trás, meio acocorado atrás do escudo cheio de cicatrizes, e no
seguinte avançou. O súbito ímpeto de touro apanhou Bronn
desequilibrado. Sor Vardis chocou-se contra ele e atirou a aresta do
escudo contra o rosto do mercenário. Bronn quase, q u a s e , perdeu
o apoio... cambaleou para trás, tropeçou numa pedra e agarrou-se à
mulher chorosa para manter o equilíbrio. Atirando fora o escudo, Sor
Vardis guinou sobre ele, usando ambas as mãos para erguer a
espada. O braço direito estava agora com sangue do cotovelo aos
dedos, mas seu último golpe desesperado teria talhado Bronn do
pescoço ao umbigo... se o mercenário tivesse se levantado para
recebê-lo.
Mas Bronn saltou para trás. A bela espada gravada em prata de Jon
Arryn resvalou no cotovelo de mármore da mulher chorosa e um
terço da ponta se quebrou. Bronn empurrou as costas da estátua
com o ombro. O desgastado retrato de Alyssa vacilou e caiu com
grande estrondo, e Sor Vardis Egen tombou por baixo dele.
Num instante, Bronn estava sobre o cavaleiro, chutando para o lado
o que restava do ornamento partido a fim de expor o ponto fraco
entre o braço e o peitoral. Sor Vardis jazia de lado, preso sob o
tronco quebrado da mulher chorosa. Catelyn ouviu o cavaleiro gemer
quando o mercenário ergueu sua arma com ambas as mãos e a
baixou, pondo no golpe todo o seu peso, por baixo do braço e por
entre as costelas. Sor Vardis Egen estremeceu e ficou imóvel.
Sobre o Ninho da Águia pairou o silêncio. Bronn arrancou o meio
elmo e o deixou cair na relva. Tinha o lábio amassado e sangrento
onde fora atingido pelo escudo, e os cabelos negros como o carvão
estavam empapados de suor. Cuspiu um dente partido.
- Acabou, mãe? - perguntou o Senhor do Ninho da Águia. N ão ,
Catelyn quis lhe dizer, e s t á a p e n a s c o m e ç a n d o .
- Sim - disse Lysa sombriamente, com a voz tão fria e morta como o
capitão de sua guarda.
- Posso fazer o homenzinho voar agora?
Do outro lado do jardim, Tyrion Lannister pôs-se em pé.
- E s t e homenzinho, não - disse. - Este homenzinho irá para baixo no
cesto dos nabos, muito obrigado.
- Presume... - começou Lysa.
- Presumo que a Casa Arryn recorde suas próprias palavras - disse o
Duende. - T ã o A l t o C o m o a H o n r a .
- A senhora me prometeu que eu o faria voar - gritou o Senhor do
Ninho da Águia à mãe, e começou a tremer.
O rosto da Senhora Lysa estava corado de fúria.
- Os deuses acharam por bem proclamá-lo inocente, filho. Não temos
outra escolha que não seja libertá-lo - ergueu a voz. - Guardas.
Levem o senhor de Lannister e o seu.. a sua c r i a t u r a para longe
da minha vista. Escoltem-nos até o Portão Sangrento e os libertem.
Tratem que tenham cavalos e abastecimentos suficientes para
alcançar o Tridente, e assegurem-se de que todos os seus bens e
armas lhes sejam devolvidos. Precisarão deles na estrada de altitude.
- A estrada de altitude - disse Tyrion Lannister. Lysa permitiu-se um
tênue sorriso satisfeito. Catelyn compreendeu que era outro tipo de
sentença de morte. Tyrion Lannister devia sabê-lo também. Mas o
anão concedeu à Senhora Arryn uma reverência trocista. - Que seja
conforme ordena, minha senhora. Julgo que conhecemos o caminho.
Jon
- São os rapazes mais incapazes que já treinei - anunciou Sor Alliser
Thorne depois de se reunirem todos no pátio. - Suas mãos foram
feitas para pegar em pás de recolher estrume, não em espadas, e se
dependesse de mim, iriam todos criar porcos. Mas ontem à noite me
foi dito que Gueren traz cinco rapazes novos pela Estrada do Rei.
