— E quem você tem em mente para isso…
Ela o interrompeu.
— Você tem certeza de que o elo não o incomoda, Lan Gaidin? Percebe pela primeira vez, apenas agora, a força desse elo, a profundidade dele? Você poderia terminar com alguma Branca iniciante, toda razão e sem coração, ou com uma jovem Marrom que o vê como nada mais que um par de mãos para carregar seus livros e esboços. Eu posso levá-lo para onde quiser, como um pacote ou um cãozinho de estimação, e você não pode fazer nada além de seguir. Tem certeza de que isso não o incomoda?
— Esse é o objetivo disso tudo? — perguntou ele com a voz rouca. Seus olhos queimavam como fogo azul, e sua boca estava retorcida. Raiva: pela primeira vez, ela via o rosto dele abertamente marcado pela raiva. — Toda esta conversa não passou de um teste… um teste! E para ver se você podia fazer meu elo me incomodar? Depois de todo este tempo? Desde o dia em que jurei obediência, cavalguei para onde você mandou, mesmo quando achei que era uma burrice, mesmo quando tinha motivos para cavalgar em outra direção. Você nunca precisou de meu elo para me forçar a algo. Sob seu comando, vi você ir direto para o perigo e fiquei parado sem fazer nada quando queria apenas puxar minha espada e abrir um caminho seguro para você. E depois disso você ainda vem me testar?
— Não é um teste, Lan. Falei com clareza, sem distorcer as palavras, e de fato fiz o que disse. Mas, em Fal Dara, comecei a me perguntar se você ainda estava comigo por inteiro. — Uma desconfiança se mostrou nos olhos dele. Lan, me perdoe. Eu não queria abrir fendas nas muralhas que você construiu com tanto esforço, mas preciso saber . — Por que você agiu daquela forma com Rand? — Ele piscou. Obviamente não era por aquela pergunta que estava esperando. Ela sabia o que ele havia pensado que seria a pergunta, mas não deixaria que ele se recobrasse agora que estava despreparado. — Você o mandou para a Amyrlin falando e agindo como um senhor da Fronteira e um soldado nato. Isso se encaixou, de certa maneira, com o que eu tinha planejado para ele, mas nunca conversamos sobre ensinar ao rapaz nada disso. Por que, Lan?
— Pareceu… correto. Um jovem cão de caça precisa enfrentar seu primeiro lobo um dia, mas se o lobo o enxergar como um ilhote, se ele agir como um filhote, o lobo certamente o matará. O cão de caça precisa parecer um cão de caça aos olhos do lobo ainda mais do que aos seus próprios, se quiser sobreviver.
— É assim que você vê as Aes Sedai? A Amyrlin? A mim? Lobos prestes a atacar seu jovem cão de caça? — Lan sacudiu a cabeça. — Você sabe o que ele é, Lan. Sabe o que ele precisa se tornar. Precisa. Aquilo pelo qual tenho trabalhado desde o dia em que nos conhecemos, e antes disso. Você agora duvida do que faço?
— Não. Não, mas… — Ele estava se recuperando, reconstruindo suas muralhas. Mas elas ainda não estavam inteiras. — Quantas vezes você disse que ta’veren puxam quem está ao redor como gravetos em um redemoinho? Talvez eu também tenha sido puxado. Só sei que me pareceu certo. Aqueles camponeses precisavam de alguém ao seu lado. Pelo menos Rand precisava. Moiraine, eu acredito no que você faz, mesmo agora, ainda que só saiba em partes. Acredito, assim como acredito em você. Não pedi para ser liberado do meu elo, nem pedirei. Sejam quais forem seus planos para mim ao morrer, terei um grande prazer em mantê-la viva e fazer com que pelo menos esses planos não resultem em nada.
— Ta’veren. — Moiraine suspirou. — Talvez tenha sido isso. Em vez de guiar uma lasca de madeira descendo um riacho, eu estou tentando guiar uma tora por uma corredeira. Toda vez que a empurro, ela me empurra, e a tora vai aumentando de tamanho à medida que avançamos. No entanto, devo conduzi-la até o fim. — Ela deu uma risadinha. — Não ficarei triste, meu velho amigo, se você conseguir estragar esses planos. Agora, por favor, me deixe. Preciso ficar sozinha para pensar. — Ele hesitou apenas por um instante antes de se virar na direção da porta. Mas, no último segundo, ela não conseguiu deixá-lo partir sem mais uma pergunta. — Você já sonhou com algo diferente, Lan?
