Nenhum dos aldeões suspeitava que as duas velhas irmãs que moravam naquela casa confortável eram Aes Sedai. Não se suspeitava de coisas desse tipo em um lugarejo como Poço de Tifan, uma comunidade rural bem no interior das planícies relvadas de Arafel. Os aldeões procuravam as irmãs em busca de conselhos para seus problemas e cura para suas doenças, e as respeitavam como mulheres abençoadas pela Luz, nada além disso. Adeleas e Vandene estavam em um retiro voluntário, juntas, havia tanto tempo que poucas, mesmo na Torre Branca, sequer lembravam que ainda estavam vivas.
Com o único e igualmente velho Guardião que permanecia em sua companhia, elas viviam com discrição, ainda tencionando escrever a história do mundo desde a Ruptura, e o máximo que conseguissem incluir do que acontecera antes dela. Um dia. Enquanto isso, havia muita informação a coletar, muitos enigmas a solucionar. A casa delas era o lugar perfeito para Moiraine encontrar as informações de que precisava. Só que a informação não estava lá.
Um movimento chamou sua atenção, e ela se virou. Lan estava encostado na lareira de tijolos amarelos, imperturbável como uma rocha.
— Você se lembra de quando nos conhecemos, Lan?
Ela o observava com atenção, ou não teria notado quando a sobrancelha do homem se arqueou brevemente. Não era sempre que o pegava de surpresa. Aquele era um assunto que nenhum dos dois mencionava. Ela lhe dissera quase vinte anos antes, com todo o orgulho in flexível de alguém ainda jovem o bastante para ser chamado de jovem, ela lembrava, que nunca mais tocaria no assunto e que esperava o mesmo silêncio dele.
— Eu me lembro. — Foi tudo o que disse.
— E suponho que ainda não vá me pedir desculpas? Você me jogou dentro de um lago. — Ela não sorriu, embora agora conseguisse achar graça da situação. — Fiquei completamente encharcada e isso foi no que vocês, Homens da Fronteira, chamam de nova primavera. Eu quase congelei.
— E também me lembro de que fiz uma fogueira e pendurei cobertores para que você pudesse se aquecer com privacidade. — Ele atiçou a lenha e recolocou o atiçador no gancho. Até mesmo as noites de verão eram frias nas Terras de Fronteira. — Lembro também que, enquanto eu dormia naquela noite, você jogou metade do lago em mim. Teria poupado muito frio e arrepios de ambas as partes se você tivesse apenas me dito que era uma Aes Sedai, em vez de demonstrar. Em vez de tentar me separar de minha espada. Não foi uma boa maneira de se apresentar a um Homem da Fronteira, mesmo para uma mulher jovem.
— Eu era jovem e estava sozinha, e você era tão grande quanto é hoje, mas sua ferocidade era menos discreta. Não queria que você soubesse que eu era uma Aes Sedai. Naquele momento, me pareceu que você responderia às minhas perguntas com mais sinceridade se não soubesse. — Ela ficou em silêncio por um momento, pensando nos anos que haviam se passado desde aquele encontro. Havia sido bom encontrar um companheiro para se juntar a ela na jornada. — Nas semanas seguintes, você suspeitou que eu fosse lhe pedir para se vincular a mim? Eu sabia que seria você logo no primeiro dia.
— Eu nunca suspeitei — respondeu ele, secamente. — Estava ocupado demais me perguntando se sobreviveria a escoltá-la até Chachin. Toda noite você tinha uma surpresa diferente para mim. Lembro-me das formigas, em particular. Acho que não tive sequer uma noite de sono em toda aquela viagem.
Ela se permitiu um sorrisinho ao lembrar daquilo.
— Eu era jovem — repetiu. — E o elo ainda o incomoda, depois de todos esses anos? Você não é um homem fácil de se botar um cabresto, mesmo um tão leve quanto o meu. — Era uma alfinetada dolorosa, e aquela era sua intenção.
— Não. — Sua voz soou fria, mas ele pegou o atiçador outra vez e mexeu nas brasas com força, sem necessidade. Uma cascata de faíscas subiu pela chaminé. — Foi de livre escolha, e eu sabia o que isso significava. — A vara de ferro voltou ao gancho com um clangor, e ele fez uma mesura formal. — Honra em servir, Moiraine Aes Sedai. Sempre foi e sempre será.
