segredos partilhados, e naquela noite Sansa foi para a cama sentido-
se quase tão malvada como Arya.
Na manhã seguinte, acordou antes da primeira luz e deslizou,
sonolenta, até a janela, a fim de observar Lorde Beric, que punha os
homens em formação. Partiram quando a aurora raiava sobre a
cidade, com três estandartes à cabeça da coluna: o veado coroado do
rei esvoaçava no poste maior; o lobo gigante dos Stark e o estandarte
do relâmpago bifurcado de Lorde Beric, nos postes mais curtos. Tudo
aquilo era excitante, uma canção trazida à vida; o tinir das espadas, o
tremeluzir dos archotes, estandartes dançando ao vento, cavalos
resfolegando e relinchando, o brilho dourado da alvorada
trespassando através das barras da porta levadiça quando foi puxada
para cima. Os homens de Winterfell tinham especialmente bom
aspecto, com cotas de malha prateadas e longos mantos cinzentos.
Alyn transportava o estandarte dos Stark. Quando o viu puxar as
rédeas ao lado de Lorde Beric para trocar algumas palavras com ele,
Sansa sentiu um grande orgulho. Alyn era mais bonito do que Jory
fora; e um dia seria um cavaleiro.
A Torre da Mão parecia tão vazia depois de os homens terem partido
que Sansa até ficou contente por ver Arya quando desceu para o
desjejum.
- Onde estão todos? - quis saber sua irmã enquanto arrancava a
casca de uma laranja sanguínea. - Nosso pai os mandou em
perseguição de Jaime Lannister?
Sansa suspirou,
- Partiram com Lorde Beric para decapitar Sor Gregor Clegane -
virou-se para Septã Mordane, que estava comendo mingau de aveia
com uma colher de pau. - Septã, Lorde Beric vai espetar a cabeça de
Sor Gregor no portão dele ou vai trazê-la para cá e dá-la ao rei? - ela
e Jeyne Poole tinham discutido sobre aquilo na noite anterior.
A septã ficou horrorizada.
- Uma senhora não discute essas coisas à mesa. Onde está sua
educação, Sansa? Juro, nos últimos tempos tem sido quase tão má
como a sua irmã.
- Que fez Gregor? - Arya perguntou.
- Queimou um castelo e assassinou uma porção de pessoas, mulheres
e crianças também. Arya fechou o rosto numa carranca.
- Jaime Lannister assassinou Jory, Heward e Wyl, e Cão de Caça
assassinou o Mycah. Alguém devia t ê - l o s decapitado.
- Não é a mesma coisa - disse Sansa, - Cão de Caça é por juramento
o escudo de Joffrey. Seu amigo, filho de carniceiro, atacou o príncipe.
- Mentirosa - disse Arya. Agarrou a laranja sanguínea com tanta força
que sumo vermelho escorreu entre seus dedos.
- Vá em frente, chame-me os nomes que quiser - disse Sansa em tom
alegre. - Quando eu estiver casada com Joffrey, não se atreverá. Terá
de me fazer reverências e me chamar Vossa Graça - soltou um
gemido estridente quando Arya lhe arremessou a laranja. O fruto a
atingiu no meio da testa com um salpico molhado e tombou no seu
colo.
- Tem sumo na cara, Vossa Graça - Arya disse.
O sumo escorria pelo rosto e fazia arder os olhos. Sansa se limpou
com um guardanapo. Quando viu o que o fruto tinha feito em seu
belo vestido de seda cor de marfim, soltou outro gemido.
- Você é h o r r í v e l - gritou para a irmã. - Deviam ter matado v o c ê
em vez da Lady!
Septá Mordane pôs-se subitamente em pé.
- O senhor seu pai ouvirá falar disto! Vão imediatamente para os
seus aposentos. I m e d i a t a m e n t e !
- Eu também? - lágrimas jorraram dos olhos de Sansa. - Não é justo.
- Não haverá discussão. Vá!
