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Marillion, o cantor, encontrara uma nova harpa. Tyrion sorriu.

Acontecesse o que acontecesse ali naquela noite, não queria que fosse

em segredo, e não havia ninguém melhor que um cantor para

espalhar uma história aos sete ventos.

Ao fundo da sala, Bronn preguiçava sob um pilar. Os olhos negros do

cavaleiro livre estavam fixos em Tyrion, e a mão pousava levemente

no botão do punho da espada. Tyrion olhou-o longamente,

interrogando-se...

Catelyn Stark foi a primeira a falar.

- Foi nos dito que deseja confessar seus crimes.

- Desejo, senhora - Tyrion respondeu.

Lysa Arryn sorriu para a irmã.

- As celas abertas os quebram sempre. Os deuses podem vê-los lá, e

não há escuridão onde se refugiem.

- Ele não me parece quebrado - disse Catelyn.

Lysa não lhe prestou atenção.

- Diga o que tem a dizer - ela ordenou.

E agora façamos rolar os dados, pensou com outro rápido relance

para Bronn.

- Por onde começar? Sou um homenzinho vil, confesso. Meus crimes

são incontáveis, senhores e senhoras. Deitei-me com prostitutas, não

uma, mas centenas de vezes. Desejei a morte do senhor meu pai e

também de minha irmã, nossa piedosa rainha - atrás dele, alguém

soltou um risinho. - Nem sempre tratei meus criados com delicadeza.

Joguei jogos de azar. Até cheguei a roubar neles, admito,

enrubescido. Disse muitas coisas cruéis e maliciosas a respeito dos

nobres senhores e senhoras da corte - aquilo provocou abertas

gargalhadas. - Uma vez. .

- Silêncio! - a pálida cara redonda de Lysa Arryn tomara um tom

ardente, cor-de-rosa. - O que imagina que está fazendo, anão?

Tyrion inclinou a cabeça para o lado.

- Ora, confessando os meus crimes, senhora.

Catelyn Stark deu um passo à frente.

- Você é acusado de enviar um assassino contratado para matar meu

filho Bran em sua própria cama e de conspirar para o assassinato de

Lorde Jon Arryn, a Mão do Rei.

Tyrion encolheu os ombros com ar impotente.

- Temo que esses crimes não possa confessar. Nada sei de

assassinatos.

A Senhora Lysa ergueu-se de seu trono de represeiro.

- Não serei alvo de troça. Já teve a sua brincadeirinha, Duende. Creio

que tenha gostado dela. Sor Vardis, leve-o de volta para as

masmorras... mas desta vez arranje-lhe uma cela menor, com o chão

mais inclinado.

- É assim que se faz justiça no Vale? - rugiu Tyrion, tão alto que Sor

Vardis se imobilizou por um instante. - Será que a honra fica à porta

do Portão Sangrento? Acusam-me de crimes, eu os nego e, portanto,

atiram-me em uma cela a céu aberto para que congele e morra de

fome - ergueu a cabeça, para mostrar bem a todos as nódoas negras

que Mord deixara em seu rosto.

- Onde está a justiça do rei? Será que o Ninho da Águia não faz

parte dos Sete Reinos? Diz-me que sou acusado. Muito bem. Exijo

um julgamento! Deixe-me falar, e deixe que a minha verdade ou

falsidade seja julgada abertamente, à vista dos deuses e dos homens.

Um murmúrio baixo encheu o Alto Salão. Tyrion soube que tinha

ganhado. Era bem-nascido, filho do mais poderoso senhor do reino,

irmão da rainha. Não lhe podia ser negado um julgamento. Guardas

de manto azul-celeste tinham começado a se dirigir a Tyrion, mas

Sor Vardis ordenou que parassem e olhou para a Senhora Lysa.

A pequena boca da senhora torceu-se num sorriso petulante.

- Se julgado e considerado culpado dos crimes pelos quais é acusado,

então, pelas leis do próprio rei, deverá pagar com o sangue da sua

vida. Não temos carrasco no Ninho da Águia, senhor de Lannister.

