- Se a Senhora Stark acredita que tenho de responder por algum
crime, então a acompanharei e responderei por ele.
Era a única atitude possível. Tentar sair daquilo na base da espada
era um convite seguro para uma sepultura antecipada. Uma boa
dúzia de espadas tinha respondido ao apelo da Stark por ajuda: os
homens de Harrenhal, os três Bracken, um par de fétidos
mercenários que pareciam poder matá-lo com a mesma facilidade
com que cuspiriam no chão, e alguns estúpidos camponeses que sem
dúvida não tinham a mínima ideia do que estavam fazendo. Contra
aquilo, que tinha Tyrion? Um punhal no cinto e dois homens. Jyck
brandia uma espada suficientemente bem, mas Morrec pouco
contava, era em parte cavalariço, em parte cozinheiro, em parte
criado de quarto e em nenhuma parte soldado. Quanto a Yoren,
fossem quais fossem seus sentimentos, os irmãos negros tinham
jurado não participar nas querelas do reino. Yoren nada faria.
E, de fato, o irmão negro afastara-se em silêncio quando o idoso
cavaleiro ao lado de Catelyn Stark dissera:
- Tornem-lhes as armas - e o mercenário Bronn avançara para
arrancar a espada dos dedos de Jyck e aliviar todos dos seus punhais.
- Muito bem - dissera o velho, enquanto a tensão na sala comum
refluía de modo palpável -, excelente. - Tyrion reconhecera então
aquela voz rude; o mestre de armas de Winterfell, de barbas
raspadas.
Gotas de saliva tingidas de escarlate voaram da boca da estalajadeira
gorda quando ela suplicou a Catelyn Stark:
- Não o mate aqui!
- Não o mate em lugar algum - exortara Tyrion.
- Leve-o para qualquer outro lugar, sangue aqui, não, senhora, não
quero confusões de fidalgos aqui.
- Vamos levá-lo de volta a Winterfell - Cat dissera, e Tyrion pensou:
Bem, talvez.. Àquela altura, já tivera um momento para passar os
olhos pela sala e obter uma ideia melhor da situação. E não tinha
ficado totalmente descontente com o que vira. Ah, a Stark tinha sido
inteligente, sem sombra de dúvida. Forçá-los a fazer uma afirmação
pública dos votos jurados ao pai pelos senhores que serviam e então
lhes pedir socorro e, sendo ela uma mulher, sim, essa parte era um
docinho. Mas o sucesso não tinha sido tão completo como poderia
desejar. Havia perto de cinquenta homens na sala comum, segundo
sua contagem aproximada. O apelo de Catelyn Stark tinha reunido
uma simples dúzia; os outros pareciam confusos, ou assustados, ou
carrancudos. Só dois dos Frey tinham se agitado, notara Tyrion, e
sentado assim que viram que o capitão não se movia. Poderia ter
sorrido, se se atrevesse a tanto.
- Seja então Winterfell - ele disse então, em vez de sorrir. Era uma
longa viagem, como poria atestar perfeitamente, tendo acabado de
percorrer o caminho inverso. Muitas coisas podiam acontecer ao
longo do caminho. - Meu pai vai querer saber o que me aconteceu -
acrescentou, olhando nos olhos o homem de armas que se oferecera
para lhe ceder o quarto, - Pagará uma boa recompensa a qualquer
homem que lhe leve notícias do que aconteceu hoje aqui - Lorde
Tywin não faria nada disso, claro, mas Tyrion o compensaria se
ganhasse a liberdade.
Sor Rodrik olhara de relance para sua senhora, um olhar preocupado,
como devia ser.
- Seus homens vêm com ele - anunciou o velho cavaleiro. - E
agradeceremos a todos aqui se ficarem em silêncio quanto ao que
viram aqui.
Tyrion fez tudo o que pôde para não rir. Silêncio? Velho tonto. A
menos que capturasse a estalagem inteira, a notícia começaria a se
espalhar no instante em que dali saíssem. O cavaleiro livre com a
moeda de ouro no bolso voaria como uma seta para Rochedo
Casterly. Se não fosse ele, então qualquer outro o faria. Yoren levaria
a história para o Sul. Aquele estúpido cantor poderia fazer daquilo
um lai. Os Frey fariam um relatório ao seu senhor, e só os deuses
sabiam o que este faria. Lorde Walder Frey podia ser vassalo de
Correrrio, mas era um homem cauteloso que vivera muito tempo por
assegurar-se de estar sempre ao lado dos vencedores. No mínimo,
enviaria suas aves para o sul até Porto Real, e poderia bem atrever-se
a mais.
Catelyn Stark não perdera tempo.
- Devemos partir de imediato. Vamos querer montarias descansadas e
provisões para a estrada. Quanto aos senhores, saibam que têm a
gratidão eterna da Casa Stark. Se algum dos senhores quiser nos
ajudar a guardar os cativos e levá-los em segurança até Winterfell,
prometo que serão bem recompensados - e foi o suficiente, os tontos
atiraram-se à frente. Tyrion estudou-lhes as caras; seriam de fato
bem recompensados, jurara a si mesmo, mas talvez não
propriamente do modo que imaginavam.
Mas, mesmo enquanto o empurravam para fora, selando os cavalos
na chuva e atando-lhe as mãos com uma corda grossa, Tyrion
Lannister não estava realmente com medo. Poderia ter apostado que
não conseguiriam levá-lo até Winterfell. Haveria cavaleiros no seu
encalço em menos de um dia, aves levantariam vôo, e certamente um
dos senhores do rio teria suficiente vontade de ganhar os favores de
seu pai para dar uma ajuda. Tyrion congratulava-se pela sua sutileza
quando alguém lhe puxara um capuz sobre os olhos e o subira para
uma sela,
Tinham partido em meio à chuva num duro galope, e não demorou
muito até que as coxas de Tyrion ficassem rígidas e doídas e seu
traseiro latejasse de dor. Mesmo depois de estarem suficientemente
afastados da estalagem para se sentirem em segurança, e de Catelyn
ter abrandado a marcha até um trote, foi uma miserável viagem por
terreno irregular, piorada pela sua cegueira. Cada curva e volta o
punha a ponto de cair do cavalo. O capuz abafava os sons, e não
conseguia distinguir o que era dito à sua volta, e a chuva encharcava
o tecido, que lhe grudava no rosto, até que mesmo respirar se
tornara uma luta, A corda deixara seus pulsos em carne viva, e
parecia ficar mais apertada à medida que a noite avançava.
Preparava-me para me instalar em frente de um fogo quente e uma
ave assada, mas aquele maldito cantor tinha de abrir a boca, pensava
tristemente. O maldito cantor viera com eles.
- Há uma grande canção por fazer a partir disto, e eu sou aquele que
a fará - dissera a Catelyn Stark quando anunciara sua intenção de
viajar para o norte com eles para ver como se desenrolaria a
"esplêndida aventura".
Tyrion gostaria de saber se o rapaz acharia a aventura assim tão
esplêndida quando os cavaleiros dos Lannister os apanhassem.
A chuva já tinha enfim parado e a luz da alvorada já se infiltrava
através do pano molhado que tinha sobre os olhos quando Catelyn
Stark deu ordem para desmontar. Mãos rudes o tiraram do cavalo,
desataram-lhe os pulsos e arrancaram-lhe o capuz da cabeça. Quando
Tyrion viu a estreita estrada pedregosa, os sopés das colinas que se
erguiam altas e selvagens por toda volta, e os picos escarpados e