Um ou dois podem até valer o preço de um mijo. Para abrir lugar
para eles, decidi passar oito de vocês ao Senhor Comandante, para
que faça de vocês o que bem entenda - chamou pelos nomes um a
um. - Sapo. Cabeça Dura. Auroque. Amante. Borbulha. Macaco. Sor
Vadio - por fim, olhou para Jon. - E o bastardo. Pyp soltou um
u u u p , e espetou a espada no ar. Sor Alliser fitou-o com um olhar
de réptil.
- Vão se chamar agora homens da Patrulha da Noite, mas se
acreditarem nisso, são tolos maiores ainda do que o Macaco de
Saltimbanco. Ainda são rapazes, verdes e fedendo a verão, mas
quando o inverno vier, morrerão como moscas - e com aquilo Sor
Alliser Thorne retirou-se.
Os outros rapazes reuniram-se em torno dos oito que tinham sido
nomeados, rindo, praguejando e dando-lhes os parabéns. Halder deu
uma pancada no traseiro de Sapo com o lado da espada e gritou:
- O Sapo, da Patrulha da Noite!
Gritando que um irmão negro precisava de um cavalo, Pyp saltou
para os ombros de Grenn e caíram ambos ao chão, rolando, aos
socos e aos gritos. Dareon precipitou-se para o armeiro e regressou
com um odre de tinto amargo. Enquanto passavam o vinho de mão
em mão, sorrindo como idiotas, Jon reparou em Samwell Tarly, que
estava sozinho debaixo de uma árvore morta sem folhas, a um canto
do pátio. Ofereceu-lhe o odre.
- Um trago de vinho?
Sam abanou a cabeça.
- Não, obrigado, Jon.
- Você está bem?
- Muito bem, garanto - mentiu o rapaz gordo. - Estou feliz por todos
vocês - a face redonda tremeu quando forçou um sorriso. - Um dia
você será Primeiro Patrulheiro, tal como era o seu tio.
- Tal como é - corrigiu Jon. Não aceitava que Benjen Stark estivesse
morto. Antes de poder dizer mais, Halder gritou:
- Dê aqui, pensa que vai beber tudo sozinho? - Pyp arrancou-lhe o
odre da mão e afastou-se dançando, rindo. Enquanto Grenn lhe
agarrava o braço, Pyp deu um apertão no odre e um fino jato
vermelho esguichou na cara de Jon. Halder urrou em protesto contra
o desperdício do bom vinho. Jon cuspiu e debateu-se. Matthar e Jeren
subiram no muro e começaram a jogar bolas de neve em todos eles.
Quando conseguiu se libertar, com neve nos cabelos e manchas de
vinho na capa, Samwell Tarly tinha desaparecido.
Nessa noite, o Hobb Três Dedos cozinhou para os rapazes uma
refeição especial a fim de marcar a ocasião. Quando Jon chegou à
sala comum, foi o próprio Senhor Intendente que o levou para o
banco junto ao fogo. Os homens mais velhos deram-lhe palmadas no
braço quando passou por eles. Os oito que em breve seriam irmãos
banquetearam-se com uma peça de cordeiro assada em crosta de
alho e ervas, guarnecida com raminhos de menta e rodeada com
purê de nabo nadando em manteiga.
- Da mesa do próprio Senhor Comandante - disse-lhes Bowen Marsh.
Havia saladas de espinafre, grão-de-bico e nabos-redondos, e de
sobremesa, tigelas de amoras silvestres geladas e creme doce.
- Acham que vão nos manter juntos? - Pyp quis saber enquanto se
empanturravam com todo o gosto.
Sapo fez uma careta.
- Espero que não. Estou farto de olhar para essas suas orelhas.
- Ah - disse Pyp. - Vejam o corvo chamando o melro de preto. Você
será com certeza um patrulheiro, Sapo. Vão querê-lo tão longe do
castelo quanto for possível. Se Manee Rayder atacar, levante a viseira
e mostre-lhe sua cara, ele há de fugir aos gritos.
Todos riram, menos Grenn.