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— Algum de vocês sabe por que aquele capitão estava tão desconfiado de nós? Porque ele estava, tenho certeza. — Ele sacudiu a cabeça. — Quase cheguei a pensar que ele achava que fôssemos roubar a estátua, pelo jeito que falou.

Daes Dae’mar, Lorde Rand — respondeu Hurin. — O Grande Jogo. O Jogo das Casas, dizem alguns. Esse tal de Caldevwin acha que o senhor deve estar tentando se beneficiar de alguma maneira, ou não estaria aqui. E, para ele, o que beneficiar o senhor pode prejudicá-lo, então o homem acha que precisa tomar cuidado.

Rand balançou a cabeça.

— “O Grande Jogo”? Que jogo?

— Não é um jogo, Rand — explicou Loial de sua cama. Ele havia tirado um livro do bolso, mas o mantinha fechado sobre o peito. — Não sei muito sobre o assunto, pois os Ogier não se envolvem nessas coisas, mas já ouvi falar disso. Os nobres e as Casas nobres fazem manobras em busca de vantagens. Fazem coisas que acreditam que os ajudarão, ou atrapalharão um inimigo, ou ambos. Em geral, tudo é feito em segredo. Caso contrário, eles tentam fazer com que pareça ser algo diferente do que realmente é. — Ele coçou uma orelha peluda, intrigado. — Mesmo sabendo o que é, não entendo. O Ancião Haman sempre disse que era preciso ter uma mente maior que a dele para compreender as atitudes humanas, e não conheço muitos tão inteligentes quanto o Ancião Haman. Vocês humanos são esquisitos.

Hurin lançou um olhar enviesado ao Ogier, mas respondeu:

— Ele tem o direito de Daes Dae’mar, Lorde Rand. Os cairhienos participam mais desse jogo do que a maioria, embora todos os homens do sul o joguem.

— Os soldados que vão nos escoltar de manhã — perguntou Rand — fazem parte desse Grande Jogo de Caldevwin? Não podemos nos dar ao luxo de nos meter em algo assim. — Não era preciso mencionar a Trombeta. Todos estavam conscientes demais de sua presença.

Loial sacudiu a cabeça.

— Não sei, Rand. Ele é humano, então pode ser qualq'uer coisa.

— Hurin?

— Também não sei. — Hurin parecia tão preocupado quanto o Ogier. — Ele pode estar fazendo só o que falou, ou… É assim que funciona o Jogo de Casas: nunca se sabe. A maior parte do tempo que passei em Cairhien foi no Portão da Frente, Lorde Rand, e não sei muito sobre a nobreza cairhiena, mas… bem, Daes Dae’mar pode ser perigoso em qualquer lugar, mas, pelo que ouvi dizer, especialmente em Cairhien. — De repente, ele se animou. — Lady Selene, Lorde Rand. Ela deve saber mais do que eu ou o Construtor. O senhor poderá perguntar a ela amanhã de manhã.

Mas, na manhã seguinte, Selene já havia partido. Quando Rand desceu para o salão da estalagem, a senhora Madwen lhe entregou um pergaminho selado.

— Se o senhor me perdoar a intrusão, milorde, devia ter me escutado. Devia ter batido à porta de sua lady.

Rand esperou até ela ir embora antes de quebrar o selo de cera branca. A cera exibia uma lua crescente com estrelas.

Preciso deixar você por algum tempo. Há gente demais por aqui, e não

gosto de Caldevwin. Esperarei por você em Cairhien. Nunca pense que

estou longe demais, pois você sempre estará em meus pensamentos,

assim como sei que estarei nos seus.

Não estava assinado, mas aquela caligra ia fluida e elegante parecia típica de Selene.

Ele dobrou a carta com cuidado e a guardou no bolso antes de sair, e Hurin já o aguardava ali fora com os cavalos.

