Nem mais uma palavra. Esqueceu quem é o rei aqui?
- Não, Vossa Graça - respondeu Ned. - E Vossa Graça, se esqueceu?
- Basta! - o rei berrou. - Estou farto de conversa. Que eu seja maldito
se não acabar com isto. Que dizem todos?
- Ela tem de ser morta - Lorde Renly declarou.
- Não temos escolha - Varys murmurou. - É triste, é triste..
Sor Barristan Selmy ergueu seus olhos azuis-claros e disse:
- Vossa Graça, existe honra em enfrentar um inimigo no campo de
batalha, mas não há nenhuma em matá-lo no ventre da mãe. Perdoe-
me, mas devo colocar-me ao lado de Lorde Eddard.
O Grande Meistre Pycelle limpou a garganta, um processo que
pareceu demorar vários minutos.
- Minha ordem serve o reino, não o governante. Há tempos,
aconselhei o Rei Aerys tão lealmente como aconselho agora o Rei
Robert, e por isso não nutro por esta moça nenhuma má vontade.
Mas pergunto-lhes o seguinte: se a guerra voltar, quantos soldados
morrerão? Quantas vilas serão queimadas? Quantas crianças serão
arrancadas das mães para morrer na ponta de uma lança? - afagou a
luxuriante barba branca, infinitamente triste, infinitamente cansado. -
Não será mais sensato, até mais bondoso, que Daenerys Targaryen
morra agora para que dezenas de milhares possam viver?
- Mais bondoso - disse Varys. - Ah, que bem-dito, e que verdadeiro,
Grande Meistre. Esta é uma verdade muito grande. Se os deuses
tiverem o capricho de conceder um filho a Daenerys Targaryen, o
reino sangrará.
Mindinho foi o último. Quando Ned olhou para ele, Lorde Petyr
abafou um bocejo.
- Quando um homem se dá na cama com uma mulher feia, a melhor
coisa a fazer é fechar os olhos e despachar o assunto - declarou. -
Esperar não tornará a donzela mais bonita. Beije-a e faça o que tem
de ser feito.
- Beije-a? - repetiu Sor Barristan, horrorizado.
- Um beijo de aço - Mindinho esclareceu.
Robert encarou a sua Mão.
- Ora, eis aqui, Ned. Você e Sor Selmy estão sós nisto. A única
questão que permanece é quem poderemos encontrar para matá-la?
- Mormont suspira por um perdão real - lembrou-lhes Lorde Renly.
- Desesperadamente - Varys confirmou -, mas ainda suspira mais pela
vida. A essa altura, a princesa aproxima-se de Vaes Dothrak, onde
puxar uma lâmina significa a morte. Se eu lhes contasse o que os
dothrakis fariam a um pobre homem que a usasse numa khaleesi,
nenhum dos senhores dormiria esta noite - afagou uma bochecha
empoada. - Agora, veneno. . as lágrimas de Lys... Digamos que Khal
Drogo nunca precisaria saber que não foi uma morte natural.
Os olhos sonolentos do Grande Meistre Pycelle abriram-se de
repente. Olhou de soslaio para o eunuco.
- Veneno é a arma de um covarde - queixou-se o rei.
Ned já ouvira o suficiente.
- Quer enviar assassinos contratados para matar uma garota de
catorze anos e ainda se encobre em subterfúgios acerca da honra? -
empurrou a cadeira para trás e pôs-se em pé. - Faça-o você, Robert.
O homem que decreta a sentença deve brandir a espada. Olhe-a nos
olhos antes de matá-la. Observe suas lágrimas, escute suas últimas
palavras. Pelo menos isso você lhe deve.
- Deuses - praguejou o rei, com a palavra explodindo em sua boca
como se mal conseguisse conter a fúria. - E você ainda fala sério,
raios o partam - estendeu a mão para o jarro de vinho que tinha
junto do cotovelo, achou-o vazio e o atirou à parede, estilhaçando-o.
