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desajeitadamente para fora de seu caminho. Marillion teve menos

sorte. Cavalo e cavaleiro despencaram no chão, num emaranhado de

membros por cima do cantor. Tyrion avançou enquanto a perna do

salteador ainda se encontrava presa sob o cavalo caído e enterrou o

machado no pescoço do homem, logo acima das omoplatas.

Enquanto lutava para libertar o machado, ouviu Marillion gemer sob

os corpos.

- Alguém me ajude - o cantor arquejou. - Que os deuses tenham

piedade de mim, estou sangrando.

- Creio que é sangue de cavalo - disse Tyrion. A mão do cantor

arrastou-se por sob o animal morto, arranhando a terra como uma

aranha de cinco pernas. Tyrion calcou os dedos com o salto da bota

e sentiu um estalido satisfatório. - Feche os olhos e finja que está

morto - aconselhou ao cantor antes de erguer o machado e se

afastar.

Depois daquilo, aconteceu tudo ao mesmo tempo. A madrugada

encheu-se de gritos e berros, o ar ficou pesado com o cheiro de

sangue e o mundo transformou-se em caos. Setas voaram silvando

junto à sua orelha e ricochetearam nas rochas. Viu Bronn derrubado

do cavalo, lutando com uma espada em cada mão. Tyrion manteve-se

ao largo da luta, deslizando de rochedo em rochedo e saltando das

sombras para atingir as pernas dos cavalos que passavam. Encontrou

um homem dos clãs ferido e o deixou morto, apropriando-se do seu

meio-elmo. Estava muito apertado, mas Tyrion sentia-se grato por

qualquer proteção que encontrasse. Jyck foi atingido por trás no mo-

mento em que abatia um homem à sua frente, e mais tarde Tyrion

tropeçou no corpo de Kurleket. A cara de porco tinha sido esmagada

com uma maça, mas Tyrion reconheceu o punhal ao arrancado dos

dedos mortos do homem. Estava enfiando-o no cinto quando ouviu

um grito de mulher.

Catelyn Stark estava encurralada contra a superfície de pedra da

montanha, rodeada por três homens, um ainda montado. Segurava

desajeitadamente um punhal com as mãos mutiladas, mas tinha

agora as costas apoiadas contra a rocha e estava cercada pelos três

lados restantes. Que fiquem com a cadela, pensou Tyrion, e que

façam bom proveito, mas, apesar disso, avançou. Apanhou o primeiro

homem pela parte de trás do joelho antes que eles percebessem que

se encontrava ali, e a pesada cabeça do machado rompeu carne e

osso como madeira podre. Lenha que sangra, pensou Tyrion

estupidamente enquanto o segundo homem se aproximava. Tyrion

esquivou-se sob sua espada, brandiu o machado, o homem

cambaleou para trás... e Catelyn Stark surgiu pelas suas costas e

abriu-lhe a garganta. O cavaleiro lembrou-se de um compromisso

urgente em outro lugar, e afastou-se rapidamente a galope.

Tyrion olhou em volta. Os inimigos estavam vencidos, ou

desaparecidos. De algum modo, a luta terminara sem que ele

percebesse. Cavalos moribundos e homens feridos jaziam por toda

parte, gritando ou gemendo. Para seu grande espanto, não era um

deles. Abriu os dedos e deixou cair o machado ao chão com um tunc.

Tinha as mãos pegajosas de sangue. Podia jurar que a luta tinha

durado metade de um dia, mas o Sol parecia quase não se ter

movido.

- Sua primeira batalha? - mais tarde Bronn perguntou, enquanto se

inclinava sobre o corpo de Jyck, descalçando-lhe as botas. Eram boas

botas, como era próprio de um dos homens de Lorde Tywin; couro

pesado, untado e flexível, muito melhores que as de Bronn.

