— O que foi, Hurin? — Esforçou-se para soar calmo. Estava zangado com Hurin, consigo mesmo ou com Selene? Não há por que ficar zangado com ela. — Você viu algo, Hurin?
O farejador respondeu sem olhá-lo:
— Uma fogueira, milorde, lá nas colinas. Levou algum tempo até eu ver. Eles fizeram uma bem pequena para ficar escondida, mas só conseguiram esconder de alguém que os estivesse seguindo, não de alguém mais adiantado e daqui de cima. Duas milhas, Lorde Rand. Menos de três, com certeza.
— Fain — disse Rand. — Ingtar não teria medo de ser seguido. Deve ser Fain. — De repente, ele não sabia mais o que fazer. Estiveram esperando por Fain, mas naquele momento, que o homem estava a apenas poucas milhas de distância, Rand se viu indeciso. — Amanhã… Amanhã vamos segui-los. Quando Ingtar e os outros nos alcançarem, poderemos apontar o caminho certo para eles.
— Então — concluiu Selene —, você deixará esse tal de Ingtar ficar com a Trombeta de Valere. E a glória.
— Eu não quero… — Sem pensar, ele se virou, e lá estava ela, com pernas pálidas ao luar e parecendo tão indiferente a isso como se estivesse sozinha. Como se nós estivéssemos sozinhos, foi o pensamento que lhe ocorreu. Ela quer o homem que encontrar a Trombeta . — Nós três não conseguiremos recuperá-la sozinhos. Ingtar traz vinte piqueiros consigo.
— Você não sabe se conseguiria recuperá-la ou não. Quantos seguidores esse homem tem? Você também não sabe. — A voz dela soava calma, mas insistente. — Você nem sabe se aqueles homens acampados estão com a Trombeta. A única maneira de saber é descer até lá e ver por si mesmo. Leve o alantin com você: a espécie dele tem uma visão aguçada, até mesmo ao luar. E ele é forte o bastante para carregar o baú da Trombeta, se você tomar a decisão certa.
Ela tem razão. Você não tem certeza de que é Fain . Que maravilha seria se tivesse feito Hurin seguir um rastro que não estava ali, mantendo todos em campo aberto caso os verdadeiros Amigos das Trevas finalmente aparecessem.
— Eu vou sozinho — disse. — Hurin e Loial vão proteger você.
Rindo, Selene foi até ele com tanta graça que quase parecia dançar. As sombras da lua cobriam seu rosto com um véu de mistério quando ela olhou para ele, e o mistério a tornava ainda mais bonita.
— Eu sou capaz de me defender sozinha até você voltar para me proteger. Leve o alantin.
— Ela está certa, Rand — concordou Loial, se levantando. — Eu posso ver à noite melhor do que você. Com meus olhos, talvez não seja preciso chegarmos tão perto quanto se você fosse sozinho.
— Muito bem. — Rand caminhou até a espada e a afivelou à cintura. Deixou o arco e a aljava onde estavam: um arco não era muito útil no escuro, e ele pretendia olhar, não lutar. — Hurin, mostre-me a fogueira.
O farejador obedeceu, escalando meio atrapalhado a encosta até o a floramento, que mais parecia um imenso polegar de rocha despontando da montanha. A fogueira era apenas uma fagulha, e o rapaz não conseguiu vê-la da primeira vez que Hurin a apontou. Quem quer que a tivesse feito não queria que fosse vista. Ele a gravou em sua mente.
Quando voltaram ao acampamento, Loial já encilhara Vermelho e seu próprio cavalo. Quando Rand subiu nas costas do baio, Selene pegou sua mão.
— Lembre-se da glória — disse, com suavidade. — Lembre-se. — A camisa parecia lhe servir melhor do que ele lembrava, moldando-se ao seu corpo.
Ele respirou fundo e retirou a mão da dela.
— Guarde-a com sua vida, Hurin. Loial?
Pressionou os calcanhares nos flancos de Vermelho com gentileza. A grande montaria do Ogier o seguiu devagar.
