orgulho atingido, e não havia modo de dizer o que a rainha faria.
- Talvez seja mais seguro se eu partir mais cedo - ele disse a Poole. -
Levarei minhas filhas e alguns guardas, O resto de vocês podem nos
seguir quando estiverem prontos. Informe Jory, mas não diga a mais
ninguém, e não faça nada antes que eu parta com as meninas. O
castelo está cheio de olhos e ouvidos, e prefiro que não se saiba dos
meus planos.
- Será feito conforme ordena, senhor.
Depois de Poole partir, Eddard Stark foi até a janela e sentou-se,
pensando. Robert não lhe deixara alternativa que conseguisse
vislumbrar. Devia agradecê-lo. Ia ser bom regressar a Winterfell.
Nunca devia ter partido. Seus filhos o esperavam lá. Talvez fizesse
com Catelyn um novo filho quando regressasse, ainda não eram
velhos demais. E, nos últimos tempos, sempre dava por si sonhando
frequentemente com neve, com o profundo sossego da mata de lobos
à noite.
E, no entanto, a ideia de partir também o irritava, Ainda havia tanto
a fazer. Robert e seu conselho de covardes e aduladores iam reduzir
o reino à miséria se ninguém os controlasse... ou, o que era pior,
iam vendê-lo aos Lannister em pagamento dos seus empréstimos. E
a verdade sobre a morte de Jon Arryn ainda lhe fugia. Encontrara
alguns fragmentos, o bastante para convencer-se de que Jon tinha
sido de fato assassinado, mas isso nada mais era que o rastro de um
animal no chão da floresta. Ainda não avistara o animal
propriamente dito, embora o sentisse ali, à espreita, escondido,
traiçoeiro.
Lembrou-se de repente que podia regressar a Winterfell pelo mar.
Ned não era nenhum marinheiro e, em circunstâncias normais, teria
preferido a estrada do rei, mas, se embarcasse, poderia passar pela
Pedra do Dragão e falar com Stannis Baratheon. Pycelle enviara um
corvo através das águas com uma carta delicada de Ned pedindo a
Lorde Stannis para regressar ao seu lugar no pequeno conselho. Até
aquela altura não houvera resposta, mas o silêncio só lhe
aprofundava as suspeitas. Estava certo de que Lorde Stannis
partilhava do segredo que levara à morte de Jon Arryn. A verdade
que procurava podia bem estar à sua espera na antiga fortaleza
insular da Casa Targaryen.
E quando a tiver nas mãos, o que será? E mais seguro que alguns
segredos se mantenham escondidos. Estes são por demais perigosos
para partilhar, mesmo com aqueles que ama e em quem confia. Ned
tirou da bainha, que tinha presa ao cinto, o punhal que Catelyn lhe
trouxera. A faca do Duende. Por que quereria o anão ver Bran
morto? Decerto para silenciá-lo. Outro segredo, ou apenas um fio
diferente da mesma teia?
Poderia Robert estar envolvido? Não lhe parecia, mas há algum
tempo tampouco lhe parecera que Robert seria capaz de ordenar o
assassinato de mulheres e crianças. Catelyn tentara preveni-lo.
"Conhece o homem" ela dissera. "O rei é um estranho para você."
Quanto mais depressa saísse de Porto Real, melhor. Se algum navio
zarpasse para o norte de manhã, seria bom estar lá dentro. Voltou a
chamar Vayon Poole e o enviou às docas para investigar, discreta,
mas rapidamente.
- Encontre-me um navio rápido com um capitão hábil - disse ao
intendente. - Não me interessa o tamanho das cabines ou a qualidade
de seus equipamentos, desde que seja rápido e seguro. Desejo partir
imediatamente.
Poole tinha acabado de se retirar quando Tomard anunciou um
visitante.
- Lorde Baelish deseja vê-lo, senhor.
Ned sentiu-se tentado a mandá-lo embora, mas pensou melhor.
Ainda não estava livre; até que estivesse, tinha de fazer os jogos
deles.
- Mande-o entrar, Tom.
Lorde Petyr entrou na sala privada tão à vontade que era como se
nada de incomum tivesse se passado de manhã. Trajava um gibão
fendido de veludo em tons de creme e prata, um manto cinza de
seda debruado de pele negra de raposa, e seu habitual sorriso
irônico.
Ned o saudou friamente.
- Posso saber o motivo desta visita, Lorde Baelish?
- Não lhe tomarei muito tempo, estou a caminho do jantar com a
Senhora Tanda. Empadão de lampreia e leitão assado. Ela alimenta
algumas ideias de me casar com a filha mais nova, e por isso tem
sempre uma mesa espantosa. A bem da verdade, mais depressa me
casaria com um porco, mas que ela não saiba. Gosto mesmo de
empadão de lampreia.
- Que eu não o afaste das suas enguias, senhor - disse Ned com um
desdém gelado. - Neste momento não consigo pensar em ninguém
cuja companhia menos deseje do que a sua.
- Ah, estou certo de que se pensar um pouco será capaz de arranjar
alguns nomes. Varys, por exemplo. Cersei. Ou Robert. Sua Graça está
muito irada. Falou do senhor durante algum tempo depois de ter-se
retirado esta manhã. Julgo recordar que as palavras insolência e
ingratidão surgiram com frequência.
Ned não lhe deu qualquer resposta, nem ofereceu ao hóspede uma
cadeira. Mas Mindinho sentou-se mesmo assim.
- Depois de sair, coube a mim convencê-los a não contratar os
Homens Sem Rosto - prosseguiu alegremente. - Em vez disso, Varys
fará discretamente saber que transformaremos em um -abre quem
quer que trate da jovem Targaryen.
Ned sentiu-se repugnado.
- Então agora concedemos títulos a assassinos.
Mindinho encolheu os ombros.
- Os títulos são baratos. Os Homens Sem Rosto, ao contrário, são
caros. Na verdade, fiz mais pela jovem Targaryen do que o senhor
com toda a sua conversa sobre a honra. Pois que algum mercenário
bêbado com visões de nobreza tente matá-la. O mais certo é que a
tentativa seja un desastre, e depois os dothrakis ficarão em guarda.
Se enviássemos um Homem Sem Rosto contra ela, seria o mesmo
que enterrá-la.
Ned franziu a sobrancelha.
- Senta-se no conselho e fala de mulheres feias e beijos de aço, e
agora espera que eu acredite mie tentou proteger a moça? Por que
espécie de tolo me toma?
- Bem, na verdade, por um enorme - disse Mindinho, rindo.
- Acha sempre o assassinato assim tão divertido, Lorde Baelish?
- Não é o assassinato que acho divertido, Lorde Stark, é o senhor.
Governa como um homem que dança em gelo frágil. Arrisco-me a
dizer que causará um nobre barulho. Julgo que ouvi abrir-se a
primeira fenda esta manhã.
- A primeira e a última - disse Ned. - Para mim, basta.
- Quando pretende regressar a Winterfell, senhor?
- Assim que puder. Que lhe interessa isso?
- Não interessa..., mas se, por acaso, ainda aqui estiver quando cair a
noite, ficarei feliz em levá-lo a esse bordel que o seu homem Jory tem
procurado com tanta ineficácia - Mindinho sorriu. - E nem sequer
contarei à Senhora Catelyn.
Catelyn
- Senhora, devia ter avisado sobre sua vinda - dissedhe Sor Donnel
Waynwood enquanto os cavalos subiam a passagem. - Teríamos
enviado uma escolta. A estrada de altitude já não é tão segura para
um grupo tão pequeno como o seu.
- Para nossa tristeza ficamos sabendo disso, Sor Donnel - Catelyn