Tyrion confirmou com a cabeça,

- Meu pai ficará orgulhosíssimo - ele disse. Tinha tantas cãibras nas

pernas que mal conseguia se manter em pé. Estranho, durante a

batalha não reparara na dor uma única vez.

- Agora você precisa de uma mulher - disse Bronn com uma

cintilação nos olhos negros, enfiando as botas no alforje. - Não há

nada como uma mulher depois de matar um homem, icredite no que

lhe digo.

Chiggen parou de saquear os cadáveres dos salteadores apenas o

tempo suficiente para resfolegar e lamber os lábios.

Tyrion olhou de relance para onde a Senhora Stark se encontrava

cobrindo as feridas de Sor Rodrik.

- Estou disposto, se ela estiver - Tyrion disse. Os cavaleiros livres

arrebentaram em gargalhadas; ele sorriu e pensou: E um começo.

Mais tarde, ajoelhou-se junto ao córrego e lavou o sangue do rosto

em água fria como gelo. Enquanto coxeava de volta para junto dos

outros, olhou novamente para os mortos. Os homens dos clãs eram

magros e esfarrapados, seus cavalos, descarnados e pequenos demais,

com todas as costelas à mostra. As armas que Bronn e Chiggen lhes

tinham deixado não eram nada impressionantes. Malhos, clavas, uma

foice... Lembrou-se do homem grande com o manto de pele de gato-

das-sombras que combatera Sor Rodrik com uma grande espada de

duas mãos, mas, quando encontrou seu cadáver esparramado no

chão pedregoso, o homem afinal não era assim tão grande, seu

manto tinha desaparecido, e Tyrion reparou que a lâmina estava

cheia de entalhes e o aço barato, pintalgado de ferrugem. Pouco

admirava que os homens dos clãs tivessem deixado nove corpos sem

vida no chão.

Eles tinham apenas três mortos: dois dos homens de armas de Lorde

Bracken, Kurleket e Mohor, e seu homem, Jyck, que tão ousado se

mostrara com sua cavalgada em pelo. Um tolo até o fim, pensou

Tyrion.

- Senhora Stark, insisto para que prossigamos a toda pressa - disse

Sor Willis Wode, com os olhos perscrutando cautelosamente os

cumes das colinas através da fenda do elmo. - Nós os afastamos por

ora, mas não devem estar muito longe.

- Temos de enterrar nossos mortos, Sor Willis - ela disse. - Estes

eram homens corajosos. Não os deixarei para os corvos e os gatos-

das-sombras.

- Este solo é pedregoso demais para cavar - Sor Willis respondeu,

- Então juntaremos pedras para cobri-los.

- Juntem todas as pedras que quiserem - disse-lhe Bronn -, mas o

farão sem mim e Chiggen. Tenho coisa melhor a fazer que empilhar

pedras em cima de mortos... Respirar, por exemplo - olhou para os

demais sobreviventes. - Aqueles que quiserem estar vivos ao cair da

noite, venham conosco.

- Minha senhora, temo que ele esteja certo - Sor Rodrik disse com

cautela. O velho cavaleiro fora ferido na luta, um golpe profundo no

braço esquerdo e outro de lança que lhe resvalara o pescoço, e sua

voz mostrava o peso da idade. - Se ficarmos aqui, cairão de novo

sobre nós com toda certeza, e podemos não sobreviver a um

segundo ataque.

Tyrion via a ira no rosto de Catelyn, mas a mulher não tinha escolha.

- Então, que os deuses nos perdoem. Partiremos de imediato.

Agora não havia falta de cavalos. Tyrion mudou a sela para o

castrado malhado de Jyck, que parecia suficientemente forte para

durar mais três ou quatro dias pelo menos. Preparava-se para

montar quando Lharys avançou e lhe disse:

- Agora eu fico com este punhal, anão.

- Deixe-o ficar com ele - Catelyn Stark os olhava de cima do cavalo. -

E devolva-lhe também o machado. Podemos vir a precisar dele se

voltarmos a ser atacados.