Egwene olhou para os próprios joelhos com uma careta de desagrado. Comparada a Nynaeve, a Amyrlin apenas a provocara de leve. Sorrira com seus sucessos, fora compreensiva com seus fracassos e depois a provocara outra vez. Mas todas as Aes Sedai disseram que seria diferente na Torre Branca. Mais di ícil, embora não explicassem como. Se ela tivesse de passar pelo que Nynaeve passou dia após dia, achava que não poderia suportar.
Alguma coisa mudou no movimento do navio. O balançar cessou, e pés correram no convés acima de suas cabeças. Um homem gritou algo que Egwene não entendeu bem.
Ela olhou para Nynaeve.
— Você acha… Tar Valon?
— Só há um jeito de descobrir — respondeu a outra, tirando o manto do gancho com determinação.
Quando chegaram ao convés, viram marinheiros correndo por todos os lados, soltando cordas, encurtando velas, preparando remos compridos. O vento diminuíra e agora era apenas uma brisa, e as nuvens começavam a se espalhar.
Egwene correu para a amurada.
— É sim! É Tar Valon!
Nynaeve se juntou a ela com o rosto inexpressivo.
A ilha era tão grande que mais parecia que o rio se dividira em dois. Pontes que pareciam feitas de renda se estendiam em arcos de uma margem à outra, cruzando tanto o terreno pantanoso quanto o rio. As muralhas da cidade, as Muralhas Reluzentes de Tar Valon, brilharam brancas quando o sol irrompeu por entre as nuvens. E, na margem oeste, o topo quebrado soltava uma tênue linha de fumaça: o Monte do Dragão assomava, negro, contra o céu, uma montanha se destacando entre terras planas e colinas. O Monte do Dragão, onde o Dragão morrera. O Monte do Dragão, criado pela morte do Dragão.
Egwene desejou não pensar em Rand ao olhar para a montanha. Um homem que pode canalizar. Luz, ajude-o.
O Rainha do Rio passou por uma grande abertura em uma muralha alta e circular que se projetava rio adentro. No interior, um longo cais cercava um porto redondo. Marinheiros recolhiam as últimas velas e usavam apenas os remos para mover o navio até a doca e atracá-lo com a popa voltada para a frente. Ao redor do cais comprido, os navios que chegavam eram conduzidos a blocos de ancoragem entre os navios que já se encontravam lá. O estandarte do Chama Branca fez com que os trabalhadores corressem pelo ancoradouro já cheio.
A Amyrlin chegou ao convés antes que os cabos da margem fossem amarrados, mas os trabalhadores das docas colocaram uma prancha a bordo assim que ela apareceu. Leane caminhava ao seu lado, com o cajado com ponta de chama na mão, e as outras Aes Sedai no navio as seguiram até a margem. Nenhuma delas sequer se dignou a olhar para Egwene ou Nynaeve. No cais, uma delegação saudou a Amyrlin. Aes Sedai vestidas com seus xales beijaram o anel da Amyrlin e curvaram-se em mesuras formais. O ancoradouro fervilhava entre navios descarregando e a chegada do Trono de Amyrlin. Soldados entravam em formação no desembarque, homens montavam hastes de apoio para cargas, trombetas soavam nas muralhas, competindo com os gritos de alegria dos passantes.
Nynaeve fungou desdenhosamente.
— Parece que se esqueceram de nós. Venha. Vamos nos virar.
Egwene relutou em deixar sua primeira visão de Tar Valon para trás, mas seguiu Nynaeve para baixo a fim de pegar seus pertences. Quando voltaram para o convés com as sacolas nos braços, os soldados e as trombetas haviam sumido, assim como as Aes Sedai. Homens abriam alçapões ao longo do cais e baixavam cabos nos porões de carga.
No convés, Nynaeve agarrou um estivador pelo braço, um sujeito atarracado vestindo uma camisa marrom de tecido grosso e sem mangas.
— Nossos cavalos — começou.
— Estou ocupado — grunhiu ele, se soltando com violência. — Todos os cavalos serão levados para a Torre Branca. — Ele as olhou de cima a baixo. — Se vocês têm negócios a tratar com a Torre, é melhor correrem. Aes Sedai não gostam que as novatas se atrasem.
Outro homem, pelejando com um fardo de feno que estava sendo puxado para fora do porão com um cabo, gritou para ele, que abandonou as mulheres sem olhar para trás. Egwene trocou olhares com Nynaeve. Parecia que elas de fato precisariam se virar.
