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cuspia as palavras, Tyrion soube que eram uma loucura.

- É capaz de voar, senhor de Lannister? - perguntou a Senhora Lysa.

- Um anão tem asas? Se não, mais sensato seria engolir a próxima

ameaça que lhe vier à cabeça.

- Não fiz ameaça nenhuma - ele respondeu. - Isso foi uma promessa.

Ao ouvir aquilo, o pequeno Lorde Robert pusera-se em pé de um

salto, tão perturbado que a boneca caíra ao chão.

- Não pode nos machucar - o menino gritou. - Ninguém pode nos

machucar aqui. Diga--lhe, mãe, diga-lhe que não pode nos machucar

aqui - o rapaz começara a estremecer.

- O Ninho da Águia é inexpugnável - declarou calmamente Lysa

Arryn. Puxou o filho para junto dela, rodeando-o com a segurança de

seus rechonchudos braços brancos. - O Duende está tentando nos

assustar, meu querido. Todos os Lannister são mentirosos. Ninguém

vai machucar meu lindo filho.

O inferno era que não havia dúvida de que a mulher tinha razão.

Depois de ver o que era preciso fazer para chegar até ali, Tyrion

podia imaginar como seria um cavaleiro tentando abrir caminho até

lá, lutando, revestido de armadura, enquanto pedras e setas choviam

sobre ele dos pontos altos e inimigos o enfrentavam a cada passo. A

palavra pesadelo nem começava a descrever a situação. Não

surpreendia que o Ninho da Águia nunca tivesse sido tomado,

Mas, mesmo assim, Tyrion foi incapaz de se calar.

- Inexpugnável, não - bradou -, meramente inconveniente.

O jovem Robert apontou para baixo, com a mão tremendo.

- Você é um mentiroso. Mãe, quero vê-lo voar - dois guardas vestidos

com mantos azuis-celeste agarraram Tyrion pelos braços, levantando-

o do chão.

Só os deuses sabiam o que poderia ter acontecido se não fosse

Catelyn Stark.

- Irmã - ela chamou de seu lugar abaixo dos tronos. - Peço que se

lembre que este homem é meu prisioneiro. Não o quero ferido.

Lysa Arryn olhou de relance e friamente para a irmã por um

momento, depois se ergueu e caminhou imponentemente na direção

de Tyrion, arrastando as longas saias atrás de si. Por um instante, o

anão temeu que ela lhe batesse, mas, em vez disso, ordenou que o

largassem. Os homens atiraram-no ao chão, as pernas fugiram-lhe e

Tyrion caiu.

Deve ter apresentado um belo espetáculo quando lutou para se pôr

de pé e a perna direita entrou em espasmos, atirando-o de novo ao

chão. Gargalhadas rebentaram em todo o Alto Salão dos Arryn.

- O hospedezinho de minha irmã está demasiado cansado para se

manter em pé - anunciou a Senhora Lysa. - Sor Vardis, leve-o para a

masmorra. Um descanso em uma de nossas celas abertas lhe fará

muito bem.

Os guardas o puxaram com brusquidão. Tyrion Lannister ficou

pendurado entre eles, lançando fracos pontapés, com o rosto

vermelho de vergonha.

- Eu me lembrarei disto - disse a todos quando o levaram.

E lembrava-se, por mais inútil que isso fosse,

A princípio consolou-se com a ideia de que seu encarceramento não

podia durar muito tempo. Lysa Arryn queria humilhá-lo, era tudo.

Voltaria para buscá-lo, e em breve. Se não o fizesse, então Catelyn

Stark desejaria interrogá-lo. Daquela vez dominaria melhor a língua.

Elas não se atreveriam a matá-lo sem mais nem menos; ainda era um

Lannister de Rochedo Casterly e se derramassem seu sangue, isso

significaria guerra. Pelo menos era o que dizia a si mesmo.

Agora já não tinha tanta certeza.

