— Espere um pouco — interrompeu Moiraine, detendo a outra Aes Sedai um pouco antes da porta. — Talvez você possa responder a algumas perguntas.
— Vou tentar. — Vandene sorriu de repente. — Adeleas vive dizendo que eu deveria ter escolhido as Marrons. Pergunte. — Ela serviu duas xícaras de chá e entregou uma para Moiraine, depois se sentou em uma cadeira diante do fogo.
As xícaras soltaram vapor enquanto Moiraine escolhia suas perguntas com cuidado. Para encontrar as respostas e não revelar demais.
— A Trombeta de Valere não é mencionada nas Profecias, mas está ligada ao Dragão em algum texto?
— Não. Exceto pelo fato de que a Trombeta precisa ser encontrada antes de Tarmon Gai’don e o Dragão Renascido supostamente deve lutar a Última Batalha, não há ligação alguma entre eles. — A mulher de cabelos brancos tomou um gole de seu chá e ficou esperando.
— Há algo que ligue o Dragão à Ponta de Toman?
Vandene hesitou.
— Sim e não. Este é um ponto de discordância entre mim e Adeleas. — A voz dela assumiu um tom professoral, e, por um momento, ela falou como uma Marrom. — Existe um verso no original que é traduzido literalmente como “Cinco avançam cavalgando, e quatro retornam. Ele se proclamará acima dos vigias e, com seu estandarte, atravessará o céu em chamas…” Bem, o texto continua. A questão é a palavra ma’vron. Eu digo que ela deveria ser traduzida não simplesmente como “vigias”, que é a’vron. Ma’vron carrega mais peso. Eu digo que ela signi ica Os Vigias das Ondas, embora eles se re iram a si mesmos como Do Miere A’vron , é claro, e não Ma’vron. Adeleas diz que estou me preocupando com detalhes. Mas acredito que isso signi ica que o Dragão Renascido aparecerá em algum lugar acima da Ponta de Toman, em Arad Doman ou na Saldaea. Adeleas pode achar que sou tola, mas eu presto atenção em cada mínima novidade que ouço chegando de Saldaea, hoje em dia. Mazrim Taim pode canalizar, pelo que ouvi dizer, e nossas irmãs ainda não conseguiram capturá-lo. Se o Dragão Renasceu e a Trombeta de Valere foi encontrada, então logo virá a Última Batalha. Pode ser que nunca terminemos nossa história. — Ela estremeceu, e então deu uma risada repentina. — Algo estranho de se preocupar. Suponho que estou mesmo me tornando Marrom. Mas é algo horrível de imaginar. Faça sua próxima pergunta.
— Acho que você não precisa se preocupar com Taim — respondeu Moiraine, distraída. Era uma ligação com a Ponta de Toman, ainda que pequena e tênue. — Vão cuidar dele, assim como cuidaram de Logain. E quanto a Shadar Logoth?
— Shadar Logoth! — Vandene fez um som desdenhoso. — Resumindo, a cidade foi destruída por seu próprio ódio, junto com toda a vida. Exceto Mordeth, o conselheiro que começou aquilo tudo por usar as táticas dos Amigos das Trevas contra os próprios Amigos das Trevas. E agora ele ica lá, aprisionado, à espera de uma alma para roubar. Não é seguro entrar, e não é seguro tocar em nada na cidade. Mas toda noviça perto de se tornar Aceita sabe pelo menos isso. Para saber a história toda, você teria que ficar aqui um mês inteiro ouvindo Adeleas falar, ela sabe tudo sobre o assunto, mas até mesmo eu posso lhe dizer que não há nenhuma relação com o Dragão nessa história. Esse lugar estava morto cem anos antes de Yurian Arco-de-pedra se erguer das cinzas das Guerras dos Trollocs, e a história dele é a que mais se aproxima da dessa cidade dentre todos os falsos Dragões.
Moiraine levantou a mão.
— Eu não fui clara, e não estou falando sobre o Dragão, agora, Renascido ou falso. Você consegue pensar em alguma razão para um Desvanecido pegar um objeto que tivesse vindo de Shadar Logoth?
— Não se ele soubesse o que o objeto realmente é. O ódio que matou Shadar Logoth foi um ódio pensado para ser usado contra o Tenebroso. Ele destruiria Filhos das Sombras da mesma forma que fazia com aqueles que caminham na Luz. Eles temem Shadar Logoth tanto quanto nós, e com razão.
