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e morra. E como vai a perna?

- Inflamada e dolorida, com uma comichão que me deixa louco.

Mindinho ergueu uma sobrancelha.

- No futuro, tente evitar que os cavalos caiam em cima dela. Gostaria

que sarasse rapidamente. O reino inquieta-se. Varys escutou

murmúrios de mau agouro vindos do Ocidente. Cavaleiros livres e

mercenários estão afluindo ao Rochedo Casterly, e não é pelo simples

prazer de conversar com Lorde Tywin.

- Há notícias do rei? - Ned perguntou. - Quanto tempo Robert ainda

tenciona continuar caçando?

- Dadas as suas preferências, creio que gostaria de permanecer na

floresta até que tanto o senhor como a rainha morram de velhice -

Lorde Petyr respondeu com um leve sorriso. - Não sendo isso

possível, creio que regressará assim que tiver matado alguma coisa.

Ao que parece, encontraram o veado branco... ou, antes, o que restou

dele. Uns lobos o encontraram primeiro e deixaram a Sua Graça

pouco mais que um casco e um chifre. Robert ficou furioso, até ouvir

falar de um javali monstruoso que vive mais no interior da floresta.

Daí em diante, nada estaria bem a não ser que ele o capturasse.

Príncipe Joffrey regressou hoje de manhã, com os Royce, Sor Balon

Swann e uns vinte outros membros do grupo. Os restantes

continuam com o rei.

- E Cão de Caça? - Ned franziu a testa. De todo o grupo dos

Lannister, era Sandor Clegane quem mais o preocupava, agora que

Sor Jaime fugira da cidade para ir se juntar ao pai.

- Ah, regressou com Joffrey e foi logo ter com a rainha - Mindinho

sorriu. - Teria dado cem veados de prata para ser uma barata nas

esteiras quando ele soube que Lorde Beric partiu para decapitar o

irmão.

- Até um cego vê que Cão de Caça detesta o irmão.

- Ah, mas Gregor é para e l e detestar, não para o senhor matar.

Depois de Dondarrion desbastar o cume da nossa Montanha, as

terras e rendimentos dos Clegane passarão para Sandor, mas não

prenderia a respiração à espera de agradecimentos daquele, não. E

agora, perdoe-me. A Senhora Tanda aguarda com as suas gordas

vitelas.

A caminho da porta, Lorde Petyr pousou os olhos no maciço volume

do Grande Meistre Malleon que estava sobre a mesa e fez uma pausa

para abrir vagarosamente a capa.

- A s l i n h a g e n s e h i s t ó r i a s d a s G r a n d e s C a s a s d o s S e t e

R e i n o s , c o m d e s c r i ç õ e s d e m u i t o s g r a n d e s s e n h o r e s e

n o b r e s s e n h o r a s e d e s e u s f i l h o s - leu. - Se alguma vez vi

uma leitura entediante, aqui está ela. Uma poção para dormir,

senhor?

Por um breve momento Ned considerou a hipótese de lhe contar

tudo, mas havia algo nas brincadeiras de Mindinho que o aborrecia.

O homem era muito mais esperto do que devia, sempre com um

sorriso de troça nos lábios.

-Jon Arryn estudava este volume quando adoeceu - disse Ned em

tom cauteloso, para ver como o outro responderia.

E o outro respondeu como respondia sempre: com um gracejo.

- Neste caso - disse -, a morte deve ter chegado como um abençoado

alívio - Lorde Petyr Baelish fez uma reverência e se retirou.

Eddard Stark permitiu-se uma praga, Além de seus próprios vassalos,

não havia ninguém naquela cidade em quem confiasse. Mindinho

escondera Catelyn e ajudara Ned em suas investigações, mas a pressa

em salvar a própria peie quando Jaime saíra da chuva com os

soldados ainda lhe irritava as feridas. Varys era pior, Com todas as

suas declarações solenes de lealdade, o eunuco sabia demais e fazia

muito pouco. O Grande Meistre Pycelle parecia-se mais com uma

criatura de Cersei a cada dia que passava, e Sor Barristan era velho e

rígido. Diria a Ned para cumprir seu dever.

