A estalajadeira piscou surpresa quando Hurin se sentou à mesa com eles. Um Ogier, pelo que parecia, era uma coisa, mas, para ela, Hurin era obviamente um serviçal. Com outra olhadela para Rand, ela disparou para a cozinha, e, em pouco tempo, algumas garotas trouxeram a refeição, rindo e olhando para o lorde, a lady e o Ogier, até que a senhora Madwen as mandou voltarem ao trabalho.
No começo, Rand olhou a comida com certa desconfiança. O porco estava picado, misturado com longas tiras de pimentão amarelo, ervilhas e diversas verduras e coisas que ele não reconhecia, servidos em alguma espécie de molho claro e espesso. Tinha um cheiro picante e doce. Selene apenas beliscou, mas Loial comia com vontade.
Hurin sorriu para Rand por sobre seu garfo.
— Eles temperam a comida de um jeito estranho, esses cairhienos, Lorde Rand, mas não é ruim, apesar disso.
— A comida não vai morder, Rand — acrescentou Loial.
Rand deu uma garfada, hesitante, e quase cuspiu com a surpresa. O gosto era idêntico ao cheiro, picante e doce, e o porco estava crocante por fora e macio por dentro, com dezenas de sabores e temperos diferentes, todos misturados e contrastando. Era diferente de qualquer coisa que ele já colocara na boca. Tinha um sabor maravilhoso. Ele raspou o prato e, quando a senhora Madwen retornou com as serviçais para limpar a mesa, quase pediu mais, como Loial fizera. O prato de Selene ainda estava pela metade, mas ela fez um gesto seco para que uma das garotas o levasse.
— Com prazer, amigo Ogier. — A estalajadeira sorriu. — É preciso muito para encher um de vocês. Catrine, traga mais um prato. E seja rápida. — Uma das garotas saiu em disparada. A senhora Madwen dirigiu seu sorriso para Rand. — Milorde, tinha um homem aqui que tocava sabiola, mas ele se casou com uma garota de uma das fazendas e agora ela o manda dedilhar as rédeas atrás de um arado. Não pude deixar de notar o que parece ser a caixa de uma lauta despontando do embrulho do seu serviçal. Já que meu músico foi embora, o senhor permitiria que seu serviçal tocasse um pouco para nós?
Hurin parecia envergonhado.
— Ele não toca — explicou Rand. — Eu toco.
A mulher piscou. Ao que parecia, lordes não tocavam lauta, pelo menos não em Cairhien.
— Retiro o pedido, milorde. Pela verdade da Luz, não quis ofender, eu lhe asseguro. Eu nunca pediria ao senhor para tocar em meu salão.
Rand hesitou apenas por um instante. Já fazia um bom tempo que não praticava com a lauta em vez de com a espada, e as moedas em sua bolsa não durariam para sempre. Assim que ele se livrasse daquelas roupas chiques, assim que entregasse a Trombeta para Ingtar e a adaga para Mat, precisaria da lauta para ganhar seu jantar outra vez, enquanto estivesse em busca de algum lugar a salvo das Aes Sedai. E a salvo de mim mesmo? Alguma coisa aconteceu hoje mais cedo. O quê?
— Não me importo — respondeu. — Hurin, me dê a caixa. É só puxá-la. — Não havia necessidade de mostrar o manto de um menestrel, já havia perguntas o bastante no brilho dos olhos escuros da senhora Madwen.
Feito de ouro com detalhes de prata, o instrumento parecia do tipo que um lorde tocaria, se lordes tocassem lauta. A garça marcada na palma de sua mão direita não afetava o movimento de seus dedos. As pomadas de Selene haviam funcionado tão bem que ele praticamente só se lembrava da marca quando a via. Mas ela estava em seus pensamentos agora, e, inconscientemente, ele começou a tocar “Garça ao Vento”.
