dentes.
- Boca não, homem anão - preveniu Mord.
- Ouro - disse Tyrion, imitando um sorriso. - O Rochedo Casterly
está cheio de ouro... ahhh... - daquela vez o golpe foi dado para a
frente, e Mord colocou mais força no balanço, fazendo o couro
estalar e saltar. Atingiu Tyrion nas costelas e o pôs de joelhos,
choramingando. Forçou-se a olhar para o carcereiro. - Tão rico como
os Lannister - arquejou, - É o que se diz, Mord..
Mord grunhiu. A correia assobiou pelo ar e acertou em cheio o rosto
de Tyrion. A dor foi tanta que ele nem se deu conta de ter caído,
mas, quando voltou a abrir os olhos, estava no chão da cela. O
ouvido ressoava e a boca estava cheia de sangue. Apalpou em busca
de um apoio para se erguer, e os dedos roçaram... coisa nenhuma.
Tyrion puxou a mão para trás tão depressa como se a tivesse
escaldado, e fez o possível para prender a respiração. Tinha caído
bem na borda, a centímetros do azul.
- Mais a dizer? - Mord segurou a correia entre os punhos e deu-lhe
um forte puxão, que o fez Tyrion saltar. O carcereiro riu.
Ele não vai me empurrar, disse Tyrion desesperadamente a si mesmo
enquanto se afastava da borda engatinhando. Catelyn Stark me quer
vivo, ele não se atreverá a me matar. Limpou o sangue dos lábios
com as costas da mão, sorriu e disse:
- Essa foi forte, Mord - o carcereiro o olhou de soslaio, desconfiando
de estar sendo escarnecido. - Podia dar bom uso a um homem forte
como você - a correia voou, mas desta vez Tyrion conseguiu
esquivar-se. Levou um golpe de raspão no ombro, nada mais. - Ouro
- repetiu, afastando-se sobre os pés e as mãos como um caranguejo -
, mais ouro do que verá aqui em toda a vida. O suficiente para
comprar terras, mulheres, cavalos.. Podia ser um senhor. Lorde Mord
- Tyrion reuniu ruidosamente um globo de sangue e muco e cuspiu-
o para o céu.
- Não há ouro - Mord respondeu.
Ele está ouvindo!, pensou Tyrion.
- Tiraram-me a bolsa quando me capturaram, mas o ouro ainda é
meu. Catelyn Stark pode tomar um homem prisioneiro, mas nunca
se rebaixaria a roubá-lo. Isso não seria honroso. Ajude-me, e todo o
ouro será seu - a correia de Mord saltou, mas foi um golpe hesitante,
isolado, lento e desdenhoso. Tyrion apanhou o couro e o manteve
preso à mão. - Não haverá risco para você. Tudo o que tem a fazer é
entregar uma mensagem.
O carcereiro libertou a tira de couro da mão de Tyrion.
- Mensagem - repetiu, como se nunca tivesse ouvido a palavra. A
carranca abria-lhe profundas fendas na testa.
- O senhor me ouviu. Basta que leve minhas palavras à sua senhora.
Diga-lhe.. - o quê? O que poderia levar Lysa Arryn a se mostrar
flexível? A inspiração chegou de súbito a Tyrion Lannister. - .. Diga-
lhe que desejo confessar meus crimes.
Mord ergueu o braço e Tyrion preparou-se para mais um golpe, mas
o carcereiro hesitou. A suspeita e a cobiça guerreavam nos seus
olhos. Desejava aquele ouro, mas temia um truque; seu aspecto era
de um homem que tinha sido frequentemente enganado.
- É mentira - resmungou em tom sombrio. - Homem anão me
engana.
- Posso pôr minha promessa por escrito - garantiu Tyrion.
Alguns iletrados sentiam desdém pela escrita; outros pareciam ter
por ela uma reverência supersticiosa, como se fosse algum tipo de
magia. Felizmente, Mord pertencia ao segundo tipo. O carcereiro
abaixou a correia.
- Escrever ouro. Muito ouro.