O Capitão Caldevwin também estava lá, com outro oficial mais jovem e cinquenta soldados a cavalo enchendo a rua. Os dois oficiais tinham as cabeças raspadas, mas usavam manoplas de aço e armaduras de placas com detalhes em ouro presas sobre os casacos azuis. Um cajado curto estava amarrado ao arreio às costas de cada um, sustentando um pequeno e rígido estandarte azul sobre suas cabeças. A bandeira de Caldevwin ostentava uma única estrela branca, ao passo que a do homem mais jovem era cruzada por duas barras brancas. Eles contrastavam muito com os soldados em armaduras simples e elmos que pareciam sinos com metal cortado para expor seus rostos.

Caldevwin fez uma reverência quando Rand saiu da estalagem.

— Bom dia para o senhor, milorde Rand. Este é Elricain Tavolin, que será o comandante da sua escolta, se é que posso chamá-la assim. — O outro oficial fez uma mesura. Sua cabeça era raspada da mesma forma que a de Caldevwin. Ele não falou.

— Uma escolta será bem-vinda, Capitão — respondeu Rand, conseguindo deixar a voz tranquila. Fain não tentaria nada contra cinquenta soldados, mas Rand desejou poder ter certeza de que aquilo era apenas uma escolta.

O capitão olhou de esguelha para Loial, que se encaminhava para seu cavalo com o baú oculto pelo cobertor.

— Um fardo pesado, Ogier.

Loial quase parou onde estava.

— Não gosto de me separar de meus livros, Capitão. — Sua boca enorme se abriu, revelando dentes muito brancos em um sorriso tímido, e ele se apressou em amarrar o baú à sela.

Caldevwin olhou ao redor, franzindo a testa.

— Sua lady ainda não desceu. E o belo animal que a acompanha não está aqui.

— Ela já foi — explicou Rand. — Precisou seguir depressa para Cairhien, durante a noite.

Caldevwin ergueu as sobrancelhas.

— Durante a noite? Mas meus homens… Perdoe-me, milorde Rand. — Ele puxou o jovem oficial para o lado, falando com ele em sussurros apressados.

— Ele mandou vigiarem a estalagem, Lorde Rand — sussurrou Hurin. — Lady Selene deve ter passado por eles sem ser vista, de algum modo.

Rand montou na sela de Vermelho com uma careta de desagrado. Se houvesse alguma chance de Caldevwin não suspeitar de que eles estavam fazendo algo de errado, parecia que Selene acabara com ela.

— Gente demais, ela disse — resmungou. — Em Cairhien haverá bem mais gente.

— Falou alguma coisa, milorde?

Rand levantou a cabeça quando Tavolin se juntou a ele, montado em um alto corcel castanho. Hurin também já estava em sua sela, e Loial aguardava de pé ao lado de seu enorme cavalo. Os soldados estavam em formação, em fileiras. Ele não viu Caldevwin em lugar algum.

— Nada está indo como eu esperava — respondeu Rand.

Tavolin lhe dirigiu um breve sorriso, pouco mais do que um retorcer dos lábios.

— Vamos em frente, milorde?

A estranha procissão seguiu para a estrada de terra batida que levava à cidade de Cairhien.

22

Vigias

— Nada está indo como eu esperava — resmungou Moiraine, sem esperar uma resposta de Lan.

A mesa comprida e polida diante dela estava atulhada de livros e papéis, rolos e manuscritos, muitos dos quais encontravam-se empoeirados devido ao longo armazenamento e puídos pela passagem do tempo, alguns reduzidos a fragmentos. A sala parecia quase feita de livros e manuscritos, os quais preenchiam estantes que ocupavam todas as paredes, a não ser onde havia portas e janelas ou a lareira. As cadeiras tinham bom estofamento e espaldar alto, mas metade delas, assim como a maioria das mesinhas, estava ocupada por livros. Outras tinham livros e rolos enfiados debaixo. No entanto, apenas a bagunça diante de Moiraine era obra dela.

Ela se levantou e foi até a janela, examinando a noite à procura das luzes da aldeia, que não ficava muito longe. Não havia perigo de alguém persegui-la por ali. Ninguém imaginaria que ela fosse para lá. Clarear as ideias e começar outra vez, pensou. Isso é tudo o que posso fazer.