rocha. O silêncio a acalmou, e o balanço gentil do animal embalou
Catelyn na sela. Não muito tempo depois, estava tentando combater
o sono.
Talvez tenha cochilado por um momento, porque, repentinamente,
um maciço portão ferrado ergueu-se à sua frente.
- Pedra - anunciou alegremente Mya, desmontando. As poderosas
muralhas de pedra estavam coroadas por lanças de ferro, e duas
grossas torres redondas elevavam-se acima da fortaleza. O portão
abriu-se com o grito de Mya. Lá dentro, o corpulento cavaleiro que
comandava o castelo intermédio saudou Mya pelo nome e ofereceu-
lhes espetos de carne assada e cebolas recém-saídas do fogo. Catelyn
até então não percebera a fome que sentia. Comeu no pátio, em pé,
enquanto os cavalariços colocavam suas selas em mulas descansadas.
O molho quente correu-lhe pelo queixo abaixo e pingou sobre seu
manto, mas estava faminta demais para se importar.
Depois, foi montar numa nova mula e voltou a sair para a luz das
estrelas. A segunda parte da subida pareceu a Catelyn mais
traiçoeira. A trilha era mais íngreme, os degraus, mais desgastados, e
aqui e ali cobertos por cascalho e pedra partida. Mya teve de
desmontar meia dúzia de vezes para tirar pedras caídas do caminho.
- Não vai querer que sua mula quebre uma pata aqui em cima - ela
disse.
Catelyn foi obrigada a concordar. Sentia agora mais a altitude. As
árvores cresciam mais dispersas ali, e o vento soprava com maior
vigor, em rajadas intensas que a puxavam pela roupa e lhe atiravam
os cabelos nos olhos. De tempos em tempos, os degraus dobravam-se
sobre si mesmos e conseguia ver Pedra abaixo delas e, mais abaixo,
os Portões da Lua, cujos archotes não eram mais brilhantes que
velas.
Neve era menor que Pedra, uma única torre fortificada e uma
fortaleza e estábulo de madeira escondidos atrás de um muro baixo
de pedra solta. Mas apertava-se de encontro à Lança do Gigante de
modo a dominar toda a escada de pedra acima do castelo intermédio
inferior. Um avanço inimigo sobre o Ninho da Águia teria de lutar a
partir de Pedra, degrau a degrau, enquanto pedras choviam de Neve.
Seu comandante, um jovem cavaleiro ansioso de face esburacada,
ofereceu-lhes pão e queijo e a possibilidade de se aquecerem na sua
fogueira, mas Mya declinou.
- Devemos continuar, senhora - disse. - Se lhe for conveniente - e
Catelyn anuiu.
De novo foram-lhes dadas outras mulas. A dela, um macho, era
branca. Mya sorriu ao vê-lo.
- O Branquinho é um bom macho, minha senhora. Pernas firmes, até
mesmo no gelo, mas precisa ter cuidado. Ele escoiceará se não gostar
da senhora.
O macho branco pareceu gostar de Catelyn, não houve coices, graças
aos deuses. Também não havia gelo, e por isso também se sentia
grata.
- Minha mãe diz que, há centenas de anos, era aqui que a neve
começava - disse-lhe Mya. - Cá em cima estava sempre branco, e o
gelo nunca derretia - encolheu os ombros. - Nem sequer me lembro
de alguma vez ter visto neve abaixo da montanha, mas talvez tenha
sido assim em épocas passadas.
Tão jovem, pensou Catelyn, tentando imaginar seja fora assim. A
moça vivera metade da vida no verão, e isso era tudo o que conhecia.
Quis dizer-lhe: O inverno está para chegar, filha. As palavras
subiram-lhe aos lábios, e quase as disse. Talvez estivesse por fim
transformando-se numa Stark.
