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— Gareth Bryne.

— É claro. Jovem demais para tanta responsabilidade.

Rand manteve a voz fria.

— Gareth Bryne tem cabelos grisalhos e idade para ser seu pai, Capitão.

— Perdoe-me, Lorde Rand. Quis dizer que ele começou cedo. — Caldevwin se virou para Selene e, por um momento, apenas a olhou fixamente. Por fim, sacudiu a cabeça, como se saísse de um transe. — Perdoe-me por olhar dessa forma para a senhora, milady, e perdoe-me por falar assim, mas a Graça decerto a favoreceu. A senhora poderia me dar um nome para me referir a tamanha beleza?

No momento em que Selene abriu a boca para responder, uma das serviçais soltou um grito e deixou cair um lampião que estava tirando de uma prateleira. Um pouco de óleo se espalhou, criando uma poça de chamas no chão. Rand se levantou de um pulo junto com os outros na mesa, mas a senhora Madwen apareceu antes que qualquer um deles pudesse se mover, e ela e a garota apagaram as chamas com os aventais.

— Já lhe falei para tomar cuidado, Catrine — ralhou a estalajadeira, balançando o avental agora sujo de fuligem embaixo do nariz da garota. — Assim você vai tocar fogo na estalagem e queimar junto com ela.

A garota parecia estar à beira das lágrimas.

— Eu estava tomando cuidado, senhora, mas senti um beliscão forte no braço.

A senhora Madwen ergueu as mãos com impaciência.

— Você sempre tem alguma desculpa, e quebra mais pratos do que todas as outras. Ah, está bem. Limpe isso, e cuidado para não se queimar. — A estalajadeira se virou para Rand e os outros, que ainda estavam de pé ao redor da mesa. — Espero que nenhum de vocês leve isto a mal. A garota não vai queimar a estalagem. Ela é meio desastrada com os pratos quando começa a gostar de algum rapaz, mas nunca deixou um lampião cair antes.

— Eu gostaria de ser levada ao meu quarto. Não estou me sentindo bem, a final — falou Selene, com um tom de voz vacilante, como se estivesse enjoada. Mas, apesar disso, sua aparência e voz tinham a frieza e calma de sempre. — Com toda essa jornada, e o fogo.

A estalajadeira ficou preocupada como uma galinha com seus ovos.

— É claro, milady. Tenho um ótimo quarto para a senhora e seu lorde. Devo chamar Mãe Caredwain? Ela tem uma mão ótima com ervas calmantes.

A voz de Selene se tornou mais áspera.

— Não. E quero um quarto só para mim.

A senhora Madwen olhou de relance para Rand, mas no instante seguinte, com uma mesura, já conduzia Selene, muito solícita, na direção das escadas.

— Como desejar, milady. Lidan, seja uma boa garota e vá buscar as coisas dela agora mesmo. — Uma das serviçais saiu correndo para pegar os alforjes de Selene de Hurin, e as mulheres sumiram no andar acima, Selene ainda rígida e distante.

Caldevwin ficou olhando para elas até sumirem, então sacudiu a cabeça outra vez. Ele esperou até Rand se sentar antes de pegar sua cadeira.

— Perdoe-me, milorde Rand, por ficar olhando daquela forma para sua dama, mas a Graça decerto o favoreceu com ela. Não tive a intenção de ofendê-lo.

— Não estou ofendido — respondeu Rand. Ele se perguntou se todos os homens sentiam o mesmo que ele quando olhavam para Selene. — Quando estava cavalgando para a aldeia, Capitão, vi uma esfera imensa. Cristal, ao que parecia. O que era?

O olhar do cairhieno tornou-se aguçado.

— Ela faz parte da estátua, milorde Rand — respondeu, devagar. Ele olhou de relance para Loial. Por um instante, pareceu ter uma ideia.

— Estátua? Eu vi uma mão e um rosto também. Ela deve ser imensa.

— E é, milorde Rand. E muito antiga. — Caldevwin fez uma pausa. — Da Era das Lendas, foi o que disseram.

Rand sentiu um arrepio. A Era das Lendas, quando Poder Único era usado por toda parte, se é que era possível acreditar nas histórias. O que aconteceu lá? Eu sei que houve alguma coisa.

— A Era das Lendas — comentou Loial. — Sim, deve ser. Ninguém construiu algo tão grande desde então. Será um trabalho enorme desenterrar aquilo tudo, Capitão.

Hurin continuou sentado em silêncio, não apenas como se não escutasse, mas também como se não estivesse ali.