O tempo era perigosamente curto. O rei devia regressar em breve da

caçada, e a honra obrigava Ned a contar-lhe tudo o que soubera.

Vayon Poole organizara as coisas de modo que Sansa e Arya

embarcassem na B r u x a d o s V e n t o s , de Bravos, dali a três dias.

Estariam de volta a Winterfell antes das colheitas. Ned já não podia

usar a preocupação com a segurança delas como desculpa para o

atraso.

Mas na noite anterior sonhara com os filhos de Rhaegar. Lorde

Tywin depositara os corpos sob o Trono de Ferro, envolvidos nos

mantos carmesins de sua guarda. Fora uma atitude inteligente; o

sangue não se notava tanto no pano vermelho. A pequena princesa

estava descalça, ainda vestida com a camisola, e o rapaz.,, o rapaz...

Ned não podia deixar que aquilo voltasse a acontecer. O reino não

suportaria um segundo rei louco, outra dança de sangue e vingança.

Tinha de encontrar algum modo de salvar as crianças.

Robert podia ser misericordioso. Sor Barristan estava longe de ser o

único homem que perdoara. O Grande Meistre Pycelle, Varys, a

Aranha, Lorde Balon Greyjoy; cada um deles esteve um dia entre os

inimigos de Robert, e todos foram bem-vindos à amizade e

autorizados a manter as honrarias e os cargos em troca de um

juramento de fidelidade. Desde que um homem fosse bravo e

honesto, Robert o trataria com toda a honra e o respeito devidos a

um inimigo valente.

Isto era outra coisa: veneno no escuro, uma faca arremessada à alma.

isto ele nunca poderia perdoar, tal como não era capaz de perdoar

Rhaegar. M a t a r á a t o d o s , compreendeu Ned.

E, no entanto, sabia que não podia se manter em silêncio. Tinha um

dever para com Robert, para com o reino, para com a sombra dejon

Arryn.. e para com Bran, que sem dúvida devia ter tropeçado em

alguma parte desta verdade. Que outro motivo teriam para tentar

assassiná-lo?

Durante a tarde mandou chamar Tomard, o guarda corpulento de

suíças ruivas a quem os filhos chamavam Gordo Tom. Com Jory

morto e Alyn distante, Gordo Tom tinha o comando de sua guarda

pessoal. A ideia encheu Ned com uma vaga inquietação. Tomard era

um homem sólido, afável, leal, incansável, capaz a seu modo limitado,

mas tinha quase cinquenta anos e nem mesmo na juventude fora

enérgico. Talvez Ned não devesse ter se precipitado a enviar para

longe metade dos seus guardas, e com todos os melhores

espadachins entre eles.

- Vou precisar da sua ajuda - disse Ned quando Tomard apareceu,

com o ar levemente apreensivo que tinha sempre que era chamado à

presença do seu senhor. - Leve-me ao bosque sagrado.

- Será sensato, Lorde Eddard? Com a sua perna e tudo?

Tomard chamou Varly. Com os braços em volta dos ombros dos dois

homens, Ned conseguiu descer os íngremes degraus da torre e

atravessar a muralha coxeando.

- Quero a guarda duplicada - disse a Gordo Tom. - Ninguém entra

ou sai da Torre da Mão sem a minha autorização.

Tom pestanejou.

- Senhor, com Alyn e os outros longe, já estamos sobrecarregados...

- Será só por pouco tempo. Aumente os turnos.

- Como quiser, senhor - respondeu Tom. - Posso perguntar por

quê...?

- E melhor não - Ned respondeu bruscamente.

O bosque sagrado estava vazio, como sempre estava naquela cidadela