senhoras com seus veludos, sedas e pedras preciosas, a grande cidade
com toda a sua gente. O torneio constituíra o período mais mágico
de toda sua vida, e havia tantas coisas que ainda não vira, festas das
colheitas, bailes de máscaras e espetáculos de pantomima. Não
aguentava a ideia de perder tudo aquilo. - Mande Arya embora, foi
ela quem começou, pai, juro. Eu serei boa, verá, deixe-me ficar e
prometo ser tão agradável, nobre e cortês como a rainha.
A boca do pai retorceu-se de um modo estranho.
- Sansa, não estou mandando vocês embora por causa das brigas,
embora os deuses bem saibam como estou farto das suas disputas.
Quero que voltem a Winterfell para a sua segurança, Três dos meus
homens foram abatidos como cães a menos de uma légua de onde
estamos, e que fez Robert? Foi à c a ç a .
Arya mordiscava o lábio daquela sua maneira nojenta.
- Podemos levar Syrio de volta conosco?
- Quem se importa com seu estúpido m e st re d e d a n ç ai - Sansa
disparou. - Pai, acabei de me lembrar, n ã o p o s s o ir embora, vou
me casar com o Príncipe Joffrey - tentou sorrir com bravura para ele.
- Eu o amo, pai, amo mesmo, mesmo, tanto como a Rainha Naerys
amou o Príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão, tanto como Jonquil
amou Sor Florian. Quero ser a sua rainha e ter os seus bebês.
- Querida - disse o pai gentilmente -, escute-me. Quando tiver idade,
lhe arranjarei casamento com algum grande senhor que seja digno de
você, alguém que seja corajoso, gentil e forte. Esta promessa a Joffrey
foi um erro terrível. Aquele rapaz não é nenhum Príncipe Aemon,
acredite no que digo.
- É, s i m ! - Sansa insistiu. - Não quero alguém corajoso e gentil,
quero e l e . Seremos tão felizes, assim como nas canções, o senhor
verá. Darei a ele um filho de cabelos dourados, que um dia será o rei
de todo o reino, o maior rei que já existiu, bravo como o lobo e
orgulhoso como o leão.
Arya fez uma careta.
- Só se Joffrey não for o pai - ela rebateu. - Joffrey é um mentiroso e
um covarde, e de qualquer forma é um veado, não um leão.
Sansa sentiu lágrimas nos olhos.
- Não é n a d a i Não é nem um bocadinho como aquele velho rei
bêbado - gritou para a irmã, perdida no seu desgosto.
O pai a olhou com uma expressão estranha.
- Deuses - praguejou em voz baixa e da boca das crianças... - gritou
pela Septã Mordane. As meninas, disse: - Estou à procura de uma
galé mercante que seja rápida para levá-las para casa. Nos dias que
correm, o mar é mais seguro do que a Estrada do Rei. Partirão assim
que eu encontre um navio adequado, com Septã Mordane e uma
guarnição de guardas. . e, sim, com Syrio Forel, se ele concordar em
entrar a meu serviço. Mas não digam nada sobre isto. É melhor que
ninguém saiba dos nossos planos. Amanhã voltaremos a conversar.
Sansa chorou enquanto Septã Mordane as levava pelas escadas. Iam
tirar-lhe tudo; os torneios, a corte e o seu príncipe, tudo, iam enviá-
la de volta para os gelados muros cinzentos de Winterfell e trancá-la
para sempre. Sua vida tinha terminado antes mesmo de começar.
- Pare com esse choro, menina - Septã Mordane disse severamente. -
Tenho certeza de que o senhor seu pai sabe o que é melhor para
vocês.
- Não vai ser assim tão mau, Sansa - Arya disse. - Vamos viajar numa
galé. Será uma aventura, e depois estaremos outra vez com Bran e
Robb, e a Velha Ama, Hodor e os outros - tocou--lhe o braço.
