— Me solte! — grunhiu Nynaeve. Seu olhar estava furioso e sua cabeça virava com força para os lados, mas o restante de seu corpo continuava sentado com a mesma rigidez de uma estátua. Egwene percebeu que não era a única que estava sendo contida. — Me solte!
— Útil, não acha? E é apenas Ar — comentou a Amyrlin com naturalidade, como se estivessem conversando durante o chá. — Um homem grande, com músculos e espada, e isso lhe é de tanta serventia quanto os pelos do peito.
— Me solte, estou mandando!
— E se eu não gostar de onde ele está, ora, posso levantá-lo.
Nynaeve gritou, furiosa, quando seu corpo subiu devagar, ainda sentado, até a cabeça quase tocar o teto.
A Amyrlin sorriu e continuou:
— Muitas vezes, eu quis usar isso para voar. Os registros dizem que as Aes Sedai conseguiam voar na Era das Lendas mas não explicam bem como. Não era assim, no entanto. Não funciona deste jeito. Você poderia carregar um baú do seu peso; Você parece forte. Mas, por mais que tente, não dá para carregar a si mesma.
Nynaeve sacudiu a cabeça com violência, mas nenhum outro músculo se mexeu.
— Que a Luz a queime, me solte!
Egwene engoliu em seco e torceu para não ser levantada também.
— Então — continuou a Amyrlin —, homem grande, peludo, e por aí vai. Ele não consegue me atingir, mas eu posso fazer o que quiser com ele. Ora, se eu quisesse… — Ela se inclinou para a frente, mantendo os olhos fixos em Nynaeve, e de repente seu sorriso não parecia mais tão amigável. — Se eu quisesse, poderia virá-lo de cabeça para baixo e lhe dar umas palmadas no traseiro. Bem as… — De repente, a Amyrlin voou para trás com tanta força que sua cabeça bateu na parede e ficou ali, como se algo a empurrasse.
Egwene a encarou, com a boca seca. Isto não está acontecendo. Não está.
— Elas tinham razão — comentou a Amyrlin. Sua voz soava forçada, como se estivesse com dificuldade de respirar. — Disseram que você aprendia rápido. E também que era preciso deixá-la queimando de raiva para alcançar o ápice da sua capacidade. — Ela respirou fundo, com dificuldade. — Vamos nos soltar juntas, criança?
Nynaeve, ainda flutuando e com os olhos em chamas, respondeu:
— Me solte agora mesmo ou eu… — De repente, uma expressão de espanto percorreu seu rosto, uma expressão de perda. Ela mexeu a boca, mas não fez barulho.
A Amyrlin se sentou, ajeitando os ombros.
— Você ainda não sabe tudo, não é, criança? Nem a centésima parte de tudo. Não suspeitava que eu podia isolá-la da Fonte Verdadeira. Você ainda pode senti-la, mas não pode tocá-la, assim como um peixe não pode tocar a lua. Quando aprender o suficiente para ser elevada à condição de irmã, nenhuma mulher será capaz de fazer isso com você. Quanto mais forte se tornar, mais Aes Sedai serão necessárias para prendê-la contra sua vontade. Agora acha que quer aprender? — Nynaeve pressionou os lábios em uma linha fina e a encarou com um olhar lúgubre. A Amyrlin suspirou. — Se você tivesse um pouquinho menos de potencial, criança, eu lhe mandaria para a Mestra das Noviças e diria a ela para mantê-la lá pelo resto da vida. Mas você vai ter o que merece.
Nynaeve arregalou os olhos e só teve tempo para esboçar um grito antes de cair, atingindo a cama com um estrondo. Egwene estremeceu: os colchões eram inos, e a madeira embaixo era dura. O rosto de Nynaeve permaneceu impassível ao ajeitar o corpo quase imperceptivelmente.
— E agora — continuou a Amyrlin, com firmeza —, a menos que queira mais demonstrações, seguiremos com a lição. Continuaremos com sua lição, podemos dizer.
— Mãe? — murmurou Egwene. Ela ainda não conseguia mexer nada abaixo do queixo.
A Amyrlin lançou-lhe um olhar interrogativo, então sorriu.
— Ah, desculpe, criança. Me distraí com sua amiga, receio. — Egwene pôde se mover outra vez. Ela levantou os braços, só para se convencer disso. — Vocês duas estão prontas para aprender?
