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- Tem os meus agradecimentos, senhora - disse Tyrion, montando.

- Guarde-os - ela disse em tom rude. - Não confio mais em você do

que antes - e afastou-se antes de ele ter tempo para formular uma

resposta.

Tyrion ajustou o elmo roubado e recebeu o machado das mãos de

Bronn. Recordou o modo como iniciara a viagem, com os pulsos

atados e um capuz sobre a cabeça, e concluiu que aquilo era

decididamente uma melhoria. A Senhora Stark podia conservar sua

confiança; desde que ele pudesse conservar o machado, consideraria

que mantinha algum avanço naquele jogo.

Sor Willis Wode tomou a dianteira. Bronn instalou-se à retaguarda,

com a Senhora Stark em segurança no meio e Sor Rodrik ao lado

dela como uma sombra. Marillion, de vez em quando, lançava olhares

mal-humorados a Tyrion enquanto avançavam. O cantor partira

várias costelas, sua harpa e os quatro dedos da mão com que tocava,

mas, apesar disso, o dia não lhe fora uma perda completa; de algum

lugar tinha adquirido um magnífico manto de pele de gato-das-

sombras, espesso pelo negro rasgado por listras brancas.

Aconchegava-se em silêncio sob suas dobras, pela primeira vez sem

ter nada a dizer.

Ouviram os profundos rugidos dos gatos-das-sombras atrás deles

antes de terem andado meia milha, e mais tarde os rosnados ferozes

dos animais que lutavam pelos cadáveres que lá haviam deixado.

Marillion ficou visivelmente pálido.

- Poltrão - disse Tyrion - rima bem com canção - esporeou o cavalo e

ultrapassou o cantor, juntando-se a Sor Rodrik e a Catelyn Stark.

Ela o olhou com os lábios bem apertados.

- Como ia dizendo antes de sermos tão rudemente interrompidos -

começou Tyrion -, há uma séria falha na fábula de Mindinho.

Independente do que pensa sobre mim, Senhora Stark, uma coisa lhe

garanto: eu nunca aposto contra a minha família.

Arya

O gato preto de uma só orelha arqueou o dorso e silvou para ela.

Arya avançou pela ruela, equilibrada com leveza nas pontas dos pés

nus, escutando as batidas irregulares do coração, respirando lenta e

profundamente. Silenciosa como uma sombra, disse a si mesma, leve

como uma pena. O gato observou seu avanço, com olhos cautelosos.

Apanhar gatos era difícil. Tinha as mãos cobertas de arranhões meio

curados e ambos os joelhos estavam cheios de crostas onde os

esfolara nos tombos que levara. A princípio, até o enorme e gordo

gato do cozinheiro fora capaz de lhe escapar, mas Syrio a manteve

caçando noite e dia. Quando correra até ele com as mãos sangrando,

dissera-lhe:

- Tão lenta! Mais depressa, garota. Seus inimigos lhe farão mais que

arranhões.

Então, Syrio passou fogo de Myr em suas feridas, e ardeu tanto que

Arya teve de morder o lábio para não gritar. Depois, ele mandou que

apanhasse mais gatos.

A Fortaleza Vermelha estava cheia deles: velhos gatos preguiçosos

dormitando ao sol, caçadores de ratos de olhos frios retorcendo as

caudas, gatinhos rápidos cujas garras eram como agulhas, gatos de

senhora, todos escovados e confiantes, sombras esfarrapadas que

caçavam nas pilhas de dejetos. Um a um, Arya os perseguiu, agarrou

e trouxe todos, orgulhosamente, para Syrio Forel... todos, menos

aquele, aquele endemoniado gato negro de uma orelha só.

- Este é o verdadeiro rei do castelo que aí está - dissera-lhe um dos

homens de manto dourado. - Mais velho que o pecado e duas vezes

mais maldoso. Certa vez, o rei organizou um banquete em honra do

pai da rainha, e este bastardo preto saltou para a mesa e roubou

uma codorna assada justamente dos dedos de Lorde Tywin. Robert

riu tanto que quase explodiu. Afaste-se desse bicho, miúda.

