- Só quis.. Doreah, o que você lhe disse?
- Khaleesi, mil desculpas, perdoe-me. Fui falar com ele, como me
pediu, e lhe disse que a senhora mandou que à senhora se juntasse
para o jantar,
- Ninguém manda no dragão - rosnou Viserys. - Eu sou o seu rei!
Devia ter lhe devolvido a cabeça dela!
A jovem lysena vacilou, mas Dany a acalmou com um toque.
- Não tenha medo, ele não te fará mal. Querido irmão, por favor,
perdoe, a moça se confundiu nas palavras, eu lhe disse que pedisse a
você que se juntasse a mim para o jantar, se isso fosse do agrado de
Vossa Graça - pegou-o pela mão e o fez atravessar o quarto. - Olhe.
Isto é para você - Viserys franziu as sobrancelhas, cheio de suspeita.
- Que é tudo isso?
- Roupas novas. Mandei fazer para você - Dany sorriu timidamente.
Ele a olhou e escarneceu.
- Trapos dothrakis. Agora se atreve a me vestir?
- Por favor... Ficará mais fresco e confortável, e pensei... talvez, que,
se se vestisse como eles, os dothrakis... - Dany não sabia como dizer
o que pretendia sem acordar o dragão.
- A seguir há de querer entrançar meu cabelo.
- Eu nunca... - por que ele era sempre tão cruel? Ela só queria ajudar.
- Não tem direito a uma trança, ainda não obteve nenhuma vitória.
Foi a coisa errada a dizer. A fúria brilhou nos olhos lilases do irmão,
mas ele não se atreveu a bater nela com as criadas observando e os
guerreiros do seu khas à porta. Viserys apanhou o manto e o
cheirou.
- Isto fede a estrume. Talvez o use como coberta para o cavalo.
- Mandei que Doreah o cosesse especialmente para você - ela disse,
ferida. - São roupas dignas de um khal
- Eu sou o Senhor dos Sete Reinos, não um selvagem manchado pelo
mato e com campainhas no cabelo - Viserys gritou e agarrou o braço
da irmã, - Esquece-se de quem você é, sua puta. Acha que aquele
barrigudo te protegerá se acordar o dragão?
Os dedos dele enterraram-se dolorosamente em seu braço, e por um
instante Dany sentiu-se de novo criança, vacilando perante sua raiva.
Estendeu a outra mão e agarrou a primeira coisa que tocou, o cinto
que esperara lhe oferecer, uma pesada corrente de medalhões
ornamentados de bronze. Brandiu-o com toda sua força.
Atingiu-o em cheio no rosto. Viserys a largou. Sangue correu de sua
bochecha, onde a saliência de um dos medalhões a cortou.
- É você quem se esquece de quem é - ela disse. - Não aprendeu nada
naquele dia no campo? Saia daqui imediatamente, antes que eu
chame meu khas para te arrastar para a rua, E reze para que Khal
Drogo não ouça falar disto, porque, se ouvir, lhe abrirá a barriga e
lhe dará para comer suas próprias entranhas.
Viserys pôs-se em pé atabalhoadamente.
- Quando ganhar o meu reino, lamentará este dia, puta - e saiu,
agarrado ao rosto ferido, deixando os presentes para trás.
Gotas de seu sangue tinham borrifado o belo manto de sedareia.
Dany encostou o suave tecido na face e sentou-se de pernas cruzadas
sobre as esteiras de dormir.
- Seu jantar está pronto, Khaleesi -Jhiqui anunciou.
- Não tenho fome - disse Dany com voz triste. Ficara subitamente
muito cansada. - Divida a comida entre vocês, e envie alguma a Sor
Jorah, por favor - após um momento, acrescentou: - Por favor,
alguém me traga um dos ovos de dragão,
Irri foi buscar o ovo com a casca de um profundo tom verde, que
mostrava salpicos de bronze entre as escamas quando o virava nas
pequenas mãos. Dany enrolou-se de lado, puxando o manto de
sedareia sobre o corpo e aninhando o ovo no espaço entre a barriga
inchada e os pequenos e tenros seios. Gostava de pegar neles. Eram
tão belos, e, por vezes, o simples fato de estar junto deles a fazia
sentir-se mais forte, mais corajosa, como se de alguma forma
retirasse força dos dragões de pedra encerrados lá dentro.