Que seja aberta a Porta da Lua.

A aglomeração de espectadores separou-se. Uma estreita porta surgiu

à vista, entre dois esguios pilares de mármore, com um crescente

esculpido na madeira branca. Aqueles que estavam mais perto da

porta recuaram quando um par de guardas marchou até ela. Um dos

homens removeu as pesadas barras de bronze; o segundo puxou a

porta para dentro. Seus mantos azuis ergueram--se dos ombros,

ondulando, apanhados pela súbita rajada de vento que entrou

uivando pela porta aberta. Do outro lado havia o vazio do céu

noturno, salpicado de estrelas frias e indiferentes.

- Admire a justiça do rei - disse Lysa Arryn. Chamas de archotes

flutuaram como flâmulas ao longo das paredes, e aqui e ali um ou

outro archote foi apagado.

- Lysa, penso que isto é insensato - disse Catelyn Stark enquanto o

vento negro rodopiava pelo salão.

Sua irmã a ignorou.

- Deseja um julgamento, senhor de Lannister. Muito bem, terá um

julgamento. Meu filho ouvirá o que tem a dizer e dará seu

julgamento. Então, pode sair... por uma porta ou pela outra.

Ela parecia tão contente consigo mesma, pensou Tyrion, e não

admirava. Como poderia um julgamento ameaçá-la, quando o senhor

juiz era o fracote do filho? Tyrion olhou de relance para a Porta da

Lua. Mãe, quero vê-lo voar!, dissera o rapaz. Quantos homens teria já

o ranhento canalhinha mandado atravessar aquela porta?

- Agradeço, minha boa senhora, mas não vejo necessidade de

incomodar Lorde Robert -disse Tyrion delicadamente. - Os deuses

conhecem a verdade da minha inocência. Desejo o seu veredicto, não

o julgamento dos homens. Exijo um julgamento por combate.

Uma tempestade de súbitas gargalhadas encheu o Alto Salão dos

Arryn. Lorde Nestor Royce resfolegou, Sor Willis gargalhou, Sor Lyn

Corbray relinchou e outros atiraram as cabeças para trás e uivaram

até que lágrimas lhes correram pelo rosto. Marillion arrancou

desajeitadamente uma nota alegre de sua nova harpa com os dedos

da mão quebrada. Até o vento pareceu assobiar com zombaria ao

entrar, aos gritos, pela Porta da Lua.

Os olhos de um azul aguado de Lysa Arryn pareceram incertos.

Tinha sido apanhada de surpresa.

- Tem certamente esse direito.

O jovem cavaleiro com a víbora verde bordada na capa deu um

passo em frente e caiu sobre o joelho.

- Minha senhora, peço a mercê de ser o campeão da vossa causa.

- A honra deve ser minha - disse o velho Lorde Hunter. - Pelo amor

que sentia pelo senhor vosso esposo, deixe-me vingar a sua morte.

- Meu pai serviu fielmente a Lorde Jon como Supremo Intendente do

Vale - trovejou Sor Aibar Royce. - Deixe-me servir agora o seu filho.

- Os deuses favorecem o homem com a causa justa - disse Sor Lyn

Corbray -, mas é comum que este acabe por ser o homem com a

espada mais hábil. Todos sabemos quem este homem é - e sorriu

modestamente.

Uma dúzia de outros homens falou ao mesmo tempo, clamando para

serem ouvidos. Tyrion achou desanimador que tantos estranhos

estivessem ansiosos por matá-lo. Este afinal talvez não tivesse sido

um plano tão inteligente como parecera.

A Senhora Lysa ergueu a mão exigindo silêncio.

- Agradeço, senhores, como sei que meu filho agradeceria se estivesse

entre nós. Não há homens nos Sete Reinos tão ousados e leais como

os cavaleiros do Vale. Gostaria de poder conceder a todos esta honra.

Mas só posso escolher um - fez um gesto. - Sor Vardis Egen, foi

sempre um bom braço direito do senhor meu esposo. Será o nosso

campeão.