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— Rand, vamos! — O sussurro urgente de Loial o alcançou no vazio. — Pela vida e pela Luz, Rand, vamos!

Com cuidado, Rand se abaixou para limpar a lâmina nas vestes de um Trolloc. Então, com a mesma formalidade que teria em um treino com Lan, ele a embainhou.

— Rand!

Como se não tivesse pressa, Rand foi até Loial, que aguardava ao lado dos cavalos. O Ogier estava amarrando o baú dourado na sela usando os cordões de seus alforjes. Pusera seu manto embaixo do baú, para ajudar a equilibrá-lo na sela arredondada.

Saidin não cantava mais. Estava ali, com aquele brilho de embrulhar o estômago, mas mantinha distância, como se Rand realmente tivesse conseguido afastá-lo. Intrigado, o rapaz deixou o vazio desaparecer.

— Acho que estou enlouquecendo — disse. De repente, percebendo onde estavam, olhou para trás e viu o caminho por onde tinham vindo. Ouviu gritos e uivos de dezenas de direções. Sinais de uma busca, mas não de uma perseguição. Ainda. Montou Vermelho.

— Às vezes não entendo metade do que você diz — comentou Loial. — Se você vai enlouquecer, pode pelo menos esperar até reencontrarmos Lady Selene e Hurin?

— Como é que você vai cavalgar com isso na sela?

— Eu vou correr!

O Ogier pontuou as palavras pondo-se a correr em um trote acelerado, puxando o cavalo atrás de si pelas rédeas. Rand o seguiu.

O ritmo que Loial definiu era o mais rápido que o cavalo conseguia trotar. Rand tinha certeza de que o Ogier não conseguiria mantê-lo por muito tempo, mas Loial não se cansou. Rand deduziu que aquilo que o amigo dissera, certa vez, sobre correr mais rápido que um cavalo poderia de fato ser verdade. De vez em quando, Loial olhava para trás enquanto corria, mas os gritos dos Amigos dos Trevas e os uivos dos Trollocs diminuíram com a distância.

Mesmo quando o chão começou a ficar mais íngreme, o ritmo de Loial quase não diminuiu, e ele chegou trotando ao acampamento na subida da montanha, apenas um pouco ofegante.

— Você a trouxe. — A voz de Selene soou exultante quando seu olhar repousou sobre o baú ornamentado preso à sela de Loial. Ela estava usando o vestido outra vez, que, para Rand, parecia tão branco quanto neve fresca — Eu sabia que você faria a escolha certa. Posso… ver?

— Algum deles o seguiu, milorde? — perguntou Hurin, ansioso. Ele olhou para o baú com assombro, mas seus olhos se voltaram para a noite, montanha abaixo. — Se algum deles o seguiu, teremos que fugir depressa.

— Acho que não. Vá ver se consegue descobrir algo. — Rand desmontou enquanto Hurin subia a montanha apressado. — Selene, não sei abrir o baú. Loial, você sabe?

O Ogier negou com a cabeça.

— Deixe-me tentar…

Mesmo para uma mulher do tamanho de Selene, a sela de Loial era bem alta. Ela estendeu as mãos para tocar os padrões intrincados do baú, passou os dedos por eles e apertou. Ouviu-se um clique, e ela empurrou a tampa para cima, deixando-a aberta.

Selene ficou na ponta dos pés para enfiar uma das mãos no baú, mas Rand adiantou-se e pegou a Trombeta de Valere por cima do ombro dela. Ele já a vira uma vez, mas nunca a havia tocado. Embora fosse belíssima, não parecia um objeto muito antigo ou poderoso. Era uma trombeta dourada e curva, que reluzia na luz fraca, exibindo uma escrita prateada entalhada ao redor da boca da trompa. Ele tocou as letras estranhas. Pareciam refletir o luar.

Tia mi aven Moridin isainde vadin — leu Selene. — O túmulo não é limite para o meu chamado. Você será maior do que Artur Asa-de-gavião.

— Vou levar a Trombeta para Shienar, para Lorde Agelmar. — Ela deveria ir para Tar Valon , pensou, mas não quero mais saber de Aes Sedais. Que Agelmar ou Ingtar cuidem disso! Ele colocou a Trombeta de volta no baú. O objeto refletia o luar, atraía o olhar.

— Isso é loucura — retrucou Selene.

Rand estremeceu ao ouvir aquela palavra.

