Desce, e depressa - uma faca, de gume irregular como uma serra,
deslizou-lhe para a mão de dentro da manga.
- Não - proferiu Bran. - Eu não posso...
O homem grande agarrou-lhe as rédeas antes que Bran pudesse
pensar em fazer Dançarina rodopiar e galopar para longe.
- Pode sim, senhorzinho.. e é o que vai fazer, se souber o que é bom
para você.
- Stiv, olha como ele está atado - a mulher alta apontou com a lança.
- Isso que ele diz pode ser verdade.
- Com que, então, presilhas, hã? - disse Stiv. Tirou um punhal de
uma bainha que trazia ao cinto. - Há maneiras de lidar com
presilhas.
- Você é alguma espécie de aleijado? - perguntou a mulher baixa.
Bran inflamou-se.
- Sou Brandon Stark de Winterfell, e é melhor que largue meu cavalo,
ou farei com que sejam todos mortos.
O homem magro de barba cinzenta riu.
- O rapaz é um Stark, não há dúvida. Só um Stark seria
suficientemente pateta para fazer ameaças onde homens mais
inteligentes suplicariam.
- Corte-lhe o pintinho e o enfie na boca - sugeriu a mulher baixa. -
Isto deve calá-lo.
- É tão estúpida como feia, Hali - disse a mulher alta. - O rapaz não
serve de nada morto; agora, vivo... malditos sejam os deuses, pensem
no que o Mance daria para ter como refém o próprio sangue de
Benjen Stark!
- Que o Mance se dane - praguejou o homem grande. - Quer voltar
para lá, Osha? Mais parva é você. Acha que os caminhantes brancos
se importam se tem um refém? - virou-se para Bran e golpeou a
presilha que lhe rodeava a coxa. O couro rompeu-se com um suspiro.
O golpe foi rápido e descuidado, cortando profundamente. Olhando
para baixo, Bran viu de relance a pele clara onde a lã dos calções se
rompera. Então, o sangue começou a fluir. Observou a mancha
vermelha se espalhando, sentindo-se tonto, curiosamente distante;
não tinha havido dor, nem mesmo uma ligeira sensação de tato. O
homem grande grunhiu de surpresa.
- Deponham as armas agora e lhes prometo uma morte rápida e
indolor - gritou Robb.
Bran ergueu os olhos com uma esperança desesperada, e ali estava
ele. A força das palavras era diminuída pela maneira como a voz
soava quebrada de tensão. Estava montado, com a carcaça sangrenta
de um alce depositada sobre a garupa do cavalo, e com a espada na
mão enluvada.
- O irmão - disse o homem da barba cinzenta.
- É um tipo feroz, ah, se é - troçou a mulher baixa, aquela a quem
chamavam Hali. - Pretende lutar com a gente, rapaz?
- Não seja tonto, jovem. É um contra seis - a mulher alta, Osha,
baixou a lança. - Salte do cavalo e atire a espada ao chão.
Agradeceremos delicadamente pela montaria e pelo veado, e você e
seu irmão podem seguir caminho.
Robb assobiou. Ouviram o tênue som de patas suaves sobre folhas
úmidas. A vegetação rasteira abriu-se, ramos baixos deixaram cair sua
neve acumulada, e Vento Cinzento e Verão emergiram do verde.
Verão farejou o ar e rosnou.
- Lobos - arfou Hali.
- Lobos gigantes - disse Bran. Ainda com metade do tamanho de
adultos, eram tão grandes como qualquer lobo que já tivesse visto,
mas era fácil detectar as diferenças, caso se soubesse em me reparar.
Meistre Luwin e Farlen, o mestre dos canis, lhe tinham ensinado. Um
lobo gigante tinha a cabeça maior e patas mais compridas em
proporção com o corpo, e o focinho era marcadamente mais estreito
e pronunciado. Havia algo neles de lúgubre e terrível, ali parados por
entre i neve que caía lentamente. Sangue fresco pintalgava o focinho
de Vento Cinzento.
