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tão previsível quanto feio, mas Tyrion tinha fome. Estendeu a mão

para o prato.

Mord o puxou para longe, sorrindo.

- 'Tá aqui - disse, segurando-o fora do alcance de Tyrion.

O anão pôs-se rigidamente em pé, sentindo dores em todas as

articulações.

- Temos de jogar o mesmo jogo idiota a cada refeição? - tentou de

novo apanhar os feijões. Mord afastou-se, arrastando os pés,

mostrando os dentes podres.

- 'Tá aqui, homem anão - esticou o braço sobre a borda onde

terminava a cela e começava o céu. - Não quer comer? Toma. Ande

para pegar.

Os braços de Tyrion eram curtos demais para alcançar o prato, e não

ia se aproximar tanto assim da borda. Bastaria um empurrão rápido

da pesada barriga branca de Mord, e ele acabaria seus dias como

uma repugnante nódoa vermelha nas pedras de Céu, como

acontecera com tantos outros prisioneiros do Ninho da Águia ao

longo dos tempos.

- Pensando bem, não tenho fome - declarou, retirando-se para o

canto da cela.

Mord grunhiu e abriu os dedos grossos. O vento capturou o prato,

virando-o ao contrário enquanto caía. Um punhado de feijões

borrifou os dois enquanto a comida tombava para longe dos seus

olhos. O carcereiro desatou a rir, fazendo a barriga tremer como

uma taça de pudim.

Tyrion sentiu um súbito ataque de raiva.

- Filho duma mula lazarenta - cuspiu. - Espero que morra de

caganeira.

Por aquilo Mord lhe deu um pontapé ao encaminhar-se para a saída,

enterrando com força a bota de ponta de aço nas costelas de Tyrion.

- Retiro o que disse! - arquejou, enquanto se retorcia na palha. - Hei

de matá-lo eu mesmo, juro! - a pesada porta reforçada de ferro

fechou-se com estrondo. Tyrion ouviu o ruído de chaves.

Para um homem pequeno, tinha sido amaldiçoado com uma boca

perigosamente grande, refletiu enquanto rastejava de volta ao canto

daquilo que os Arryn chamavam ridiculamente masmorras.

Aconchegou-se sob um cobertor fino que era sua única roupa de

cama, olhando um deslumbrante céu azul sem uma nuvem e

montanhas distantes que se pareciam prolongar até o infinito,

desejando ainda possuir o manto de pele de gato-das-sombras que

ganhara de Marillion nos dados depois de o cantor tê-lo roubado do

corpo daquele chefe salteador. A pele cheirava a sangue e mofo, mas

era quente e grossa. Mord ficara com ela no momento em que lhe

pusera os olhos em cima.

O vento puxava-lhe o cobertor com rajadas aguçadas como garras. A

cela era miseravelmente pequena, até para um anão. A menos de um

metro e meio de distância, onde deveria existir uma parede, onde

uma parede estaria em uma masmorra de verdade, o chão terminava

e o céu começava. Não tinha falta de ar fresco e luz do sol, e da lua e

das estrelas à noite, mas Tyrion teria trocado tudo isso num instante

pelo mais úmido e sombrio fosso nas entranhas de Rochedo Casterly,

- Você vai voar - garantira-lhe Mord, quando o enfiara na cela. -

Vinte dias, trinta, se calhar, cinquenta. Depois vai voar.

Os Arryn mantinham a única masmorra no reino de onde os

prisioneiros eram livres para fugir se bem entendessem. Naquele

primeiro dia, depois de levar horas cobrindo-se de coragem, Tyrion

deitara-se de barriga para baixo e rastejara até a borda para pôr a

cabeça para fora e espreitar para baixo. O Céu estava cento e oitenta

metros mais abaixo, sem nada, a não ser o ar para separá-lo do

castelo. Se esticasse o pescoço o máximo possível, conseguia ver

outras celas à direita, à esquerda e acima. Era uma abelha numa

colmeia de pedra, e alguém lhe arrancara as asas.

Fazia frio na cela, o vento uivava noite e dia e, pior que tudo o mais,

o chão era inclinado. Só um pouco, mas o suficiente. Tinha medo de

fechar os olhos, medo da possibilidade de rolar durante o sono e

acordar em total terror no momento em que deslizasse pela borda.

Pouco admirava que as celas abertas enlouquecessem os homens.

Que os deuses me.salvem, escrevera na parede um inquilino anterior

qualquer, usando algo que se parecia, de forma suspeita, com sangue,

o azul está chamando. A princípio Tyrion interrogou--se sobre quem

teria sido ele e o que lhe teria acontecido; mais tarde, decidiu que

preferia não saber.

Se ao menos tivesse calado a boca...

O maldito rapaz começara tudo, olhando-o de cima de um trono

esculpido em represeiro sob os estandartes da lua e do falcão da

Casa Arryn. Tinham olhado de cima para Tyrion Lannister ao longo

de toda a sua vida, mas era raro que quem o fizesse fosse um

menino remelento de seis anos que precisava enfiar grossas

almofadas debaixo das nádegas para se elevar à altura de um homem,

- Este é o homem mau? - perguntou o rapaz, agarrando-se à sua

boneca.

- É - respondeu a Senhora Lysa de seu trono menor, ao seu lado.

Vestia-se toda de azul e estava empoada e perfumada para os

pretendentes que lhe enchiam a corte.

- Ele é tão pequeno - observou o Senhor do Ninho da Águia, aos

risinhos.

- Este é Tyrion, o Duende, da Casa Lannister, que assassinou o

senhor seu pai - ela levantou a voz para que chegasse a todo o

comprimento do Alto Salão do Ninho da Águia, ressoando nas

paredes de um branco leitoso e nos estreitos pilares, para que todos

os homens pudessem ouvi-la. - Ele assassinou a Mão do Rei!

- Ah, e também o matei? - disse Tyrion, como um bobo.

Esta teria sido uma ótima ocasião para manter a boca fechada e a

cabeça inclinada. Agora compreendia isto; pelos sete infernos, agora

o compreendia. O Alto Salão dos Arryn era longo e austero, com

uma frieza sinistra nas paredes de mármore branco com veios azuis,

mas os rostos que o rodeavam eram de longe mais frios. O poder do

Rochedo Casterly estava distante, e não havia amigos dos Lannister

no Vale de Arryn. A submissão e o silêncio teriam sido suas melhores

defesas.

Mas o humor de Tyrion estava negro como a noite mais escura. Para

sua vergonha, fraquejara durante a última etapa de seu dia de subida

ao Ninho da Águia, e as pernas atrofiadas se tinham mostrado

incapazes de levá-lo mais alto. Bronn o transportara o resto do

caminho, e a humilhação despejara óleo nas chamas da sua ira.

- Parece que fui um tipinho bastante atarefado - disse com um

sarcasmo amargo. -Pergunto a mim mesmo onde teria arranjado

tempo para tratar de todos esses assassinatos e mortes.

Deveria ter se lembrado de com quem estava lidando. Lysa Arryn e

seu débil filho malsão não tinham ficado conhecidos na corte pelo

seu amor por frases espirituosas, especialmente quando lhes eram

dirigidas.

- Duende - Lysa disse friamente -, cuidado com essa língua trocista e

fale respeitosamente com meu filho, ou prometo que se arrependerá.

Lembre-se de onde está. Isto é o Ninho da Águia e estes ao seu redor

são os cavaleiros do Vale, homens leais que queriam bem a Jon

Arryn. Todos eles morreriam por mim.

- Senhora Arryn, se algum mal me acontecer, meu irmão Jaime ficará

feliz por se assegurar de que morram - no preciso momento em que