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Bran estremeceu.

- Gostaria que nossa mãe estivesse de volta - disse, com ar infeliz,

Olhou em volta à procura de Meistre Luwin; via-se o seu burro

muito ao longe, trotando sobre uma colina. - Meistre Luwin também

diz para chamar os vassalos?

- O meistre é medroso como uma velha - Theon interveio.

- Nosso pai sempre escutou seus conselhos - recordou Bran ao

irmão. - E a mãe também.

- Eu o escuto - insistiu Robb. - Eu escuto toda a gente.

A alegria que Bran sentira com a cavalgada tinha desaparecido,

derretida como os flocos de neve em seu rosto. Não muito tempo

antes, a ideia de Robb chamar os vassalos e partir para a guerra o

teria enchido de excitação, mas agora sentia apenas terror.

- Podemos regressar? - perguntou. - Sinto frio.

Robb olhou em volta.

- Temos de encontrar os lobos. Pode continuar um pouco mais?

- Posso continuar tanto como você. - Meistre Luwin avisara-o de que

devia montar durante pouco tempo, temendo assaduras provocadas

pela sela, mas Bran não admitiria sua fraqueza perante o irmão.

Estava farto do modo como todos andavam sempre à sua volta,

perguntando como se sentia.

- Vamos então à caça dos caçadores - disse Robb. Lado a lado,

incitaram as montarias a sair da Estrada do Rei e entrar na Mata de

Lobos. Theon deixou-se ficar para trás e os seguiu muito depois,

conversando e gracejando com os guardas.

Estava agradável sob as árvores. Bran manteve Dançarina trotando

devagar, segurando as rédeas e olhando em redor enquanto

avançavam. Conhecia aquela floresta, mas tinha estado tanto tempo

confinado em Winterfell que era como se a estivesse vendo pela

primeira vez. Os cheiros enchiam-lhe as narinas; o cheiro forte,

penetrante e fresco das agulhas de pinheiro, o odor de folhas úmidas

apodrecendo na terra, os vestígios do cheiro animal de almíscar e dos

fogos das cozinhas distantes. Viu de relance um esquilo negro que se

movia entre os ramos cobertos de neve de um carvalho e parou para

estudar a teia prateada de uma aranha imperatriz.

Theon e os outros ficaram cada vez mais para trás, até que Bran

deixou de conseguir ouvir suas vozes. De longe, chegou-lhe o tênue

som de águas correntes. Foi ficando mais alto até chegarem ao

córrego. Lágrimas arderam-lhe os olhos.

- Bran? - perguntou Robb. - O que aconteceu?

Bran balançou a cabeça.

- Estava só me lembrando - disse ele. - Jory nos trouxe uma vez aqui

para pescar trutas. Você, eu e Jon. Lembra?

- Lembro - disse Robb, com a voz baixa e triste.

- Eu não apanhei nada - disse Bran -, mas Jon me deu o peixe dele

no caminho de volta a Winterfell. Vamos voltar a ver Jon?

- Vimos Tio Benjen quando o rei veio de visita - salientou Robb. - Jon

também nos visitará, você vai ver.

O córrego corria cheio e rápido. Robb desmontou e levou seu

castrado para atravessar o lado mais raso. Na parte mais profunda da

travessia, a água chegava-lhe até o meio das coxas. Amarrou o cavalo

a uma árvore do outro lado e voltou para buscar Bran e Dançarina.

A corrente estrumava em torno das rochas e das pernas, e Bran

conseguia sentir os salpicos no rosto enquanto Robb o levava pelo

riacho. Isso o fez sorrir. Por um momento voltou a sentir-se forte e

inteiro. Olhou para as árvores e sonhou subi-las até as copas, com

toda a floresta estendida abaixo.

Tinham já chegado ao outro lado do córrego quando ouviram o uivo,

um longo lamento que se erguia por entre as árvores como um

vento frio. Bran ergueu a cabeça para escutar.

- Verão - disse. E assim que falou, uma segunda voz juntou-se à

primeira.

- Mataram qualquer coisa - disse Robb enquanto voltava a montar. -

É melhor que eu vá buscá-los. Espera aqui, Theon e os outros devem

estar chegando.

- Quero ir com você - disse Bran.

- Eu os encontro mais depressa sozinho - Robb esporeou seu

castrado e desapareceu por entre as árvores.

Depois de o irmão partir, as árvores pareceram apertar-se ao redor

de Bran. A neve caía agora tom mais força. Onde tocava o solo,

derretia, mas, por todo lado, pedras, raízes e ramos estavam cobertos

por um fino manto branco. Enquanto esperava, estava consciente de

como se sentia desconfortável. Não sentia as pernas, que pendiam,

inúteis, nos estribos, mas a presilha que lhe rodeava o peito estava

apertada e provocava-lhe escoriações, e a neve que derretia tinha-se

infiltrado nas luvas e gelava-lhe as mãos. Perguntou-se por que

Theon, Meistre Luwin, Joseth e os outros demoravam.

Quando ouviu o restolhar de folhas, Bran usou as rédeas para fazer

Dançarina virar-se, esperando ver os amigos, mas os homens

esfarrapados que saíram para a margem do córrego eram--ihe

estranhos.

- Bons dias para os senhores - disse ele nervosamente. Bastou uma

olhadela para Bran compreender que os homens não eram

lenhadores nem agricultores. Ficou de súbito consciente da riqueza

das roupas que envergava. Tinha uma capa nova, de lã cinza-escuro

com botões de prata, e um pesado alfinete de prata segurava nos

ombros o manto forrado de peles. As botas e luvas também eram

forradas de peles.

- Então tá sozinho, hã? - disse o maior dos homens, um careca de

semblante rude, com a pele queimada pelo vento. - Perdido na Mata

de Lobos, pobre rapaz.

- Não estou perdido - Bran não gostava da maneira como os

estranhos o olhavam. Contou quatro, mas, quando virou a cabeça,

viu outros dois atrás dele. - Meu irmão se afastou há um momento e

minha guarda estará aqui em breve.

- Tua guarda, hã? - disse um segundo homem. Uma barba cinzenta

cobria seu rosto magro. - E que é que ela guarda, senhorzinho? Isso

que vejo no seu manto é um alfinete de prata?

- Bonito - disse uma voz de mulher. Pouco se parecia com uma

mulher; era alta e esguia, com a mesma expressão dura dos outros, e

tinha os cabelos escondidos por baixo de um meio elmo em forma de

tigela. A lança que segurava era feita de dois metros e meio de

carvalho negro, com uma ponta de aço enferrujado.

- Vamos lá ver - disse o grande homem careca.

Bran observou-o ansiosamente. A roupa do homem estava imunda,

quase desfeita em pedaços, remendada aqui de marrom, ali de azul e

acolá de verde-escuro, e por todo o lado desbotada até ficar cinzenta,

mas antes aquele manto podia ter sido negro. Percebeu, com um

súbito sobressalto, que o homem atarracado e grisalho também

usava farrapos negros. De repente, Bran lembrou-se do desertor que

seu pai decapitara no dia em que tinham encontrado os filhotes de

lobo; esse homem também usava negro, e seu pai dissera que era um

desertor da Patrulha da Noite. Ninguém pode ser mais perigoso,

lembrou-se de ter ouvido Lorde Eddard dizer. O desertor sabe que

sua vida está perdida se for capturado, e por isso não vacilará

perante nenhum crime, por mais vil ou cruel que seja.

- O alfinete, rapaz - disse o homem grande. E estendeu a mão.

- Vamos também ficar com o cavalo - disse uma mulher menor que

Robb, com um rosto largo e achatado e cabelos lisos e amarelos. -