Moiraine fungou com desdém.
— Sua humildade, Lan Gaidin, sempre conteve mais arrogância do que a maioria dos reis conseguiria demonstrar, mesmo com exércitos às costas. Desde o primeiro dia em que o vi foi assim.
— Por que falar tanto do passado agora, Moiraine?
Pela centésima vez, ou pelo menos era o que parecia para ela, a mulher parou para escolher as palavras.
— Antes de deixarmos Tar Valon, tomei providências para que, caso alguma coisa aconteça comigo, seu elo passe para outra. — Ele a encarou em silêncio. — Quando você sentir minha morte, também se sentirá compelido a procurar por ela imediatamente. Não quero que isso o pegue de surpresa.
— Compelido — Ele soltou um leve suspiro raivoso. — Você nunca usou meu elo para me forçar a algo. Achei que você reprovava esse tipo de coisa.
— Se eu não o tivesse feito, você ficaria livre do elo com minha morte, e nem mesmo a ordem mais veemente que eu lhe desse se sustentaria. Não permitirei que você morra em uma tentativa inútil de me vingar, e não permitirei que retorne à sua guerra particular na Praga, igualmente inútil. A guerra que travamos é a mesma, gostaria que você conseguisse ver isso e cuidarei para que a trave com algum propósito. Nem vingança nem uma morte sem funeral na Praga servirão.
— E você pretende morrer em breve? — Sua voz estava baixa, e seu rosto, inexpressivo, ambos como pedra em uma nevasca terrível. Era um comportamento que ele já havia apresentado muitas vezes, em geral quando estava prestes a ser violento. — Você planejou algo, sem que eu saiba, que resultará em sua morte?
— De repente estou muito feliz por não haver um lago neste aposento — murmurou, levantando as mãos quando ele enrijeceu, ofendido pelo tom leve da voz dela. — Eu vejo minha morte todos os dias, assim como você. Como poderia ser diferente, com essa tarefa que temos cumprido ao longo desses anos? Agora, com tudo atingindo um ponto crítico, preciso encará-la como algo ainda mais provável.
Por um momento, ele analisou suas mãos grandes e quadradas.
— Eu nunca pensei — começou, devagar — que talvez não seja o primeiro de nós a morrer. De algum modo, mesmo nos piores momentos, sempre me pareceu… — Ele esfregou as mãos bruscamente. — Se existe a chance de que eu ser dado como um cãozinho de estimação, gostaria pelo menos de saber a quem.
— Nunca pensei em você como um bicho de estimação — repreendeu-o Moiraine, com rispidez —, e Myrelle também não.
— Myrelle. — Ele fez uma careta de insatisfação. — Sim, tinha que ser Verde, ou então uma menininha que acabou de se tornar uma irmã.
— Se Myrelle consegue manter seus três Gaidin na linha, talvez tenha alguma chance de lidar com você. Embora ela fosse gostar de mantê-lo, prometeu passar seu elo para outra quando encontrar alguém que mais adequado.
— Então. Não sou um bicho de estimação, mas um pacote. Myrelle será uma… uma cuidadora! Moiraine, nem mesmo as Verdes tratam seus Guardiões assim. Nenhuma Aes Sedai passou seu elo para outra em quatrocentos anos, mas você pretende fazer isso comigo não uma, porém duas vezes!
— Está feito, e não vou desfazer.
— Que a Luz me cegue se eu for passado de mão em mão! Você pelo menos tem alguma ideia de em que mãos acabarei?
— O que faço é para seu próprio bem, e talvez também para o de outros. Pode ser que Myrelle encontre uma menininha que tenha acabado de se tornar irmã, não foi o que você disse? Uma que precise de um Guardião endurecido pelas batalhas e versado nos arti ícios do mundo, uma menininha que talvez precise de alguém que a jogue dentro de um lago. Você tem muito a oferecer, Lan, e ver isso desperdiçado em uma tumba sem nome ou deixado para os corvos em vez de para uma mulher que precisa seria pior do que o pecado do qual os Mantos-brancos falam sem parar. Sim, acredito que ela precisará de você.
Os olhos de Lan se arregalaram de leve, o que, para ele, era equivalente a ficar boquiaberto. Era raro Moiraine o ver tão fora de si. Ele abriu a boca duas vezes antes de falar.