Estava ali deitada, agarrada ao ovo, quando sentiu o bebê mover-se
na barriga... como se estivesse estendendo uma mão, irmão para
irmão, sangue para sangue.
- Você é o dragão - segredou Dany para o filho -, o dragão
verdadeiro. Eu sei. Eu sei - sorriu, e adormeceu sonhando com a
terra natal.
Bran
Caía uma neve ligeira. Bran conseguia sentir os flocos derretendo em
seu rosto quando tocavam sua pele como a mais leve das chuvas.
Endireitou-se em cima do cavalo, observando a porta levadiça ser
içada. Esforçando-se o máximo possível para permanecer calmo, o
coração palpitava-lhe no peito.
- Estamos prontos? - Robb perguntou.
Bran acenou, tentando não mostrar o medo que sentia. Não estivera
fora de Winterfell desde a queda, mas estava determinado a sair com
tanto orgulho como qualquer cavaleiro.
- Então vamos - Robb encostou os calcanhares no seu grande
castrado cinzento e branco, e o cavalo avançou trotando sob a porta
levadiça.
- Vai - sussurrou Bran ao seu cavalo. Tocou-lhe levemente o pescoço
e a pequena potra castanha avançou. Bran a chamara Dançarina.
Tinha dois anos, e Joseth dizia que era mais inteligente do que um
cavalo tinha direito de ser. Tinham-lhe dado um treinamento especial
para responder às rédeas, à voz e ao toque. Até aquele momento,
Bran só a montara no pátio. A princípio, Joseth ou Hodor a puxavam
pela mão, enquanto Bran se sentava em seu dorso amarrado à
grande sela que o Duende tinha desenhado para ele, mas na última
quinzena montara-a sozinho, fazendo-a trotar, às voltas, tornando-se
mais ousado a cada circuito.
Passaram sob a porta levadiça, sobre a ponte levadiça e através das
muralhas exteriores. Verão e Vento Cinzento vinham aos saltos ao
lado deles, farejando o vento. Logo atrás vinha Theon Greyjoy, com
seu arco e uma aljava cheia de setas de ponta larga; segundo lhes
dissera, tinha em mente abater um veado, Era seguido por quatro
guardas revestidos de cota de malha na cabeça e no tronco, e por
Joseth, um cavalariço magro como um espeto que Robb nomeara
mestre dos cavalos enquanto Hullen estava longe. Meistre Luwin
ocupava a retaguarda, montado num burro, Bran teria preferido que
ele e Robb tivessem saído sozinhos, só os dois, mas Hal Mollen nem
quisera ouvir falar da ideia, e Meistre Luwin o apoiara. Se Bran caísse
do cavalo ou se ferisse, o meistre estava determinado a estar junto
dele.
A porta do castelo ficava a praça do mercado, cujas barracas de
madeira se encontravam agora desertas. Avançaram pelas ruas
lamacentas da aldeia, passando por fileiras de pequenas casas bem-
arranjadas feitas de troncos e pedra nua. Menos de uma em cinco
estava ocupada, com finas linhas de fumaça enrolando-se sobre suas
chaminés. As outras se encheriam, uma a uma, à medida que fosse
ficando mais frio. Quando a neve caísse e os ventos gelados uivassem
do norte, dizia a Velha Ama, os agricultores deixariam seus campos
congelados e fortificações distantes, carregariam suas carroças e
então a Vila de Inverno ganharia vida. Bran nunca o vira, mas
Meistre Luwin dizia que esse dia se aproximava. O fim do longo
verão estava próximo. O inverno está para chegar.