— Todos os homens sonham. Mas eu sei que sonhos são sonhos. Isto — ele tocou o cabo da espada — é a realidade. — As muralhas estavam de volta, altas e impenetráveis como sempre.
Durante um tempo após sua partida, Moiraine ficou sentada na cadeira olhando para o fogo. Pensou em Nynaeve e em fendas em uma muralha. Sem tentar, sem pensar no que fazia, aquela jovem havia criado fendas nas muralhas de Lan e as semeara com ramos de hera, que agora a infestavam. Lan achava que estava seguro, aprisionado em sua fortaleza pelo destino e por sua própria vontade, mas lenta e pacientemente as plantas derrubavam as paredes e desnudavam o homem em seu interior. Ele já compartilhava algumas das lealdades de Nynaeve. No começo, ele era indiferente ao povo de Campo de Emond, pensava nelas apenas como pessoas em quem Moiraine tinha um certo interesse. Nynaeve mudara isso da mesma forma que mudara Lan.
Para sua surpresa, Moiraine sentiu uma pontada de ciúmes. Ela nunca sentira aquilo antes, e decerto não por qualquer uma das mulheres que tinham jogado seus corações aos pés de Lan, ou pelas que estiveram na cama dele. De fato, ela jamais pensara nele como um objeto de ciúmes, jamais pensara tal coisa de homem algum. Ela era casada com sua batalha, assim como ele era casado com a dele. Mas eles eram companheiros nessas batalhas fazia muito tempo. Ele cavalgara até matar o cavalo, depois correra quase até ele próprio cair morto, para carregá-la nos braços até Anaiya, para receber a Cura. Ela havia tratado de suas feridas mais de uma vez, usando suas artes para preservar uma vida que o homem estivera pronto para jogar fora apenas para salvá-la. Ele sempre dissera que estava casado com a morte. Agora, uma nova noiva capturara seu olhar, embora ele estivesse cego. Ele achava que ainda estava seguro atrás de suas muralhas, mas Nynaeve já amarrara flores nupciais em seus cabelos. Será que ele ainda seria capaz de desafiar a morte com tanta naturalidade? Moiraine se perguntou quando ele lhe pediria que o liberasse de seu elo. E o que ela faria quando ele pedisse.
Ela se levantou com uma careta. Havia assuntos mais importantes para se preocupar. Bem mais importantes. Seus olhos percorreram os livros abertos e os papéis que atulhavam o aposento. Tantas pistas, nenhuma resposta.
Vandene entrou com uma bandeja com um bule de chá e xícaras. Ela era magra e graciosa, com costas retas e os cabelos presos com elegância na altura da nuca, quase brancos. O rosto com idade indefinida carregava longos, longos anos.
— Eu teria mandado Jaem trazer isto para não vir eu mesma perturbá-la, mas ele está no celeiro praticando com a espada. — Ela fez um som de desaprovação ao empurrar um manuscrito surrado de lado para colocar a bandeja na mesa. — A presença de Lan o fez se lembrar de que é mais do que um jardineiro e faz-tudo. Gaidins são muito arrogantes. Achei que Lan ainda estivesse aqui, por isso trouxe uma xícara a mais. Encontrou o que estava procurando?
— Sequer sei bem o que estou procurando. — Moiraine franziu a testa, estudando a outra mulher. Vandene era da Ajah Verde, não Marrom, como sua irmã, mas as duas haviam passado tanto tempo estudando juntas que ela sabia tanto de história quanto Adeleas.
— Seja o que for, você não parece sequer saber onde procurar. — Vandene mexeu em alguns dos livros e manuscritos que estavam sobre a mesa, sacudindo a cabeça. — Tantos assuntos. As Guerras dos Trollocs. Os Vigias das Ondas. A lenda do Retorno. Dois tratados sobre a Trombeta de Valere. Três sobre profecias das trevas, e… Luz, o livro de Santhra sobre os Abandonados. Coisa feia, essa. Tão feia quanto essa sobre Shadar Logoth. E as Profecias do Dragão, em três traduções e o original. Moiraine, o que você está procurando? As Profecias eu posso entender, ouvimos algumas notícias por aqui, apesar de estarmos afastadas. Ficamos sabendo um pouco do que está acontecendo em Illian. Existe até um boato na aldeia de que alguém já encontrou a Trombeta. — Ela mexeu em um manuscrito sobre a Trombeta e tossiu com a poeira que subiu. — Disso, eu duvido, claro. Haverá rumores. Mas o quê…? Não. Você disse que queria privacidade, e eu a concederei.