A Sabedoria saiu do navio com um sorriso determinado no rosto, mas Egwene, deprimida, desceu a prancha, sentindo o cheiro de alcatrão que se espalhava pelo cais. Toda aquela conversa de nos quererem aqui, e agora elas não parecem se importar.
Escadarias largas levavam do cais até um grande arco de pedra vermelho-escura. Ao alcançá-la, Egwene e Nynaeve pararam para olhar.
Cada edi ício parecia um palácio, embora a maioria dos que estavam próximos ao arco parecesse conter estalagens ou lojas, a julgar pelas placas sobre as portas. Padrões intrincados de cantaria se espalhavam por toda parte, e as linhas de uma estrutura pareciam projetadas em harmonia com a seguinte, conduzindo o olhar como se tudo fizesse parte de um grande desenho. Algumas estruturas não eram nem um pouco como edi ícios, e sim como ondas gigantescas quebrando, conchas imensas ou encostas sofisticadas esculpidas pelo vento. Bem em frente ao arco, havia uma grande praça, com uma fonte e árvores, e Egwene podia ver outra mais adiante. As torres se elevavam acima de tudo, enormes e graciosas, algumas com pontes as interligando bem lá no alto. E acima de todas se erguia uma torre, mais alta e larga do que as outras e tão branca quanto as Muralhas Reluzentes.
— A beleza é de tirar o fôlego, à primeira vista — disse uma mulher atrás delas. — À décima vista também, aliás. E à centésima.
Egwene se virou. A mulher era uma Aes Sedai, a menina tinha certeza, embora não usasse xale. Ninguém mais tinha aquele rosto de idade indefinida, e ela se portava com uma segurança e uma confiança que pareciam con firmar aquilo. Um olhar para sua mão revelou o anel dourado de serpente mordendo a própria cauda. A Aes Sedai era um pouco rechonchuda, com um sorriso caloroso, e uma das mulheres com a aparência mais estranha que Egwene já vira: o excesso de peso não ocultava as maçãs do rosto altas, os olhos eram um pouco enviesados e do mais claro e pálido verde, e os cabelos eram quase da cor do fogo. Egwene mal conseguia deixar de olhar para aquela cabeleira e para aqueles olhos ligeiramente puxados.
— Foi construída pelos Ogier, é claro — continuou a mulher —, e é sua melhor obra, dizem. Uma das primeiras cidades construídas depois da Ruptura. Não havia quinhentas pessoas reunidas aqui, na época, e não mais do que vinte irmãs, mas eles a construíram para o que seria necessário.
— É uma cidade linda — respondeu Nynaeve. — Precisamos ir até a Torre Branca. Viemos aqui para o treinamento, mas parece que ninguém se importa se vamos ou ficamos.
— Elas se importam — respondeu a mulher, sorrindo. — Eu vim para encontrá-las, mas me atrasei conversando com a Amyrlin. Sou Sheriam, a Mestra das Noviças.
— Eu não serei uma Noviça — exclamou Nynaeve com a voz firme, embora um pouco depressa demais. — A própria Amyrlin disse que eu seria uma das Aceitas.
— Foi o que me disseram — respondeu Sheriam, em tom de divertimento. — Nunca ouvi falar nisso antes, mas dizem que você é… excepcional. Porém, lembre-se de que mesmo uma das Aceitas pode ser mandada até mim. Requer que mais regras sejam quebradas do que com uma noviça, mas já aconteceu. — E virou-se para Egwene, como se ela não tivesse notado Nynaeve franzir a testa. — E você é nossa nova noviça. É sempre bom ver uma de vocês chegar. Temos bem poucas, hoje em dia. Com você, são quarenta. Só quarenta. E não mais do que oito ou nove serão elevadas às Aceitas. Embora eu não ache que você terá de se preocupar muito com isso, se trabalhar duro e se empenhar. O trabalho é árduo, e, mesmo para alguém com o potencial que dizem que você possui, não será facilitado. Se não conseguir se manter no ritmo, não importa quão duro for, ou se for do tipo que quebra sob pressão, é melhor descobrirmos agora e deixá-la seguir seu caminho do que esperar até que seja uma irmã completa e outras dependam de você. A vida de uma Aes Sedai não é fácil. Aqui iremos prepará-la para isso, se você tiver o que é necessário dentro de si.