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Selene o observou com desconfiança. Do poço, veio o som de gritos dos homens, mas as palavras eram indistinguíveis.

— Lorde Rand — começou Hurin. — Acho que aqueles guardas finalmente notaram nossa presença. Se conhecerem um caminho para subir por este lado, podem chegar aqui a qualquer momento.

— Sim — concordou Selene. — Vamos sair logo daqui.

Rand voltou-se para a escavação, mas desviou o olhar depressa. O grande cristal não continha nada, apenas re fletia a luz do sol da tarde, mas ele não queria vê-lo. Rand quase podia se lembrar… de algo sobre aquela esfera.

— Eu não vejo por que esperar por eles. Não fizemos nada. Vamos procurar uma estalagem. — Ele virou Vermelho na direção da aldeia, e logo eles deixaram o buraco e os gritos dos guardas para trás.

Assim como muitas aldeias, Tremonsien cobria o topo de uma colina, mas, como as fazendas pelas quais haviam passado, aquela colina fora esculpida em uma área cercada de pedras que formavam muralhas de contenção. Casas quadradas, de pedra, foram construídas em terrenos planejados, com jardins perfeitos na parte de trás, ao longo de algumas ruas retas que se encontravam em ângulos retos. Não se admitiam curvas em ruas que davam a volta na colina.

Mesmo assim, as pessoas pareciam abertas e amistosas o bastante, parando para trocar cumprimentos com acenos de cabeça enquanto se apressavam em concluir as últimas tarefas antes do cair da noite. Era um povo de baixa estatura, ninguém passava do ombro de Rand, e poucos eram da altura de Hurin; tinham olhos escuros e rostos brancos e inos e usavam roupas escuras, a não ser por alguns que tinham tiras de tecido colorido sobre o peito. Cheiros de comida sendo feita com temperos estranhos ao nariz de Rand preenchiam o ar, embora algumas donas de casa ainda estivessem paradas nas portas, conversando. As portas eram divididas ao meio, de forma que era possível deixar a parte de cima aberta enquanto a de baixo permanecia fechada. As pessoas olhavam para os recém-chegados com curiosidade e sem sinal de hostilidade. O olhar de alguns se deteve um pouco em Loial, um Ogier caminhando ao lado de um cavalo grande como um garanhão de Dhurran, mas não mais do que um instante.

A estalagem, que ficava bem no topo da colina, era de pedra, assim como todas as construções da cidade, e era assinalada de forma simples, com uma placa pintada pendurada sobre as grandes portas. Os Nove Anéis. Rand desmontou com um sorriso e amarrou Vermelho a um dos postes na frente da estalagem. “Os Nove Anéis” era uma de suas histórias de aventura favoritas na infância. Na verdade, ainda era.

Selene ainda parecia incomodada quando ele a ajudou a desmontar.

— Você está bem? — perguntou Rand. — Eu não assustei você lá atrás, assustei? Vermelho nunca cairia de uma encosta comigo. — Ele imaginou o que de fato acontecera.

— Você me deixou apavorada — respondeu ela, com a voz tensa —, e eu não me assusto com facilidade. Você podia ter se matado, matado… — Ela alisou o vestido. — Cavalgue comigo. Esta noite. Agora. Traga a Trombeta, e ficarei ao seu lado para sempre. Pense nisso. Eu ao seu lado, e a Trombeta de Valere em suas mãos. E isso seria apenas o começo, eu juro. O que mais você poderia querer?

Rand balançou a cabeça.

— Não posso, Selene. A Trombeta… — Ele olhou ao redor. Um homem espiou pela janela, do outro lado da rua, e fechou a cortina. A noite caía, escurecendo a rua, e não havia mais ninguém à vista, a não ser Loial e Hurin. — A Trombeta não é minha. Eu já lhe disse.

Ela lhe deu as costas, e seu manto branco o manteve longe com a mesma eficiência de uma muralha.

21

Os Nove Anéis

Rand esperava encontrar o salão da estalagem vazio, já que era quase hora do jantar, mas alguns homens se aglomeravam em uma das mesas, jogando dados em meio a canecas de cerveja, enquanto outro comia sozinho. Embora os jogadores aparentemente não portassem armas nem usassem armaduras, apenas casacos simples e calças de um tom azul-escuro, algo na postura deles fez Rand crer que eram soldados. Sua atenção se voltou para o homem solitário. Um oficial, com botas de cano alto dobradas e a espada apoiada na mesa ao lado de sua cadeira. Uma tira de tecido vermelho e outra amarela cruzavam seu peito por cima do casaco azul, de ombro a ombro, e a frente de sua cabeça estava raspada, embora seus cabelos pretos pendessem compridos nas costas. Os cabelos dos soldados eram bem aparados e idênticos, como se todos usassem a mesma tigela na hora de cortá-los. Todos os sete se viraram para olhar quando Rand e os outros entraram.