- H o d o r! - Sansa berrou. - Devia casar com o Hodor, é mesmo
como ele, estúpida, peluda e feia! - escapuliu da mão da irmã, entrou
correndo no quarto e trancou a porta atrás de si.
Eddard
- A dor é um presente dos deuses, Lorde Eddard - disse o Grande
Meistre Pycelle. - Significa que o osso está cicatrizando, a carne
sarando. Deveria ser grato por isso.
- Ficarei grato quando a perna deixar de latejar.
Pycelle depositou um frasco rolhado na mesa junto à cama.
- O leite da papoula, para quando a dor ficar muito pesada. -Já
durmo demais.
- O sono é o grande curandeiro.
- Tinha esperança de que fosse o senhor. Pycelle deu um sorriso
triste.
- É bom vê-lo com um humor tão vigoroso, senhor - inclinou-se para
mais perto e abaixou a voz. - Chegou um corvo hoje de manhã, uma
carta para a rainha do senhor seu pai. Pensei que deveria saber.
- Asas escuras, palavras escuras - disse Ned em tom sombrio. - Que
tem a mensagem?
- Lorde Tywin está muito irado com os homens que o senhor enviou
contra Sor Gregor Clegane - confidenciou o meistre. - Temi que
ficasse. Disse isso mesmo no conselho.
- Deixe-o irar-se - Ned respondeu. Cada vez que a perna latejava,
lembrava-se do sorriso de Jaime Lannister e de Jory morto em seus
braços. - Que escreva todas as cartas que quiser à rainha. Lorde
Beric avança sob o estandarte do rei. Se Lorde Tywin tentar interferir
na justiça do rei, terá de responder perante Robert. A única coisa de
que Sua Graça mais gosta que caçar é de mover guerra aos senhores
que o desafiam.
Pycelle afastou-se, com a corrente de meistre chocalhando,
- Como quiser. Virei visitá-lo de novo amanhã - o velho homem
recolheu apressadamente suas coisas e se retirou. Ned tinha poucas
dúvidas de que se dirigia diretamente aos aposentos reais para
segredar à rainha. P e n s e i q u e d e v e r i a s a b e r , realmente.. como
se Cersei não o tivesse instruído para entregar as ameaças do pai.
Esperava que a resposta fizesse ranger aqueles seus dentes perfeitos.
Ned não estava, nem de perto, tão confiante como fingira estar, mas
não havia motivo para que Cersei soubesse disso.
Depois de Pycelle sair, Ned mandou vir uma taça de vinho com mel.
Aquilo também enevoava a mente, mas não tanto. Precisava estar
capaz para pensar. Mil vezes perguntara a si mesmo o que teria feito
Jon Arryn se tivesse vivido o suficiente para atuar com base no que
soubera. Ou talvez t i v e s s e atuado e morrido por isso.
Era estranho como por vezes os olhos inocentes de uma criança
eram capazes de ver coisas a que os adultos eram cegos. Um dia,
quando Sansa crescesse, teria de lhe contar como ela fizera com que
tudo se tornasse claro. N ã o é n e m u m b o c a d i n h o c o m o
a q u e l e v e l h o r e i b ê b a d o , declarara zangada e sem consciência
do que dizia, e a simples verdade daquelas palavras retorcera-se den-
tro dele, fria como a morte. F o i e s t a a e s p a d a q u e m a t o u J o n
A r r y n , pensara Ned então, e m a t a r á t a m b é m R o b e r t , u m a
m o r t e m a i s l e n t a , m a s n ã o m e n o s c e r t a . Pernas quebradas
podem sarar com o tempo, mas certas traições ulceram e envenenam
a alma.
Mindinho veio de visita uma hora depois de o Grande Meistre partir,
vestindo um gibão cor de ameixa, com um tejo bordado de negro no
peito e uma capa listrada de preto e branco.
- Não posso me demorar, senhor - anunciou. - A Senhora Tanda
espera-me para o almoço. Sem dúvida assará uma vitela de engorda.
Se a engorda se aproximar da filha dela, é provável que eu arrebente