- Ah, muito ouro - assegurou-lhe Tyrion. - A bolsa é só um aperitivo,
meu amigo. Meu irmão usa uma armadura de folha de ouro - na
verdade, a armadura de Jaime era aço dourado, mas aquele imbecil
nunca saberia a diferença.
Mord passou os dedos pela correia, pensativo, mas por fim cedeu e
foi buscar papel e tinta. Depois da carta escrita, o carcereiro franziu
as sobrancelhas ao vê-la, desconfiado.
- Agora, vá entregar minha mensagem - Tyrion ordenou.
Estava tremendo no sono quando vieram buscá-lo naquela noite.
Mord abriu a porta, mas manteve-se em silêncio. Sor Vardis Egen
acordou Tyrion com a ponta da bota.
- Em pé, Duende. Minha senhora deseja vê-lo.
Tyrion esfregou o sono dos olhos e afivelou um sorriso que não
sentia.
- Sem dúvida que sim, mas o que o faz pensar que eu desejo vê-la?
Sor Vardis franziu as sobrancelhas. Tyrion lembrava-se bem dele, dos
anos que passara em Porto Real como capitão da guarda doméstica
da Mão. Uma face quadrada e simples, cabelos grisalhos, constituição
pesada e sem sombra de humor.
- Seus desejos não são da minha conta. Em pé, ou mandarei que o
carreguem.
Tyrion pôs-se desajeitadamente em pé.
- Uma noite fria - disse em tom casual -, e o Alto Salão tem tantas
correntes de ar. Não quero apanhar um resfriado. Mord, se me fizer
um favor, vá buscar o meu manto.
O carcereiro o olhou de soslaio, com uma expressão estúpida e
desconfiada.
- O meu manto - repetiu Tyrion. - A pele de gato-das-sombras que
tirou de mim para guardar em segurança. Você se lembra.
- Vá buscar o maldito manto - disse Sor Vardis.
Mord não se atreveu a resmungar. Lançou a Tyrion um olhar que
prometia uma retribuição futura, mas foi buscar o manto. Quando o
enrolou em torno do pescoço do prisioneiro, Tyrion sorriu.
- Muito obrigado. Pensarei em você sempre que o usar - atirou a
parte da frente da longa pele por sobre o ombro direito e sentiu-se
quente pela primeira vez em vários dias. - Mostre o caminho, Sor
Vardis.
O Alto Salão dos Arryn brilhava à luz de cinquenta archotes, que
ardiam em suportes presos às paredes. A Senhora Lysa trajava-se de
seda negra, com a lua e o falcão bordados com pérolas no peito.
Como não parecia ser do tipo que se juntaria à Patrulha da Noite,
Tyrion só conseguia imaginar que ela decidira que roupas fúnebres
eram um traje apropriado para uma confissão. Os longos cabelos
ruivos, presos numa trança elaborada, caíam-lhe sobre o ombro
esquerdo. O trono mais alto ao seu lado estava vazio; sem dúvida
que o pequeno Senhor do Ninho da Águia estava embalado no seu
sono. Pelo menos por isso Tyrion sentia-se grato.
Fez uma profunda reverência e demorou-se um momento passando
os olhos pelo salão. A Senhora Arryn convocara seus cavaleiros e
servidores para ouvir a confissão, tal como ele esperara. Viu o rosto
escarpado de Sor Brynden Tully e o abrupto de Lorde Nestor Royce.
Ao lado de Nestor estava um homem mais novo com ferozes suíças
negras que só podia ser seu herdeiro, Sor Aibar. Encontrava-se ali
representada a maior parte das principais Casas do Vale. Tyrion
notou em Sor Lyn Corbray, esguio como uma espada, Lorde Hunter,
com suas pernas artríticas, a viúva Senhora Waynwood, rodeada
pelos filhos. Outros exibiam símbolos que não conhecia: uma lança
quebrada, uma víbora verde, uma torre ardente, um cálice alado.
Entre os senhores do Vale encontravam-se vários dos que tinham
sido seus companheiros na estrada de altitude: Sor Rodrik Cassei,
pálido dos ferimentos mal curados, tinha Sor Willis Wode a seu lado.