Acima de Neve, o vento era uma coisa viva, uivando em torno delas
como um lobo na campina, e depois se transformando em nada,
como se as atraísse para a complacência. Ali as estrelas rireciam mais
brilhantes, tão próximas que quase podia tocá-las, e o crescente da
lua era enorme ao céu negro e limpo. Enquanto subiam, Catelyn
descobriu que era melhor olhar para cima que rara baixo. Os
degraus estavam fendidos e quebrados, de séculos de gelo e degelo e
dos passos de —contáveis mulas, e a altitude lhe trazia o coração à
garganta, até mesmo na escuridão. Quando negaram a uma
depressão entre duas agulhas de rocha, Mya desmontou.
- É melhor levar as mulas pelas cordas - ela avisou. - O vento pode
ser um pouco assustador aqui, minha senhora,
Catelyn desmontou rigidamente nas sombras e olhou para o caminho
que as esperava: seis metros de comprimento e quase um de largura,
mas com um precipício de cada lado. Ouvia o vento gritar. Mya
avançou com ligeireza, seguida por uma mula tão calma como se
estivessem percorrendo uma muralha. Agora era a vez de Catelyn.
Mas, assim que deu o primeiro passo, o medo endureceu suas
mandíbulas. Conseguia sentir o vazio, os vastos abismos negros de ar
que se abriam ao redor. Parou, tremendo, com medo de se mover. O
vento gritava-lhe e a puxava pelo manto, tentando empurrá-la para
fora daquela crista. Catelyn arrastou o pé para trás, no mais nmido
dos passos, mas o macho estava atrás dela, e não podia recuar. Vou
morrer aqui, pensou. Sentia os suores frios que lhe escorriam pelas
costas abaixo.
- Senhora Stark - chamou Mya por sobre o abismo. A voz da moça
parecia vir de uma distancia de mil léguas. - Está bem?
Catelyn Tully Stark engoliu o que restava de seu orgulho.
- Eu.. eu não sou capaz de fazer isto, criança - ela gritou.
- É sim - disse a bastarda. - Eu sei que é capaz. Veja como o
caminho é largo,
- Não quero olhar - o mundo parecia girar à sua volta, montanha,
céu e mulas rodopiando como o pião de uma criança. Catelyn fechou
os olhos para recuperar a firmeza da respiração entrecortada.
- Vou buscá-la - disse Mya. - Fique imóvel, senhora.
Mover-se era talvez a última coisa que Catelyn faria naquele
momento. Ouviu o grito agudo do vento e o som arrastado do couro
roçando na rocha. E então Mya estava ali, tomando-a gentilmente
pelo braço.
- Mantenha os olhos fechados, se preferir. Largue a corda agora. O
Branquinho tomará conta de si próprio. Muito bem, minha senhora.
Eu a levo, é fácil, a senhora verá. Dê agora um passo. Isso mesmo,
mexa o pé, faça-o deslizar em frente. Vê? Agora o outro. É fácil.
Poderia atravessar correndo. Outro, vamos. Sim - e assim, pé ante pé,
passo a passo, a bastarda levou Catelyn a atravessar, cega e
tremendo, enquanto o macho branco seguia plácidamente atrás delas.
O castelo intermédio chamado Céu não era mais que um muro alto
de pedra solta em forma de crescente, erguido contra a vertente da
montanha, mas nem mesmo as torres sem topo de Valíria teriam
parecido mais belas a Catelyn Stark. Ali começava finalmente a neve;
as pedras desgastadas de Céu estavam cobertas de geada, e longos
pingentes de gelo pendiam das encostas mais acima.
A alvorada rompia no leste quando Mya Stone gritou um olá aos
guardas, e os portões se abriram para deixá-las entrar. Dentro das
muralhas havia apenas uma série de rampas e uma grande confusão
de rochedos e pedregulhos de todos os tamanhos. Não havia dúvida
de que seria a coisa mais fácil do mundo começar ali uma avalanche.
Uma gruta abria-se na face da rocha à frente delas.
- Os estábulos e as casernas ficam ali - disse Mya. - A última parte