Myrcella certamente a reconheceriam.
- Godwyn, traga-o aqui - ordenou a septã. O mais alto dos guardas
avançou pela ruela.
O pânico apertou sua garganta como uma mão gigante. Não
consegui falar nem que sua vida dependesse disso. Calma como
águas paradas, pensou, movendo a boca em silêncio.
No momento em que Godwyn estendeu a mão para agarrá-la, Arya
pôs-se em movimento. Rápida como. uma cobra. Inclinou-se para a
esquerda, e os dedos do homem roçaram seu braço, e então girou
em volta dele. Suave como seda de verão. Quando o homem
conseguiu se virar, ela já seguia numa correria pela ruela afora.
Ligeira como uma corça. A septã gritou. Arya deslizou por entre
pernas tão grossas e brancas como colunas de mármore, pôs-se em
pé de um salto, atirou-se em direção ao Príncipe Tommen e saltou
por cima dele, fazendo-o cair de traseiro no chão, com força,
soltando um "Uf. Arya rodopiou, ficando fora do alcance do segundo
guarda, e então já tinha passado por todos eles e corria a toda
velocidade.
Ouviu gritos, depois passos que corriam e se aproximavam. Deixou-
se cair e rolou. O homem do manto vermelho passou por ela de lado,
tropeçando. Arya pôs-se em pé como uma mola. Viu uma janela
acima de sua cabeça, alta e estreita, pouco mais que uma fresta.
Saltou, pendurou-se no peitoril e subiu. Segurou a respiração
enquanto se retorcia para passar. Escorregadia como uma enguia.
Caindo no chão em frente de uma surpresa criada, endireitou-se de
um salto, sacudiu as sujeiras das roupas e desatou de novo a correr,
atravessando a porta e um longo salão, descendo escadas,
atravessando um pátio escondido, rodeando uma esquina,
percorrendo um muro, e atravessando uma janela baixa e estreita
para dentro de um porão escuro como breu. Os sons foram ficando
cada vez mais distantes atrás de Arya.
Ela estava sem fôlego e completamente perdida. Estaria metida em
uma grande enrascada se a tivessem reconhecido, mas não lhe
parecia haver motivo para preocupações. Movera-se muito rápido.
Ligeira como uma corça.
Agachou-se no escuro de encontro a uma parede úmida de pedra e
pôs-se a escutar, mas os únicos sons que ouviu foram o bater do seu
coração e um pingo distante de água. Silenciosa como uma sombra,
disse a si mesma. Gostaria de saber onde estava. Na época de sua
chegada a Porto Real, costumava ter pesadelos em que se perdia no
castelo. Seu pai dizia que a Fortaleza Vermelha era menor que
Winterfell, mas nos seus sonhos ela era imensa, um infinito labirinto
de pedra com paredes que pareciam se mover e mudar atrás dela.
Dava por si vagando ao longo de salões sombrios, passando por
tapeçarias desbotadas, descendo escadas circulares sem fim, correndo
por pátios ou sobre pontes, e seus gritos ecoavam sem resposta. Em
algumas das salas, as paredes de pedra vermelha pareciam pingar
sangue, e ela não encontrava janelas em parte alguma. Por vezes,
ouvia a voz de seu pai, mas era sempre de muito longe e, por mais
depressa que corresse, a voz ficava cada vez mais fraca, até
desaparecer no nada e Arya ficar sozinha no escuro.
Percebeu que agora estava muito escuro. Abraçou com força os
joelhos nus contra o peito e estremeceu. Resolveu que esperaria em
silêncio e contaria até dez mil. Então seria seguro rastejar para fora
dali e encontrar o caminho para casa.
Quando chegou a oitenta e sete, a sala começou a clarear, porque
seus olhos tinham se adaptado à escuridão. Lentamente, os vultos
que a rodeavam tomaram forma. Enormes olhos vazios fixavam-se
nela, famintos, através das sombras, e viu vagamente as sombras
pontiagudas de longos dentes. Tinha perdido a conta. Fechou os
olhos, mordeu o lábio e mandou o medo embora, Quando voltasse a
olhar, os monstros teriam partido, Nunca teriam existido. Fez de
conta que Syrio estava ao seu lado no escuro, sussurrando-lhe ao
ouvido. Calma como as águas paradas, disse a si mesma. Forte como
um urso. Feroz como um glutão. Voltou a abrir os olhos.
Os monstros ainda lá estavam, mas o medo tinha desaparecido.
Arya pôs-se em pé, movendo-se com cuidado. As cabeças estavam
todas em volta dela. Tocou em uma, curiosa, perguntando-se se seria
verdadeira. As pontas dos seus dedos roçaram num maxilar maciço,
sentindo-o bastante real. O osso era suave sob sua mão, frio e duro
ao toque. Percorreu um dente com os dedos, negro e aguçado, um
punhal feito de escuridão. Aquilo a fez estremecer.
- Está morto - disse em voz alta, - É só um crânio, não pode me
fazer mal - mas, de algum modo, o monstro parecia saber que ela
estava ali. Podia sentir seus olhos vazios observando-a por entre as
sombras, e havia qualquer coisa naquela sala escura e cavernosa que
não gostava dela. Afastou-se do crânio com cuidado e bateu as costas
num segundo, maior que o primeiro. Por um instante sentiu os
dentes se enterrarem em seu ombro, como se aquilo desejasse
mordê-la. Arya rodopiou, sentiu o couro prender-se e se rasgar
quando uma enorme presa mordeu seu colete, e então desatou a
correr. Outro crânio ergueu-se na sua frente, o maior de todos os
monstros, mas Arya nem sequer titubeou. Saltou sobre uma fileira de
dentes negros altos como espadas, precipitou-se por entre maxilas
famintas e atirou-se contra a porta.
Suas mãos alcançaram um pesado anel de ferro incrustado na
madeira, e ela o puxou. A porta resistiu por um momento, antes de
começar lentamente a se abrir para dentro, com um rangido tão alto
que Arya teve certeza de que poderia ser ouvido em toda a cidade.
Abriu a porta apenas o suficiente para se esgueirar e sair para o
átrio à sua frente.
Se a sala com os monstros era escura, o átrio era a mais negra fossa
dos sete infernos. Calma como águas paradas, disse Arya a si mesma,
e segundos depois de seus olhos se adaptarem, percebeu que nada
havia para ver além do vago contorno cinzento da porta que acabara
de atravessar. Agitou os dedos na frente do rosto, sentiu o ar, mas
nada viu. Estava cega. Uma dançarina de água vê com todos os
sentidos, lembrou-se. Fechou os olhos e sossegou a respiração... um,
dois, três; sentiu o silêncio e estendeu as mãos.
Seus dedos roçaram pedras ásperas, sem acabamento, à sua
esquerda. Seguiu a parede tocando levemente a superfície, avançando
com pequenos passos deslizantes pela escuridão. Todos os átrios
levam a algum lado, Onde há uma entrada, há uma saída. O medo
golpeia mais profundamente que as espadas. Arya decidiu que não
teria medo. Parecia já ter percorrido um longo caminho quando a
parede terminou abruptamente e uma aragem de ar frio soprou seu
rosto. Cabelos soltos agitaram-se levemente contra sua pele.
Vindos de algum lugar, muito abaixo, ouviu ruídos. O raspar de
botas, o som distante de vozes. Uma luz vacilante passou pela
parede, ligeira, e ela viu que se encontrava no topo de um grande
poço negro, um precipício com seis metros de lado a lado, que