enchente de serragem vermelha no terraço. Catelyn olhou de relance
para o sobrinho e suspirou. - O rapaz não tem absolutamente
disciplina alguma. Nunca será suficientemente forte para governar, a
menos que seja tirado da mãe por algum tempo.
- O senhor seu pai concordaria com a senhora - disse uma voz vinda
por trás de Catelyn, Virou-se e deparou com Meistre Colemon com
uma taça de vinho na mão. - Planejava mandar o rapaz para a Pedra
do Dragão, para ser criado, sabia.. Ah, mas não devia ter dito isto - o
pomo de adão oscilou ansiosamente sob a larga corrente de meistre.
- Temo que tenha bebido demais do excelente vinho de Lorde
Hunter. A perspectiva do derramamento de sangue deixou-me os
nervos todos em desordem..
- Está enganado, meistre - disse Catelyn. - Era Rochedo Casterly, não
Pedra do Dragão, e essas combinações foram feitas depois da morte
da Mão, sem consentimento da minha irmã.
A cabeça do meistre deu uma sacudidela tão vigorosa sobre o
pescoço absurdamente longo que ele próprio se pareceu por um
momento com uma marionete.
- Não, com a sua licença, minha senhora, mas foi Lorde Jon que...
Um sino soou com estrondo abaixo deles. Tanto os grandes senhores
como as criadas interromperam o que estavam fazendo e se
dirigiram para a balaustrada. Embaixo, dois guardas de manto azul-
celeste trouxeram Tyrion Lannister. O rechonchudo septão do Ninho
da Águia o escoltou até a estátua no centro do jardim, uma mulher
chorosa esculpida num mármore cheio de veios, sem dúvida uma
representação de Alyssa.
- O homenzinho mau - disse Lorde Robert, entre risinhos. - Mãe,
posso fazedo voar? Quero vê-lo voar.
- Mais tarde, meu doce bebê - prometeu-lhe Lysa.
- Primeiro o julgamento - pronunciou vagarosamente Sor Lyn
Corbray -, depois a execução.
Um momento mais tarde, os dois campeões surgiram de lados
opostos do jardim. O cavaleiro era servido por dois jovens
escudeiros; o mercenário, pelo mestre de armas do Ninho da Águia.
Sor Vardis Egen era de aço dos pés à cabeça, enfiado numa pesada
armadura couraçada sobre cota de malha e uma capa almofadada.
Grandes ornamentos esmaltados de creme e azul com o símbolo da
lua e do falcão da Casa Arryn protegiam a vulnerável articulação do
braço com o peito. Uma saia de tiras de metal cobria-lhe o corpo
desde a cintura até o meio da coxa, ao passo que um sólido gorjal lhe
rodeava a garganta. Asas de falcão projetavam-se das têmporas de
seu elmo, e a viseira era um pontiagudo bico de metal com uma
estreita fenda para dar visibilidade.
Bronn tinha uma proteção tão ligeira que parecia quase nu ao lado
do cavaleiro. Usava apenas uma cota de malha, negra e oleada,
cobrindo-lhe o torso sobre couro cozido, um meio elmo redondo de
aço com proteção para o nariz e uma rede de cota de malha na
cabeça. Botas de couro de cano alto com anteparos de aço davam-lhe
alguma proteção às pernas, e tinha discos de ferro negro cosidos aos
dedos das luvas. Mas Catelyn reparou que o mercenário era meia
mão mais alto que o adversário, com maior alcance.. e, ou ela não
sabia avaliar idades, ou Bronn era uns quinze anos mais novo.
Ajoelharam-se na relva sob a mulher chorosa, de frente um para o
outro, com o Lannister entre ambos. O septão tirou uma esfera
facetada de cristal do saco de tecido leve que trazia à cintura.
