar bem longe daqui.

— Pode deixar, Lorde Rand. — O farejador subiu na sela depressa. — Juro que nunca mais vou dormir sem analisar o tipo de pedra que existe por perto.

Quando Rand tirou Vermelho da clareira, surpreendeu-se olhando mais para Selene do que para Hurin. Ela parecia tão calma e controlada… Não era mais velha do que ele, mas tinha um aspecto régio. No entanto, quando sorria para Rand, como fizera havia pouco… Egwene não teria dito que eu era sábio. Ela teria me chamado de cabeça de lã. Irritado, meteu os calcanhares nos flancos de Vermelho.

18

Rumo à Torre Branca

Egwene se equilibrou no convés instável enquanto o Rainha do Rio descia depressa o largo Erinin, sob um céu de nuvens escuras, com as velas bem in ladas e o estandarte da Chama Branca balançando com violência no mastro principal. A intensidade do vento aumentara assim que o último passageiro subiu a bordo dos navios, lá em Meddo, e desde então não falhara nem diminuíra por um instante sequer, de dia ou de noite. A corrente do rio aumentara e ele transbordara, como ainda fazia, batendo nos navios enquanto os impulsionava para a frente. O vento e o rio não diminuíam a velocidade, muitos menos os navios que viajavam juntos. O Rainha do Rio liderava, o que era de se esperar do transporte que levava o Trono de Amyrlin.

O timoneiro segurava o leme muito sério, com os pés bem separados plantados no convés, e os marinheiros caminhavam descalços, concentrados em suas tarefas. Quando olhavam para o céu ou para o rio, afastavam os olhos de repente, resmungando em voz baixa. Uma aldeia desaparecia do campo de visão atrás deles naquele instante, e um garoto corria ao longo da margem. Ele correra com os navios por uma curta distância, mas agora estava ficando para trás. Quando o menino desapareceu, Egwene foi lá para baixo.

Na pequena cabine que dividiam, Nynaeve, em sua cama estreita, a olhou irritada.

— Disseram que chegaremos a Tar Valon ainda hoje. Que a Luz me ajude, mas vou ficar feliz em pôr os pés em terra firme outra vez, mesmo que seja em Tar Valon. — O navio sacolejou com o vento e a correnteza, e Nynaeve engoliu em seco. — Nunca mais pisarei em um barco — disse, sem fôlego.

Egwene sacudiu as gotículas de água do rio de seu manto e o pendurou em um gancho na porta. Não era uma cabine grande, não havia cabines grandes no navio, pelo que parecia, nem mesmo a do capitão, que a Amyrlin tomara para si, embora fosse maior do que as outras. Com as duas camas embutidas nas paredes, prateleiras entre elas e gabinetes acima, tudo ficava mais à mão.

Embora não fosse fácil manter o equilíbrio, os movimentos do navio não a incomodavam como à Nynaeve. Egwene desistira de oferecer comida à Sabedoria depois da terceira vez que a mulher jogou a tigela nela.

— Estou preocupada com Rand — disse.

— Estou preocupada com todos eles — respondeu Nynaeve, com tristeza. Depois de um instante, perguntou: — Teve outro sonho ontem à noite? Do jeito que ficou olhando para o nada desde que se levantou…