- Já não tenho vinho nem paciência. Basta disto. Só me interessa que
a coisa seja feita.
- Não participarei de um assassinato, Robert. Faça o que quiser, mas
não me peça que coloque meu selo nisto.
Por um momento Robert pareceu não entender o que Ned estava
dizendo. O desafio não era um prato que ele saboreasse com
frequência. Lentamente, seu rosto mudou à medida que a com-
preensão chegava. Seus olhos se estreitaram e uma vermelhidão
subiu-lhe pelo pescoço por trás da gola de veludo. Irado, apontou o
dedo para Ned.
- É a Mão do Rei, Lorde Stark. Fará o que ordeno ou encontrarei
uma Mão que o faça.
- Desejo-lhe sucesso - Ned desprendeu o pesado prendedor que lhe
segurava as dobras do manto, a ornamentada mão de prata que era o
distintivo do seu cargo. Colocou-o na mesa em frente do rei,
entristecido pela memória do homem que o colocara em sua roupa,
do amigo que amara. -Julgava-o melhor homem que isto, Robert.
Julgava que tínhamos encontrado um rei mais nobre.
A cara de Robert estava roxa.
- Rua - coaxou, engasgando-se em sua raiva. - Rua, maldito, estou
farto de você. O que está esperando? Sai, corre de volta para
Winterfell. E assegure-se de que eu nunca mais olhe para a sua cara,
ou juro que terei a sua cabeça na ponta de uma lança!
Ned fez uma reverência e virou-se, sem mais uma palavra.
Conseguia sentir os olhos de Robert postos em suas costas. Enquanto
saía a passos largos da sala do conselho, a discussão foi reatada
quase sem uma pausa.
- Em Bravos há uma sociedade conhecida como os Homens Sem
Rosto - sugeriu o Grande Meistre Pycelle.
- Faz alguma idéia do preço que eles custam? - protestou Mindinho.
- Poder-se-ia contratar um exército de mercenários comuns por
metade do preço, e isso para dar cabo de um mercador. Nem me
atrevo a pensar no que pediriam por uma princesa.
O barulho da porta se fechando em suas costas silenciou as vozes.
Sor Soros Blount montava guarda fora da sala, usando o longo
manto branco e a armadura da Guarda Real. Deu uma rápida
olhadela curiosa pelo canto do olho, mas não fez pergunta alguma a
Ned.
O tempo estava pesado e opressivo quando Ned atravessou a
muralha interior, de regresso à Torre da Mão. Podia sentir no ar a
ameaça de chuva, que agora receberia de bom grado. Poderia fazê-lo
sentir-se um pouco menos sujo. Quando entrou em sua sala privada,
mandou chamar Vayon Poole. O intendente veio de imediato.
- Mandou me chamar, senhor Mão?
-Já não sou a Mão - disse-lhe Ned. - O rei e eu discutimos. Vamos
regressar a Winterfell.
- Começarei a fazer os preparativos de imediato, senhor.
Precisaremos de uma quinzena para preparar tudo para a viagem.
- Talvez não tenhamos uma quinzena. Talvez nem tenhamos um dia.
O rei mencionou algo sobre ver minha cabeça na ponta de uma
lança - Ned franziu a sobrancelha. Não acreditava verdadeiramente
que o rei lhe fizesse mal, Robert não. Agora estava zangado, mas,
uma vez que Ned estivesse em segurança, longe de sua vista, sua
raiva arrefeceria, como acontecia sempre.
Sempre? Súbita e desconfortavelmente, deu por si lembrando-se de
Rhaegar Targaryen. Morto há quinze anos, e Robert o odeia tanto
como sempre odiou, Era uma ideia perturbadora... e havia o outro
assunto, que envolvia Catelyn e o anão, do qual Yoren o prevenira na
noite anterior. Isso viria à luz em breve, era tão certo como o nascer
do sol, e com o rei numa fúria negra daquelas... Robert podia não se
importar nem um pouco com Tyrion Lannister, mas sentiria o