Hurin balançou a cabeça ao som da melodia, e Loial começou a marcar o compasso na mesa, batucando com um dedo grosso. Selene olhou para Rand como se estivesse se perguntando o que ele era — Não sou um lorde, milady. Sou um pastor, e toco a lauta em salões de estalagens —, mas os soldados pararam de conversar para ouvi-lo, e o oficial fechou a capa de madeira do livro que começara a ler. O olhar firme de Selene acendeu uma fagulha teimosa dentro de Rand. Com determinação, ele evitou qualquer canção que pudesse ser tocada em um palácio ou na mansão de um lorde. Ele tocou “Apenas um Balde D’Água” e “A Velha Folha de Dois Rios”, “O Velho Jak Sobe Uma Árvore” e “O Cachimbo do Bom Priket”.
Quando começou a tocar a última, os seis soldados passaram a acompanhá-lo, desafinados, embora não fosse a letra que Rand conhecia. “Descemos até o Rio Iralell Só para ver chegarem os tairenos. Esperamos ao longo das margens Com o sol nascente. Seus cavalos escureciam a planície de verão, Seus estandartes escureciam o céu, Mas nós defendemos nossa terra nas margens do Rio Iralell. Ah, nós defendemos nossa terra. Sim, nós defendemos nossa terra. Defendemos nossa terra ao longo do rio naquela manhã.” Não era a primeira vez que Rand descobria que uma melodia tinha uma letra e um nome diferentes em outras terras, às vezes mesmo em aldeias do mesmo reino. Tocou até que parassem de cantar, dando palmadas nos ombros uns dos outros e dizendo grosserias sobre a voz dos companheiros.
Quando Rand abaixou a lauta, o oficial se levantou com um gesto seco. Os soldados fizeram silêncio imediatamente, arrastaram as cadeiras ao se levantarem e saudaram o oficial com uma mesura e a mão no peito, depois fizeram o mesmo com Rand e saíram sem olhar para trás.
O oficial foi até a mesa de Rand e se curvou, com a mão no coração. Parecia ter passado um pó branco na parte raspada de sua cabeça.
— Que a Graça o favoreça, milorde! Espero que não o tenham incomodado com essa cantoria. Eles são gente comum, mas não tiveram a intenção de insultá-lo, eu lhe garanto. Eu sou Aldrin Caldevwin, milorde. Capitão a Serviço de Sua Majestade, que a Luz o ilumine!
Seus olhos examinaram a espada de Rand, que teve a sensação de que Caldevwin notara as garças assim que ele entrou.
— Não me senti insultado. — O sotaque do oficial o fazia se lembrar de Moiraine. Era um modo preciso de falar, com cada palavra sendo pronunciada com clareza. Será que ela realmente me deixou ir embora? Me pergunto se não estará me seguindo. Ou me esperando . — Sente-se, capitão. Por favor. — Caldevwin puxou uma cadeira de outra mesa. — Diga-me, capitão, se não se importa. O senhor viu outros estranhos, recentemente? Uma dama, magra e de baixa estatura, e um soldado de olhos azuis. Ele é alto e, às vezes, usa a espada presa às costas.
— Não vi nenhum estranho — respondeu o homem, sentando-se com rigidez em sua cadeira. — Apenas o senhor e sua dama, milorde. Poucos nobres vêm até aqui. — Seus olhos se dirigiram para Loial e sua testa franziu de leve. Ele ignorou Hurin como se o farejador fosse um serviçal.
— Foi apenas um pensamento que me ocorreu.
— Sob a Luz, meu Lorde, não tenho a intenção de desrespeitá-lo, mas posso saber seu nome? Estranhos são tão raros por aqui que gosto de conhecer todos.
Rand apresentou-se. Não usou título algum ao dizer seu nome, mas o oficial não pareceu reparar. E completou, da mesma forma que fizera com a estalajadeira.
— Sou de Dois Rios, em Andor.
— Um lugar maravilhoso, pelo que ouvi dizer, Lorde Rand… Posso chamá-lo assim? E são ótimos homens, os andorianos. Nunca vi um cairhieno tão jovem quanto o senhor com uma espada de mestre espadachim. Já conheci alguns andorianos, entre eles o Capitão-General dos Guardas da Rainha. Mas seu nome me fugiu, que vergonha! Talvez o senhor possa me lembrar?
Rand percebeu as serviçais ao fundo, começando a limpar e varrer a sala. Caldevwin parecia apenas estar puxando conversa, mas seu olhar tinha um tom inquisitivo.