— Sim, Mãe — respondeu Egwene, mais do que depressa.
A Amyrlin ergueu uma sobrancelha para Nynaeve.
Depois de um instante, a Sabedoria respondeu, com a voz embargada:
— Sim, Mãe.
Egwene soltou um suspiro de alívio.
— Ótimo. Agora vamos lá. Esvaziem seus pensamentos de tudo, a não ser um botão de flor.
Egwene estava suando quando a Amyrlin partiu. Achara que algumas das outras Aes Sedai fossem professoras duras, mas aquela mulher sorridente e de rosto simples sugava cada gota de esforço, extraía-a de você, e, quando não restava mais nada, parecia perfurar seu íntimo e puxar o que ainda havia lá. Mas tudo correra bem. Quando a porta se fechou atrás da Amyrlin, Egwene levantou a mão: uma chama minúscula surgiu, equilibrada um milímetro acima da ponta de seu dedo indicador, depois saiu pulando de ponta em ponta, em cada um de seus dedos. Ela não deveria fazer aquilo sem uma professora, ou pelo menos uma das Aceitas para vigiá-la, mas estava empolgada demais com o progresso para se lembrar disso.
Nynaeve se levantou em um pulo e jogou o travesseiro na porta que se fechava.
— Essa… essa vil, desprezível, miserável… bruxa! Que a Luz a queime! Eu gostaria de dá-la de comer aos peixes! Gostaria de lhe dar um remédio que a deixaria verde pelo resto da vida! Não me interessa se ela é velha o bastante para ser minha mãe, se estivéssemos em Campo de Emond, ela não ficaria sentada assim tão confortável nem por… — Seus dentes rangeram tão alto que Egwene deu um pulo.
Deixando a chama se apagar, Egwene olhou fixamente para o colo. Desejou poder pensar em uma maneira de se esgueirar para fora do quarto sem atrair a atenção de Nynaeve.
A lição não fora boa para Nynaeve, que havia contido seu temperamento em rédea curta até a Amyrlin ir embora. Ela nunca conseguia fazer muito, a menos que estivesse zangada, e tudo saía numa explosão. Depois de uma falha atrás da outra, a Amyrlin fizera todo o possível para atiçá-la outra vez. Egwene desejou que Nynaeve esquecesse que ela estivera lá para testemunhar tudo aquilo.
Nynaeve caminhou, rígida, até a cama e ficou ali parada, encarando a parede atrás com o punho cerrado ao lado do corpo. Egwene olhava cobiçosamente para a porta.
— Não foi culpa sua — disse Nynaeve, e Egwene levou um susto.
— Nynaeve, eu…
A mulher se virou para olhá-la.
— Não foi culpa sua — repetiu, sem soar muito convencida. — Mas se você disser sequer uma palavra a respeito, eu… eu…
— Nem uma palavra — concordou Egwene, mais do que depressa. — Eu nem me lembro de nada para comentar.
Nynaeve a encarou por mais um instante, então assentiu. E deu um sorriso amargo e repentino.
— Luz, eu não sabia que alguma coisa podia ter um gosto pior que raiz de língua-de-ovelha crua. Me lembrarei disso da próxima vez que você fizer uma gracinha, então tome cuidado.
Egwene estremeceu. Aquela fora a primeira tentativa da Amyrlin de provocar a fúria de Nynaeve. Uma massa viscosa escura que brilhava como gordura e tinha um cheiro repulsivo aparecera de súbito e, enquanto a Amyrlin segurava a Sabedoria com o Poder, fora forçada para dentro da boca da mulher. A Amyrlin chegara até mesmo a segurar o nariz de Nynaeve para fazê-la engolir. E a Sabedoria se lembrava das coisas, bastava vê-las sendo feitas apenas uma vez. Egwene não achava que houvesse um jeito de impedi-la se lhe desse vontade de fazer aquilo. Apesar de todo o seu sucesso em fazer uma chama dançar, ela não conseguiria segurar a Amyrlin contra a parede.
— Pelo menos o navio não está mais deixando você enjoada.
Nynaeve soltou um grunhido, depois soltou uma risada seca e curta.
— Estou zangada demais para ficar enjoada. — Com outra risada melancólica, sacudiu a cabeça. — Estou mal demais para ficar enjoada. Luz, parece que fui arrastada por um nó de madeira. Se é esse o treinamento de uma noviça, você tem um incentivo para aprender depressa.