Ergueu-a bem alto acima da cabeça, e a luz estilhaçou-se. Arcos-íris
dançaram pela cara do Duende. Com voz sonora, solene e cantante, o
septão pediu aos deuses que olhassem para baixo e testemunhassem,
a fim de encontrar a verdade na alma daquele homem, para
conceder-lhe a vida e a liberdade, se fosse inocente, ou a morte, se
culpado. Sua voz ecoava nas torres em redor.
Depois de o último eco se desvanecer, o septão baixou o cristal e
partiu às pressas. Tyrion inclinou-se e segredou qualquer coisa ao
ouvido de Bronn antes que os guardas o levassem. O mercenário
pôs-se em pé, rindo, e sacudiu uma folha de relva do joelho.
Robert Arryn, Senhor do Ninho da Águia e Defensor do Vale, mexia-
se impacientemente na sua cadeira elevada.
- Quando é que eles vão lutar? - ele perguntou em tom lamentoso.
Sor Vardis foi ajudado a se erguer por um dos escudeiros. O outro
lhe trouxe um escudo triangular com quase um metro e vinte de
altura, feito de pesado carvalho pontilhado com rebites de ferro. Os
escudeiros ataram o escudo ao braço esquerdo do cavaleiro. Quando
o mestre de armas de Lysa ofereceu a Bronn um escudo semelhante,
o mercenário cuspiu e afastou-o com um gesto. Uma rude barba
negra de três dias cobria-lhe o maxilar e as bochechas, mas, se não a
cortava, não era por falta de navalha; o gume de sua espada possuía
o perigoso brilho de aço amolado todos os dias durante horas até
ficar afiado demais para ser tocado.
Sor Vardis estendeu a mão enluvada, e o escudeiro colocou-lhe entre
os dedos uma bela espada longa de dois gumes. A lâmina estava
gravada com o delicado rendilhado em prata de um céu de
montanha; o botão do punho era uma cabeça de falcão, a guarda
tinha sido esculpida com a forma de asas.
- Mandei fabricar aquela espada para Jon em Porto Real - disse Lysa
orgulhosamente aos convidados enquanto observavam Sor Vardis
experimentar um golpe. - Ele a usava sempre que se sentava no
Trono de Ferro no lugar do Rei Robert. Não é adorável? Achei
adequado que nosso campeão vingue Jon com sua própria lâmina.
A lâmina com prata gravada era sem dúvida bela, mas a Catelyn
parecia que Sor Vardis talvez messe se sentido mais confortável com
sua própria espada. No entanto, nada disse; estava cansada de
discussões fúteis com a irmã.
- Faça-os lutar! - gritou Lorde Robert.
Sor Vardis virou-se para o Senhor do Ninho da Águia e ergueu a
espada numa saudação.
- Pelo Ninho da Águia e pelo Vale!
Tyrion Lannister sentou-se na varanda do outro lado do jardim,
flanqueado pelos guardas. Foi para ele que Bronn se virou com uma
saudação apressada.
- Eles esperam a sua ordem - disse a Senhora Lysa ao senhor seu
filho,
- Lutem! - gritou o rapaz, com as mãos tremendo, agarradas à
cadeira.
Sor Vardis girou, erguendo o pesado escudo. Bronn virou-se para
enfrentá-lo. As espadas ressoaram, uma, duas vezes, testando-se. O
mercenário recuou um passo. O cavaleiro avançou, segurando o
escudo à sua frente. Tentou um golpe, mas Bronn saltou para trás,
bem para lá do seu alcance, e a lâmina prateada apenas cortou ar.
Bronn rodeou-o pela direita. Sor Vardis virou-se, seguindo-o,
mantendo o escudo entre ambos. O cavaleiro avançou, pousando
com cuidado as pés no chão irregular. O mercenário cedeu, com um
tênue sorriso brincando em seus lábios. Sor Vardis atacou, lançando
cutiladas, mas Bronn saltou para fora de seu alcance, pulando com
Igeireza por cima de uma pedra baixa, coberta de musgo. Agora, o
mercenário flanqueava pela esquerda, para longe do escudo, na
direção do lado desprotegido do cavaleiro. Sor Vardis tentou uma