— E o que você pode me contar sobre os Abandonados?
— Você gosta de pular de um assunto para outro. Não posso lhe dizer muito mais do que o que você aprendeu como noviça. Ninguém sabe muito mais dos Sem Nome do que isso. Você quer que eu continue falando do que ambas aprendemos quando éramos garotas?
Por um instante, Moiraine ficou em silêncio. Não queria falar demais, mas Vandene e Adeleas tinham mais conhecimento nas pontas de seus dedos do que existia em qualquer outro lugar além da Torre Branca, onde mais complicações a aguardavam do que ela gostaria de lidar naquele momento. Ela deixou o nome sair por entre os lábios como se tivesse escapado sem querer.
— Lanfear.
— Para variar — disse a outra mulher com um suspiro —, não sei absolutamente nada além do que sabia quando noviça. A Filha da Noite permanece tão misteriosa quanto se realmente estivesse envolta em trevas. — Ela fez uma pausa, olhando para dentro da xícara, e quando levantou a cabeça seus olhos encararam o rosto de Moiraine com dureza. — Lanfear estava ligada ao Dragão, a Lews Therin Telamon. Moiraine, você tem alguma pista sobre onde o Dragão Renascerá? Ou já Renasceu? Isso já aconteceu?
— Se tivesse — respondeu Moiraine, sem mudar o tom de voz —, por acaso estaria aqui, e não na Torre Branca? A Amyrlin sabe tanto quanto eu, juro. Você recebeu alguma convocação dela?
— Não, e suponho que receberíamos. Quando chegar a hora de enfrentar o Dragão Renascido, a Amyrlin precisará de cada irmã, cada Aceita, cada noviça que puder acender uma vela sem ajuda. — Vandene diminuiu o tom de voz, perdida em devaneios. — Com o poder que ele terá, será preciso dominá-lo antes que tenha a chance de usá-lo contra nós, antes que enlouqueça e destrua o mundo. Mas primeiro precisamos deixar que ele enfrente o Tenebroso. — Ela soltou uma risada melancólica ao notar a expressão de Moiraine. — Eu não sou Vermelha. Estudei as Profecias o bastante para saber que não podemos ousar amansá-lo primeiro. Se for possível amansá-lo. Eu sei tão bem quanto você, tão bem quanto qualquer irmã que se dê o trabalho de pesquisar, que os selos que prendem o Tenebroso em Shayol Ghul estão enfraquecendo. Os illianenses convocaram a Grande Caçada da Trombeta. Falsos Dragões surgem aos montes. E dois deles, Logain e agora este sujeito de Saldaea, são capazes de canalizar. Quando foi a última vez que as Vermelhas encontraram dois homens capazes de canalizar em menos de um ano? Quando foi que encontraram pelo menos um em cinco anos? Não foi em momento algum da minha vida, e eu sou bem mais velha que você. Os sinais estão em toda parte. Tarmon Gai’don está chegando. O Tenebroso vai se libertar. O Dragão Renascerá. — Vandene pousou a xícara no pires com um ruído. — Acho que é por isso que eu temia que você tivesse visto algum sinal dele.
— Ele virá — retrucou Moiraine, tranquila —, e nós faremos o que deve ser feito.
— Se eu achasse que serviria de algo, arrancaria o nariz de Adeleas de seu livro e partiria para a Torre Branca. Mas vejo que estou feliz por estar onde estou. Talvez tenhamos tempo de terminar nossa história.
— Espero que sim, Irmã.
Vandene se levantou.
— Bem, tenho que cuidar de alguns afazeres antes de dormir. Se você não tem mais perguntas, vou deixá-la com seus estudos. — Mas ela fez uma pausa e revelou que, por mais tempo que tivesse passado com os livros, ainda era da Ajah Verde. — Você deveria tomar alguma atitude a respeito de Lan, Moiraine. O homem está mais inquieto por dentro do que o Monte do Dragão. Mais cedo ou mais tarde, ele vai entrar em erupção. Conheci homens o bastante para perceber quando um deles está preocupado com uma mulher. Vocês dois estão juntos há muito tempo. Talvez ele finalmente tenha começado a enxergá-la como uma mulher, além de uma Aes Sedai.