— Loucura ou não, é o que farei. Eu lhe disse, Selene, não quero essa grandeza. Antes achei que quisesse. Durante um tempo, achei que quisesse coisas… — Luz, ela é tão linda. Egwene. Selene. Não sou digno de nenhuma delas. — Algo pareceu me dominar. — Saidin veio atrás de mim, mas eu o combati com uma espada. Ou isso também é loucura? Ele respirou fundo. — É para Shienar que a Trombeta de Valere deve ir. Se o lugar dela não for lá, Lorde Agelmar saberá o que fazer.

Hurin surgiu no alto da montanha.

— A fogueira foi acesa outra vez, Lorde Rand, e está bem maior. E acho que ouvi gritos. Dá para ouvi-los de todas as colinas, mas acho que ainda não chegaram à montanha.

— Você não entendeu o que eu quis dizer, Rand — explicou Selene. — Não pode recuar. Já está envolvido. Aqueles Amigos da Escuridão não vão embora só porque você pegou a Trombeta. Pelo contrário. A menos que saiba um modo de matá-los, eles vão caçá-lo como você os caçou.

— Não! — Loial e Hurin pareceram surpresos com a veemência de Rand. Ele suavizou seu tom de voz. — Não sei como matar todos eles. Se depender de mim, eles podem viver para sempre.

Selene balançou a cabeça, sacudindo seus longos cabelos.

— Então, você não pode voltar, apenas seguir em frente. Poderá chegar à segurança das muralhas de Cairhien muito antes do que conseguiria retornar a Shienar. A ideia de passar mais alguns dias em minha companhia é tão terrível assim?

Rand olhou fixamente para o baú. A companhia de Selene estava longe de ser um fardo, mas, perto dela, ele não conseguia deixar de pensar em coisas que não deveria. Mesmo assim, se tentasse cavalgar de volta para o norte, correria o risco de encontrar Fain e seus seguidores. Nisso, Selene tinha razão. Fain jamais desistiria. Ingtar também não. Se Ingtar viesse pelo sul, e Rand não via motivos para ele desviar do caminho, chegaria a Cairhien mais cedo ou mais tarde.

— Cairhien — concordou. — Você terá que me mostrar onde mora, Selene. Nunca estive em Cairhien.

Ele estendeu a mão para fechar o baú.

— Você pegou mais alguma coisa dos Amigos da Escuridão? — perguntou Selene. — Você mencionou uma adaga.

Como pude esquecer? Ele deixou o baú aberto e tirou a adaga do cinturão. A lâmina nua era curvada como um chifre, e a bainha era de serpentes douradas. Cravado no cabo, um rubi do tamanho de seu polegar brilhava como um olho maligno à luz do luar. Por mais ornamentada que fosse, por mais maculada que fosse, como ele bem sabia, não parecia diferente de qualquer outra faca.

— Tome cuidado — disse Selene. — Não vá se cortar.

Rand sentiu um calafrio. Se carregá-la já era perigoso, ele não queria saber o que um corte faria.

— Isto é de Shadar Logoth — contou aos outros. — Ela perverte quem a carrega por muito tempo, macula até os ossos, assim como Shadar Logoth é maculada. Sem a Cura das Aes Sedai, essa mácula acaba matando.

— Então, esse é o mal que aflige Mat — comentou Loial, suavemente. — Eu nunca suspeitei.

Hurin ficou olhando fixamente para a adaga na mão de Rand e limpou as próprias mãos na frente do casaco. O farejador não parecia contente.

— Nenhum de nós deve segurá-la por mais tempo que o necessário — prosseguiu Rand. — Encontrarei um jeito de carregá-la…

— Ela é perigosa. — Selene franziu a testa, olhando para a lâmina como se as serpentes fossem de verdade, e venenosas. — Jogue-a fora. Deixe-a, ou enterre-a se deseja evitar que outras mãos a toquem, mas livre-se dela.

— Mat precisa dela — respondeu Rand, com firmeza.

— Ela é perigosa demais. Você mesmo disse.

— Ele precisa dela. A Am… As Aes Sedai disseram que Mat morreria se elas não a usassem na hora da Cura. — Elas ainda têm um cordão amarrado nele, mas esta lâmina vai cortá-lo. Até que eu me livre dela e da Trombeta, elas também terão um cordão amarrado em mim, mas eu não vou dançar, por mais que o puxem.