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Ned também recordava a primeira criança gerada por Robert, uma

filha nascida no Vale quando ainda era pouco mais que um rapaz.

Uma doce garotinha; o jovem senhor de Ponta Tempestade a amara

perdidamente. Costumava fazer visitas diárias para brincar com o

bebê, muito depois de ter perdido interesse pela mãe. Era frequente

arrastar Ned para lhe fazer companhia, independente de sua vontade.

Compreendeu de súbito que a menina devia ter agora dezessete ou

dezoito anos; mais velha que Robert era quando nascera. Estranho

pensamento.

Cersei podia não estar contente com as escapadelas do senhor seu

esposo, mas no fim das contas pouco importava se o rei tinha um

bastardo ou uma centena. A lei e o costume poucos direitos davam

aos filhos ilegítimos. Gendry, a moça no Vale, o rapaz em Ponta

Tempestade, nenhum deles podia ameaçar os filhos legítimos de

Robert...

Suas reflexões foram interrompidas por um suave toque na porta.

- Um homem para vê-lo, senhor - chamou Harwin. - Não quer dizer

o nome.

- Mande-o entrar - Ned respondeu, curioso.

O visitante era um homem corpulento com botas molhadas e

completamente enlameadas, um pesado manto marrom da ráfia mais

grosseira, as feições escondidas por um capuz, as mãos enfiadas em

volumosas mangas.

- Quem é você? - Ned perguntou.

- Um amigo - disse o homem encapuzado numa estranha voz. -

Temos de conversar a sós, Lorde Stark.

A curiosidade era mais forte que a cautela.

- Harwin, deixe-nos - ordenou. Só depois de estarem a sós, por trás

das portas fechadas, é que o visitante puxou o capuz para trás.

- Lorde Varys? - Ned exclamou, estupefato.

- Lorde Stark - disse Varys polidamente enquanto se sentava. - Posso

lhe pedir uma bebida? Ned encheu duas taças de vinho do verão e

entregou uma delas a Varys.

- Poderia ter passado por você que nunca o reconheceria - ele disse,

incrédulo. Nunca vira o eunuco vestido de outra coisa que não fosse

seda, veludo e os mais ricos damascos; e este homem cheirava a suor,

não a lilases.

- Era esta a minha maior esperança - Varys respondeu. - Não seria

bom se certas pessoas soubessem que conversamos em particular. A

rainha o vigia de perto. Este vinho é de primeira escolha. Obrigado.

- Como passou pelos meus guardas? - Ned perguntou. Porther e

Cayn tinham sido colocados fora da torre, e Alyn, nas escadas.

- A Fortaleza Vermelha tem caminhos que só são conhecidos por

fantasmas e aranhas - Varys sorriu como quem pede perdão. - Não

lhe tomarei muito tempo, senhor. Há coisas que precisa saber. E a

Mão do Rei, e o rei é um tolo - a voz do eunuco tinha perdido o

timbre rico; agora era fina e aguçada como um chicote. - É seu

amigo, eu sei, mas apesar disso, um tolo... e está perdido, a menos

que o salve. Hoje foi por pouco. Alimentavam a esperança de matá-lo

durante a luta corpo a corpo.

Por um momento Ned ficou sem fala, de tão chocado.

- Quem?

Varys bebericou o vinho.

- Se realmente preciso lhe dizer isso, então é um tolo ainda maior

que Robert, e eu estou do lado errado.

- Os Lannister - Ned falou. - A rainha. . não, não acredito nisso, nem

mesmo de Cersei. Ela lhe pediu para não lutar!

- Ela o proibiu de lutar, na presença do irmão, dos cavaleiros e de

metade da corte. Diga-me francamente: conhece alguma maneira

mais segura de forçar o Rei Robert a participar do corpo a corpo? É

o que lhe pergunto.

Ned tinha uma sensação doentia nas entranhas. O eunuco descobrira

uma verdade; dizer a Robert Baratheon que não conseguia, não devia

ou não podia fazer uma coisa era o mesmo que lhe ordenar que

fizesse.