A estalajadeira era uma mulher magra de nariz comprido e cabelos quase grisalhos, mas suas rugas mais pareciam parte de seu sorriso fácil do que qualquer outra coisa. Ela entrou apressada no recinto, enxugando as mãos em um avental branco impecável.

— Boa noite para vocês — seus olhos perspicazes logo notaram o casaco vermelho bordado de ouro de Rand e o ino vestido branco de Selene —, milorde, milady. Sou Maglin Madwen, milorde. Sejam bem-vindos à estalagem Os Nove Anéis. E um Ogier. Não são muitos da sua espécie que passam por aqui, amigo Ogier. O senhor deve ser do Pouso Tsofu, não é?

Loial conseguiu fazer meia mesura desajeitada sob o peso do baú.

— Não, boa estalajadeira. Venho do outro lado, das Terras da Fronteira.

— Das Terras da Fronteira, você diz. Ora. E você, milorde? Perdão por perguntar, mas o senhor não tem cara de quem vem de lá, se não se importa que eu o diga.

— Eu sou de Dois Rios, senhora Madwen, em Andor. — Ele olhou de relance para Selene: ela parecia não reconhecer sua existência, seu olhar frio mal parecia ver o aposento ou qualquer pessoa em seu interior. — Lady Selene é de Cairhien, da capital, e eu sou de Andor.

— Como queira, milorde. — A senhora Madwen olhou para a espada de Rand. As garças de bronze eram visíveis na bainha e no cabo. Ela franziu a testa de leve, mas sua expressão se suavizou em um piscar de olhos. — Milorde vai querer uma refeição, para o senhor, sua bela Lady e seus acompanhantes. E quartos, imagino. Vou mandar que cuidem dos cavalos, também. Tenho uma boa mesa para vocês, é só seguir por aqui, e tem porco com pimentões amarelos no fogo. O senhor está caçando a Trombeta de Valere então, milorde, junto com sua Lady?

Prestes a segui-la, Rand quase tropeçou.

— Não! Por que a senhora pensaria isso?

— Sem ofensa, milorde. Mas dois já estiveram por aqui no mês passado, enfeitados como heróis. Não estou sugerindo nada do tipo a seu respeito, milorde. Não aparecem muitos estranhos por esses lados, a não ser comerciantes da capital para comprar aveia e cevada. Eu não acho que a Caçada já tenha saído de Illian, mas talvez alguns pensem que não precisam tanto da bênção e que vão tomar a dianteira se começarem sem ela.

— Não estamos caçando a Trombeta, senhora. — Rand não deu uma olhada sequer para o embrulho nos braços de Loial. O cobertor com listras coloridas pendia enrolado embaixo dos braços grossos do Ogier e disfarçava bem o baú. — Claro que não. Estamos a caminho da capital.

— Como queira, milorde. Perdoe-me por perguntar, mas sua Lady está bem?

Selene olhou para ela e falou pela primeira vez:

— Eu estou muito bem. — Sua voz deixou o ar tão frio que silenciou a todos por um momento.

— A senhora não é de Cairhien, senhora Madwen — comentou Hurin, de repente. Por estar carregando os alforjes de todos e o embrulho de Rand, ele mais parecia um carro de bagagens ambulante. — Perdão, mas a senhora não fala como uma cairhiena.

As sobrancelhas da senhora Madwen se ergueram, e ela olhou rapidamente para Rand, depois sorriu.

— Eu devia imaginar que o senhor seria do tipo que deixa seus homens falarem livremente, mas já me acostumei com… — Ela olhou de relance na direção do oficial, que voltara a comer. — Luz, não. Não sou de Cairhien, mas, para pagar meus pecados, casei-me com um cairhieno. Vivemos vinte e três anos juntos e, quando ele morreu, que a Luz brilhe sobre ele, eu estava pronta para voltar a Lugard. Mas ele riu por último, ah, se riu! Deixou a estalagem para mim e o dinheiro para o irmão, quando eu estava certa de que seria o contrário. Malandro e cheio de planos, esse era Barin, como todo homem que já conheci. Os cairhienos principalmente. Gostaria de se sentar, milorde? Milady?