Ela correu atrás dele por metade do castelo; duas vezes em volta da

Torre da Mão, através da muralha interior, pelos estábulos, pelos

degraus sinuosos abaixo, até para lá da cozinha pequena, da pocilga e

dos aquartelamentos dos homens de manto dourado, ao longo da

base da muralha do rio e por mais degraus acima, e de um lado para

o outro pelo Caminho dos Traidores, e depois desceu novamente,

atravessando um portão e rodeando um poço, entrando e saindo de

estranhos edifícios, até que não soube mais onde se encontrava.

Agora, por fim, tinha-o encurralado. Muros altos apertavam os dois

de ambos os lados, e na frente não havia mais que uma massa de

pedra lisa e sem janelas. Silenciosa como uma sombra, repetiu

enquanto deslizava em frente, leve como uma pena.

Quando estava a não mais de três passos, o gato se pôs em

movimento. Saltou para a esquerda e depois para a direita; e Arya

saltou para a direita e depois para a esquerda, interrompendo sua

fuga. O animal voltou a silvar e tentou passar como um raio entre

suas pernas. Rápida como uma cobra, pensou. Suas mãos fecharam-

se em volta dele. Apertou-o contra o peito, rodopiando e rindo em

voz alta enquanto as garras do gato raspavam na parte da frente de

seu colete de couro. Rapidamente beijou o gato bem entre os olhos,

atirando a cabeça para trás um instante antes de as garras do animal

encontrarem seu rosto. O gato miou e bufou.

- O que ele está fazendo com aquele gato?

Sobressaltada, Arya deixou cair o gato e rodopiou na direção da voz.

O gato desapareceu num piscar de olhos. No fim da ruela

encontrava-se uma jovem com uma massa de caracóis dourados,

trajando um vestido de boneca de cetim azul. Tinha ao lado um

rapazinho louro e roliço, com um veado empinado bordado a pérolas

no peito do gibão e uma miniatura de espada ao cinto. Princesa

Myrcella e Príncipe Tommen, pensou Arya. Uma septã grande como

um cavalo de tração pairava sobre ambos, e atrás dela viam-se dois

homens grandes com mantos carmim, guardas da Casa Lannister.

- O que você estava fazendo com aquele gato, rapaz? - perguntou de

novo Myrcella com severidade. Dirigindo-se ao irmão, disse: - É um

rapaz esfarrapado, não é? Olha para ele - e soltou um risinho.

- Um rapaz esfarrapado, sujo e malcheiroso - concordou Tommen.

Eles não me reconhecem, Arya se deu conta. Nem sequer percebem

que sou uma menina. Mas não era de se estranhar, ela estava

descalça e suja, com os cabelos emaranhados da longa correria pelo

castelo, vestida com um colete rasgado por garras de gato e com

calças marrons de ráfia cortadas grosseiramente acima dos joelhos

cobertos de crostas. Não se usam saias e sedas quando se está

apanhando gatos. Num movimento rápido, abaixou a cabeça e caiu

sobre um joelho. Talvez acabassem por não reconhecê-la mesmo.

Caso contrário, estaria metida numa grande enrascada. Septã

Mordane se sentiria humilhada, e Sansa nunca mais voltaria a falar

com ela, de tanta vergonha.

A velha septã gorda avançou.

- Rapaz, como chegou aqui? Não deve vir a esta parte do castelo.

- Não é possível manter este tipo de moleque lá fora - disse um dos

homens de manto vermelho. - É como tentar evitar a entrada de

ratazanas.

- A quem você pertence, rapaz? - exigiu saber a septã. - Responda-

me. O que se passa com você, é mudo?

A voz de Arya ficou presa na garganta. Se respondesse, Tommen e