- Mesmo que ele tivesse lutado, quem se atreveria a atingir o rei?

Varys encolheu os ombros.

- Havia quarenta participantes no corpo a corpo. Os Lannister têm

muitos amigos. No meio de todo aquele caos, com cavalos a

relinchar, ossos a se partirem e Thoros de Myr a brandir aquela sua

absurda espada flamejante, quem poderia falar em assassinato se

algum golpe casual caísse sobre Sua Graça? - o eunuco dirigiu-se ao

jarro e voltou a encher a taça. - Depois de a coisa feita, o assassino

estaria fora de si de desgosto. Quase consigo ouvi-lo chorar. Tão

triste. Mas não haveria dúvida de que a amável e compassiva viúva se

apiedaria, poria o pobre infeliz em pé e o abençoaria com um gentil

beijo de perdão. O bom Rei Joffrey não teria escolha que não fosse

perdoá-lo - Varys passou a mão no rosto. - Ou talvez Cersei deixasse

Sor Ilyn cortar-lhe a cabeça, haveria assim menos riscos para os

Lannister, embora fosse uma surpresa bem desagradável para seu

pequeno amigo.

Ned sentiu sua ira aumentar.

- Conhecia esta conjura e, no entanto, não fez nada.

- Eu governo murmuradores, não guerreiros.

- Podia ter vindo falar comigo mais cedo.

- Ah, sim, confesso. E o senhor teria ido correndo falar com o rei,

não é verdade? E quando Robert ouvisse dizer que estava em perigo,

o que teria feito? Gostaria de saber.

Ned pensou naquilo.

- Teria mandado todos para os sete infernos e lutado de qualquer

maneira, para mostrar que não os temia.

Varys abriu as mãos.

- Vou fazer outra confissão, Lorde Eddard. Tinha curiosidade em ver

o que o senhor faria. Por que não veio falar comigo?, me perguntou,

e devo responder: Ora, porque não confiava no senhor.

- Não confiava em mim? - Ned estava francamente estupefato.

- A Fortaleza Vermelha abriga dois tipos de pessoas, Lorde Eddard -

Varys continuou. - Aqueles que são leais ao reino e os que são leais

apenas a si mesmos. Até hoje de manhã não sabia dizer a que grupo

o senhor pertencia. . e portanto esperei para ver... e agora sei com

toda certeza - fez um rechonchudo sorrisinho apertado e, por um

momento, seu rosto privado e sua máscara pública foram iguais. -

Começo a compreender por que a rainha o teme tanto. Ah, sim,

como começo.

- Quem ela deve temer é você - disse Ned.

- Não. Eu sou aquilo que sou. O rei utiliza-me, mas isso o

envergonha. Nosso Robert é guerreiro muito poderoso, e um homem

tão viril pouca amizade sente por denunciantes, espiões e eunucos.

Se chegar o dia em que Cersei sussurre "Mate aquele homem", Ilyn

Payne me cortará a cabeça num piscar de olhos. E quem faria então

luto pelo pobre Varys? Seja no Norte, seja no Sul, não se cantam

canções sobre aranhas - estendeu uma mão suave e tocou em Ned. -

Mas o senhor, Lorde Stark... penso... não, sei... ele não o mataria, nem

mesmo pela sua rainha, e pode residir aí a nossa salvação.

Aquilo tudo era demais. Por um momento, Eddard Stark nada mais

desejou que voltar a Winterfell, à simplicidade limpa do Norte, onde

os inimigos eram o inverno e os selvagens do lado de lá da Muralha.

- Certamente que Robert tem outros amigos leais - protestou. - Os

irmãos, a...

- ... mulher? - terminou Varys, com um sorriso cortante. - Os irmãos

odeiam os Lannister, é certo, mas odiar a rainha e amar o rei não são

bem a mesma coisa, não é? Sor Barristan ama a sua honra, o Grande

Meistre Pycelle ama o seu cargo, e Mindinho ama Mindinho.

- A Guarda Real..