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conversa sobre um palácio com duzentos quartos e portas de prata

maciça. O "palácio" era um cavernoso salão de testas feito de

madeira, cujas paredes rudemente talhadas se elevavam a mais de

dez metros de altura, com um teto de seda cosida, uma vasta tenda

ondulada que podia ser montada para afastar as raras chuvas, ou

desmontada para acolher o céu sem fim. Em torno do salão havia

grandes pátios para cavalos, cheios de capim, delimitados por sebes

altas, covas para fogueiras e centenas de casas redondas de terra que

se projetavam do chão como colinas em miniatura, cobertas de hera.

Um pequeno exército de escravos adiantara-se à coluna para realizar

os preparativos para a chegada de Khal Drogo. Cada guerreiro que

saltasse da sela tirava do cinto o arakb e o entregava a um escravo

que se encontrava à espera, fazendo o mesmo com as demais armas

que transportava. Nem o próprio Khal Drogo estava isento daquela

obrigação. Sor Jorah explicara que em Vaes Dothrak era proibido

transportar uma lâmina ou derramar o sangue de um homem livre.

Até khalasares em guerra punham de lado suas divergências e

partilhavam a comida e a bebida à vista da Mãe das Montanhas.

Naquele lugar, segundo o que as feiticeiras do dosh khaleen tinham

decretado, todos os dothrakis eram um só sangue, um só khalasar,

uma só manada.

Cohollo aproximou-se de Dany quando Irri e Jhiqui a ajudavam a

descer de sua prata. Era o mais velho dos três companheiros de

sangue de Drogo, um homem atarracado e calvo, com um nariz

torcido e a boca cheia de dentes partidos, estilhaçados por uma clava

vinte anos antes, quando salvara o jovem khalakka de mercenários

que esperavam vende do aos inimigos do pai. Sua vida ficara ligada à

de Drogo no dia em que o senhor esposo de Dany nascera.

Todos os khals tinham os seus companheiros de sangue. A princípio

Dany os via como uma espécie de Guarda Real Dothraki, sob o

juramento de proteger seu senhor, mas eram mais que isso. Jhiqui

ensinaradhe que o companheiro de sangue era mais que um guarda;

eram os irmãos do khal, suas sombras, os mais ferozes de seus

amigos. "Sangue do meu sangue", era como Drogo lhes chamava, e

assim era; partilhavam uma só vida. As antigas tradições dos

senhores dos cavalos exigiam que quando o khal morresse seus

companheiros de sangue morressem com ele, para cavalgar a seu

lado nas terras da noite. Se o khal morresse pelas mãos de algum

inimigo, viveriam apenas o suficiente para vingá-lo, e então o

seguiriam alegremente para a sepultura. Jhiqui dizia que, em alguns

khalasares, os companheiros de sangue partilhavam o vinho do khal,

sua tenda e até suas esposas, embora nunca os seus cavalos. A

montaria de um homem era apenas sua.

Daenerys sentia-se feliz por Khal Drogo não aderir a esses costumes

antigos. Não teria gostado de ser partilhada. E conquanto o velho

Cohollo a tratasse com bastante gentileza, os outros a assustavam;

Haggo, enorme e silencioso, fitava-a com frequência com um ar

ameaçador, como se tivesse se esquecido de quem ela era, e Qotho

tinha uns olhos cruéis e mãos rápidas que gostavam de machucar.

Deixava nódoas negras na suave pele branca de Doreah sempre que a

tocava, e por vezes deixava Irri soluçando na noite. Até seus cavalos

pareciam temê-lo.

No entanto, estavam ligados a Drogo para a vida e para a morte, e

Daenerys não tinha alternativa senão aceitá-los. E por vezes dava por

si desejando que o pai tivesse sido protegido por homens assim. Nas

canções, os cavaleiros brancos da Guarda Real eram sempre nobres,

valentes e leais, mas o Rei Aerys tinha sido assassinado por um deles,

o rapaz bonito a quem chamavam agora Regicida, e um segundo, Sor

Barristan, o Ousado, passara para o lado do Usurpador. Gostaria de

saber se nos Sete Reinos todos os homens eram assim tão falsos.

Quando seu filho ocupasse o Trono de Ferro, iria assegurar-se de

que teria os seus próprios companheiros de sangue a fim de protegê-

lo contra a traição na Guarda Real,

- Khaleesi - disse-lhe Cohollo, em dothraki. - Drogo, sangue do meu

sangue, ordena-me que lhe diga que ele tem de subir esta noite a

Mãe das Montanhas, a fim de sacrificar aos deuses pelo seu regresso

em segurança.

Dany sabia que só se permitia aos homens pôr o pé na Mãe. Os

companheiros de sangue do khal iriam com ele, e regressariam na

alvorada.

- Diz ao meu sol-e-estrelas que sonho com ele e espero ansiosa seu

regresso - ela respondeu, agradecida. Dany ia se cansando mais

facilmente à medida que a criança crescia dentro de si; a verdade era

que uma noite de descanso seria muito bem-vinda. A gravidez só

parecia ter inflamado o desejo de Drogo por ela, e nos últimos

tempos seus abraços a deixavam exausta.

Doreah a levou para a colina oca que tinha sido preparada para ela e

para o khal Lá dentro fazia frio e estava escuro, como numa tenda

feita de terra.

- Jhiqui, um banho, por favor - ordenou, para lavar da pele a poeira

da viagem e encharcar os ossos cansados. Era agradável saber que

ficariam ali por algum tempo, que não precisaria montar sua prata

quando a manhã chegasse.

A água escaldava, tal como ela gostava.

- Darei esta noite os presentes ao meu irmão - decidiu, enquanto

Jhiqui lhe lavava o cabelo. - Ele deve parecer um rei na cidade

sagrada. Doreah, corra à sua procura e o convide para jantar comigo

- Viserys era mais simpático com a lysena do que com suas aias

dothrakis, talvez porque

Magíster Illyrio o deixara dormir com ela em Pentos, - Irri, vá ao

bazar e compre frutas e carne. Qualquer coisa, menos carne de

cavalo.

- Cavalo é melhor - Irri retrucou. - Cavalo torna um homem mais

forte.

- Viserys detesta carne de cavalo.

- Como quiser, Khaleesi.

Regressou com um pernil de carneiro e um cesto de frutas e

legumes. Jhiqui assou a carne tom ervamel e vagem-de-fogo, untando-

a com mel enquanto assava; e havia melões, romãs e ameixas, e uma

estranha fruta oriental que Dany não conhecia. Enquanto as aias

preparavam a refeição, Dany desempacotou a roupa que tinha

mandado fazer sob medida para o irmão: uma túnica e calções de

fresco linho branco, sandálias de couro atadas no joelho, um cinto

com medalhão de bronze, um colete de couro pintado com dragões

que exalavam fogo. Esperava que os dothrakis o respeitassem mais

caso se parecesse menos com um pedinte, e talvez a perdoasse por

tê-lo envergonhado naquele dia no campo. Afinal de contas, ainda era

o seu rei e seu irmão. Eram ambos sangue do dragão.

Estava preparando o último dos presentes, um manto de sedareia,

verde como a mata, com um debrum cinza-claro que realçaria o

prateado de seu cabelo, quando Viserys chegou, arrastando Doreah

pelo braço. O olho da mulher estava vermelho onde ele lhe batera.

- Como se atreve a enviar esta rameira para me dar ordens? - disse e

atirou rudemente a aia ao tapete.

A ira apanhou Dany completamente de surpresa.