Caldevwin assentiu com relutância.

— Tenho quinhentos trabalhadores no acampamento, além das escavações, e mesmo assim só conseguiremos desenterrar tudo depois do fim do verão. São homens do Portão da Frente. Metade do meu trabalho é mantê-los cavando, a outra metade é evitar que venham para esta aldeia. Homens do Portão da Frente gostam muito de beber e aprontar, o senhor entende, e esta gente daqui leva uma vida tranquila. — Seu tom de voz mostrava que estava do lado dos aldeões.

Rand assentiu. Ele não tinha interesse nos homens do Portão da Frente, fossem quem fossem.

— O que você vai fazer com ela?

O capitão hesitou, mas Rand ficou apenas encarando-o até que ele respondesse.

— O próprio Galldrian ordenou que ela seja levada para a capital.

Loial piscou várias vezes.

— Vai ser um trabalho e tanto. Não sei se algo assim tão grande pode ser transportado para tão longe.

— Sua Majestade ordenou — retrucou Caldevwin, ríspido. — Ela será colocada do lado de fora da cidade, como um monumento à grandeza de Cairhien e da Casa Riatin. Os Ogier não são os únicos que sabem mover pedras. — Diante da expressão chocada de Loial, o capitão se acalmou visivelmente. — Perdoe-me, amigo Ogier. Eu falei sem pensar e fui rude. — Sua voz ainda soava um pouco agressiva. — O senhor vai ficar muito tempo em Tremonsien, milorde Rand?

— Partiremos pela manhã — respondeu Rand. — Vamos para Cairhien.

— Por coincidência, enviarei alguns de meus homens de volta à cidade amanhã. Preciso revezá-los, eles ficam imprestáveis depois de muito tempo assistindo a outros homens trabalharem com pás e picaretas. O senhor não se importaria se eles cavalgassem em sua companhia? — Ele falou em tom de pergunta, mas como se a concordância fosse a resposta óbvia. A senhora Madwen apareceu nas escadas, e ele se levantou. — Se me desculpar, Lorde Rand, preciso subir cedo. Até de manhã, então! Que a Graça o favoreça! — Ele fez uma mesura para Rand, inclinou a cabeça para Loial e partiu.

Quando as portas se fecharam atrás do cairhieno, a estalajadeira se aproximou da mesa.

— Já acomodei sua lady, milorde. E tenho bons quartos preparados para o senhor e seu servo, e também para você, amigo Ogier. — Ela fez uma pausa, analisando Rand. — Desculpe-me se estou sendo inconveniente, milorde, mas acho que posso ser franca com um senhor que deixa seus homens falarem livremente. Se eu estiver errada… bem, não é minha intenção insultá-lo. Por vinte e três anos, Barin Madwen e eu passávamos discutindo o tempo em que não estávamos nos beijando, por assim dizer. Falo isso para dizer que tenho alguma experiência. Neste momento, o senhor deve estar pensando que sua lady nunca mais vai querer vê-lo, mas, pelo que eu imagino, se o senhor bater à porta dela esta noite, ela vai abri-la. Sorria e diga que a culpa foi sua, seja isso verdade ou não.

Rand pigarreou e torceu para que seu rosto não estivesse vermelho. Luz, Egwene me mataria se soubesse que sequer pensei nisso. E Selene me mataria se eu o fizesse. Ou não? Aquilo fez suas bochechas arderem.

— Eu… Obrigado pela sugestão, senhora Madwen. Os quartos… — Ele evitou olhar para o baú oculto pelo cobertor na cadeira de Loial. Eles não se atreveram a deixá-lo sem alguém para vigiá-lo. — Nós três dormiremos no mesmo quarto.

A estalajadeira pareceu espantada, mas se recuperou depressa.

— Como desejar, milorde. Por aqui, por favor.

Rand a seguiu escada acima. Loial carregou o baú sob o cobertor, e as escadas rangeram sob o peso dele e do baú juntos, mas a estalajadeira pareceu pensar que era apenas o peso maciço do Ogier. Hurin ainda carregava todos os alforjes e o manto enrolado com a harpa e a flauta.

A senhora Madwen mandou trazer uma terceira cama, que foi montada e feita bem depressa. Uma das camas que já estavam lá ia quase de parede a parede, e obviamente fora posta ali para Loial, desde o começo. Mal havia espaço para andar entre as camas. Assim que a estalajadeira saiu, Rand se virou para os outros. Loial empurrara o baú ainda coberto para baixo da cama e experimentava sentar no colchão. Hurin estava ajeitando os alforjes.