Sansa foi embora a passos largos, de cabeça levantada. Seria uma
rainha, e as rainhas não choram. Pelo menos onde as pessoas vissem,
Quando chegou ao quarto, trancou a porta e despiu o vestido. A
laranja sanguínea deixara uma grande mancha vermelha na seda.
- Eu a odeio! - gritou. Amarfanhou o vestido numa bola e atirou-o
para a lareira fria, para cima das cinzas do fogo da noite anterior.
Quando viu que a mancha tinha escorrido para a saia de baixo, não
conseguiu resistir e começou a soluçar. Arrancou furiosamente o
resto da roupa, atirou-se na cama e chorou até dormir.
Era meio-dia quando Septã Mordane bateu à sua porta.
- Sansa. O senhor seu pai a receberá agora. Sansa sentou-se.
- Lady - sussurrou. Por um momento, foi como se o lobo selvagem
estivesse ali no quarto, olhando-a com seus olhos dourados, tristes e
sábios. Compreendeu que tinha sonhado. Lady estava com ela e
corriam juntas, e... e.. tentar recordar era como tentar apanhar
chuva com os dedos. O sonho desvaneceu-se e Lady ficou de novo
morta.
- Sansa - a pancada voltou, sonora. - Está ouvindo?
- Sim, Septã - gritou. - Posso, por favor, ter um momento para me
vestir? - tinha os olhos vermelhos de chorar, mas fez tudo que pôde
para se pôr bonita.
Lorde Eddard estava inclinado sobre um enorme livro de capa de
couro, com a perna engessada, rígida, sobre a mesa, quando Septã
Mordane a introduziu no aposento privado,
- Venha cá, Sansa - ele disse, num tom que não era desprovido de
delicadeza, depois de a septã partir para ir buscar a irmã. - Sente-se
ao meu lado - fechou o livro.
Septã Mordane regressou com Arya, que se debatia em suas mãos.
Sansa vestia um belo vestido verde-claro de damasco e um ar de
remorso, mas a irmã ainda trajava as maltrapilhas roupas de couro e
ráfia que usava na refeição matinal.
- Aqui está a outra - anunciou a septã.
- Agradeço-lhe, Septã Mordane. Gostaria de falar com minhas filhas a
sós, com a sua licença - a septá fez uma reverência e saiu.
- Foi Arya que começou - Sansa disse rapidamente, ansiosa por ter a
primeira palavra. -Chamou-me de mentirosa, atirou-me uma laranja e
estragou meu vestido, o de seda cor de marfim, aquele que a Rainha
Cersei me deu quando fui prometida ao Príncipe Joffrey. Ela detesta
que eu vá casar com o príncipe. Ela procura estragar t u d o , pai, não
suporta que nada seja belo, ou amável, ou esplêndido.
- B a st a, Sansa - a voz de Lorde Eddard estava carregada de
impaciência. Arya ergueu os olhos.
- Lamento, pai. Eu estava errada e peço o perdão de minha querida
irmã.
Sansa ficou tão surpresa que por um momento perdeu a fala. Por
fim, recuperou a voz.
- Então, e o meu vestido?
- Talvez... eu possa lavá-lo - disse Arya em tom de dúvida.
- Lavá-lo não resolve nada - disse Sansa. - Nem que o esfregasse dia e
noite. A seda está a r r u i n a d a .
- Então eu... faço-lhe um novo - Arya tentou. Sansa atirou a cabeça
para trás com desdém.
- Você? Nem seria capaz de coser um vestido bom para limpar os
chiqueiros. O pai suspirou.
- Não as chamei aqui para falar de vestidos. Enviarei ambas de volta
para Winterfell.
Pela segunda vez Sansa ficou surpresa demais para falar. Sentiu que
seus olhos se umedeciam de novo.
- Não p o d e - Arya reagiu.
- Por favor, pai - Sansa conseguiu dizer por fim. - Não, por favor.
Eddard Stark concedeu às filhas um sorriso cansado,
- Finalmente encontramos alguma coisa em que estão de acordo.
- Eu não fiz nada de mal - Sansa argumentou. - Não quero voltar -
adorava Porto Real; o aparato da corte, os grandes senhores e