Talvez seus captores só pretendessem deixá-lo ali, apodrecendo, mas

temia não ter forças para apodrecer por muito tempo, A cada dia

que passava ficava um pouco mais fraco, e era só uma questão de

tempo até que os pontapés e golpes de Mord o ferissem seriamente,

partindo-se do princípio de que o carcereiro não o mataria antes de

fome. Mais algumas noites de frio e fome, e o azul também

começaria a chamar por ele.

Gostaria de saber o que estava acontecendo para lá das paredes (as

que havia) de sua cela. Lorde Tywin teria certamente enviado

patrulhas quando a notícia lhe chegara. Jaime poderia estar naquele

momento liderando uma tropa na travessia das Montanhas da Lua. .

a menos que em vez disso se dirigisse para o norte, contra

Winterfell. Será que alguém fora do Vale chegaria a suspeitar do

local para onde Catelyn Stark o levara? Gostaria de saber o que faria

Cersei quando soubesse. O rei podia ordenar sua libertação, mas

Robert daria ouvidos à mulher ou à Mão? Tyrion não tinha ilusões

quanto ao amor de Robert pela irmã.

Se Cersei usasse a cabeça, insistiria que o próprio rei julgasse Tyrion.

Até Ned Stark pouco podia objetar a isso sem pôr em causa a honra

do rei. E Tyrion, de bom grado, tentaria sua sorte num julgamento.

Fossem quais fossem os assassinatos que lhe atribuíam, os Stark não

tinham nenhuma prova, até onde ele soubesse. Que apresentassem

seu caso perante o Trono de Ferro e os senhores da terra. Seria o

fim deles. Se ao menos Cersei fosse suficientemente inteligente para

ver isso...

Tyrion Lannister suspirou. Sua irmã não era desprovida de certa

astúcia, mas o orgulho a cegava. Veria naquilo o insulto, mas não a

oportunidade. E Jaime era ainda pior, impetuoso, teimoso e de ira

fácil. Seu irmão nunca desataria um nó se pudesse abri-lo em dois a

golpes de espada.

Perguntava a si mesmo qual deles teria enviado o salteador para

silenciar o rapaz Stark, e se teriam de fato conspirado para matar Jon

Arryn. Se a antiga Mão foi assassinada, a coisa tinha sido feita com

habilidade e sutileza. Homens da idade dele andavam sempre

morrendo de doença súbita. Por outro lado, enviar um imbecil

qualquer com uma faca roubada para matar Brandon Stark

pareciadhe inacreditavelmente tosco. E, pensando melhor, não seria

isso peculiar?...

Tyrion estremeceu. Ora, aí estava uma suspeita sórdida. Talvez o

lobo gigante e o leão não fossem os únicos animais na floresta, e, se

isto fosse verdade, alguém o estava usando como boi de piranha.

Tyrion Lannister detestava ser usado.

Tinha de sair dali, e depressa. Suas chances de dominar Mord eram

baixas ou nulas, e ninguém se preparava para lhe fazer chegar cento

e oitenta metros de corda, portanto, teria de convencê-los a libertá-

lo. Sua boca o tinha metido naquela cela, bem podia tirá-lo de lá

também.

Tyrion pôs-se em pé, fazendo o possível para ignorar a inclinação do

chão, com seu tão sutil puxão para o abismo. Bateu na porta com o

punho.

- Mordi - gritou. - Carcereiro! Mord, preciso de você! - teve de

continuar durante uns bons dez minutos até ouvir passos. Tyrion

deu um passo para trás um instante antes de a porta se abrir com

estrondo.

- Você está fazendo barulho - grunhiu Mord, com sangue nos olhos.

Pendurada à sua mão carnuda estava uma correia de couro, larga e

grossa, enrolada no punho.

Nunca lhes mostre que tem medo, lembrou-se Tyrion.

- Gostaria de ser rico? - ele perguntou.

Mord bateu nele. Balançou a correia para trás com a mão,

preguiçosamente, mas o couro apanhou Tyrion na parte de cima do

braço. A força que trazia o fez cambalear, e a dor o fez ranger os