Não tentaram ir depressa. A noite envolvia a encosta da montanha, e as sombras da lua tornavam seus passos incertos. Rand não podia mais ver a fogueira, sem dúvida ela ficava mais bem escondida de olhares que vinham da mesma altura, mas se lembrava de sua localização. Para alguém que aprendera a caçar na fechada Floresta do Oeste, em Dois Rios, encontrar a fogueira não seria muito di ícil. E depois o quê? O rosto de Selene surgia diante dele. Como vou me orgulhar de estar ao lado daquele que segurar a Trombeta!
— Loial — disse de súbito, tentando espairecer —, por que ela o chama de alantin?
— É a Língua Antiga, Rand. — O cavalo do Ogier, inseguro, escolhia com cuidado onde pisar, mas Loial o guiava com quase tanta segurança como se fosse dia. — Significa Irmão, e é diminutivo de tia avende alantin. Irmão das Árvores. Irmão das Árvores. É muito formal, mas ouvi dizer que os cairhienos são mesmo formais. Pelo menos as Casas nobres. As pessoas comuns que eu vi não eram nem um pouco formais.
Rand franziu a testa. Um pastor não seria muito aceitável para uma Casa nobre formal de Cairhien. Luz, Mat estava certo. Você é louco, e se acha muito importante. Mas se eu pudesse me casar…
Desejou parar de pensar e, antes que se desse conta, o vazio se formara dentro de si, afastando os pensamentos, como se fossem de outra pessoa. Saidin brilhava para ele, tentando-o. Ele trincou os dentes e o ignorou. Era como ignorar um carvão em brasa dentro de sua cabeça, mas pelo menos conseguia mantê-lo sob controle. Por pouco. Quase deixou o vazio, mas os Amigos das Trevas estavam lá fora na noite, e cada vez mais próximos. E os Trollocs. Ele precisava do vazio, precisava até daquela calma inquietante. Eu não preciso tocá-lo. Não preciso.
Depois de um tempo, puxou as rédeas de Vermelho. Estavam na base de um morro, com as esparsas árvores nas encostas negras na noite.
— Acho que já estamos chegando — disse em voz baixa. — É melhor seguirmos o restante do caminho a pé.
Ele desmontou da sela e amarrou as rédeas do baio a um galho.
— Você está bem? — sussurrou Loial, também desmontando. — Você parece estranho.
— Estou bem. — Sua voz soava diferente, percebeu. Tensa. Saidin o chamava. Não! — Tome cuidado. Não sei bem a distância exata, mas aquela fogueira deve estar em algum lugar logo à frente. No alto daquele morro, eu acho.
O Ogier assentiu.
Rand se esgueirou devagar, de árvore em árvore, pisando com cuidado e segurando a espada com força, para que ela não batesse em nenhum tronco. Ficou grato pela falta de mato rasteiro. Loial o seguia como uma enorme sombra, e Rand não podia distingui-lo melhor do que isso. Tudo o mais estava envolto em sombras do luar e escuridão.
De repente, o luar iluminou as sombras à sua frente, e Rand ficou imóvel, junto ao tronco áspero de um arbusto. Montes escuros no chão se tornaram homens enrolados em cobertores e, um pouco afastado, havia um grupo de montes maiores. Trollocs adormecidos. Eles haviam apagado o fogo. Um raio de luar, atravessando os galhos, provocou um brilho de ouro e prata no chão entre os dois grupos. O luar pareceu ficar mais brilhante, e, por um instante, ele pôde ver com clareza. A forma de um homem adormecido jazia perto do brilho, mas não foi aquilo que atraiu seu olhar. O baú. A Trombeta . E algo acima dele, uma ponta vermelha faiscando ao luar. A adaga! Por que Fain colocaria…?
A imensa mão de Loial tapou a boca de Rand, além de uma boa parte de seu rosto. Ele se contorceu para olhar para o Ogier, que apontou para sua direita, lentamente, como se o movimento pudesse chamar a atenção.
A princípio, Rand não conseguiu distinguir coisa alguma, então uma sombra se moveu a menos de dez passos. Uma sombra alta e corpulenta, com um focinho. Rand prendeu a respiração. Um Trolloc. Ele levantou o focinho, como se estivesse farejando. Alguns desses monstros caçavam pelo faro.
Por um instante, o vazio tremeluziu. Alguém se mexeu no acampamento dos Amigos das Trevas, e o Trolloc se virou para olhar naquela direção.