- Cães - disse o homem grande e careca com desprezo. - E houve
quem me dissesse que não há nada como um manto de pele de lobo
para aquecer um homem à noite - fez um gesto brusco. —
Apanhem-nos.
Robb gritou "Winterfell!" e esporeou o cavalo. O castrado mergulhou
pela margem do córrego ao mesmo tempo em que os homens
esfarrapados se aproximavam. Um homem com um machado correu
contra ele, gritando e sem prudência. A espada de Robb o apanhou
em cheio no rosto com um nauseante crunch e um borrifo de sangue
brilhante. O homem de rosto magro e barba cinzenta estendeu a
mão para agarrar as rédeas, e conseguiu, durante meio segundo...,
mas então Vento Cinzento saltou sobre ele, desequilibrando-o. Caiu
de costas no córrego com um chap e um grito, brandindo
loucamente a faca quando a cabeça submergiu. O lobo gigante
mergulhou atrás dele, e a água branca tornou-se vermelha onde os
dois desapareceram.
Robb e Osha trocavam golpes no meio do córrego. A longa lança
dela era uma serpente de cabeça de aço que atacava o peito dele,
uma, duas, três vezes, mas Robb parava cada estocada com a espada,
desviando a ponta para o lado. A quarta ou quinta estocada, a
mulher alta fez um movimento largo demais e perdeu o equilíbrio, só
por um segundo. Robb investiu, derrubando-a.
A pouca distância, Verão surgiu como um relâmpago e mordeu Hali.
A faca caiu-lhe sobre as costas. Verão esquivou-se, rosnando, e voltou
a atacar. Dessa vez suas mandíbulas fecharam-se em volta da barriga
da perna da pequena mulher. Segurando a faca com ambas as mãos,
ela tentou apunhalá-lo, mas o lobo selvagem pareceu pressentir a
lâmina. Libertou-a por um instante, com a boca cheia de couro,
tecido e carne ensanguentada. Quando Hali tropeçou e caiu, atacou-a
de novo, atirando-a para trás, rasgando sua barriga com os dentes,
O sexto homem fugiu da carnificina..., mas não foi longe. Enquanto
subia pela margem mais distante do córrego, Vento Cinzento
emergiu da água, pingando. Sacudiu-se e saltou sobre o homem que
fugia, abocanhando-o com uma única dentada e atirando-se à sua
garganta quando o homem deslizou, aos gritos, de volta para a água.
E então restou apenas o homem grande, Stiv. Golpeou a presilha de
peito de Bran, agarrou-lhe o braço e puxou. De repente, Bran caiu.
Estatelou-se no chão, com as pernas enlaçadas debaixo do corpo e
um pé dentro do córrego. Não conseguia sentir o frio da água, mas
sentiu o aço quando Stiv lhe encostou o punhal na garganta.
- Afaste-se - preveniu o homem -, ou juro que abro a traquéia do
rapaz.
Robb puxou as rédeas do cavalo, respirando com força. A fúria
desapareceu dos seus olhos e o braço que segurava a espada caiu.
Nesse momento, Bran viu tudo. Verão estava atacando ferozmente
Hali, puxando reluzentes serpentes azuis de sua barriga. Os olhos
dela estavam muito abertos, mas não se moviam. Bran não sabia
dizer se a mulher estava viva ou morta. O atarracado homem
grisalho e o do machado jaziam, imóveis, mas Osha estava de joelhos,
rastejando em direção à sua lança caída. Vento Cinzento caminhou
até ela, com o pêlo encharcado, pingando.
- Chame-o! - gritou o homem grande. - Chame os dois ou o aleijado
morre agora mesmo!
- Vento Cinzento, Verão, aqui - disse Robb.
Os lobos gigantes pararam, viraram a cabeça. Vento Cinzento saltou
para junto de Robb. Verão ficou onde estava, com os olhos fitos em
Bran e no homem a seu lado. Rosnou. Tinha o focinho molhado e