Lorde Eddard, em que medida é diferente de Robert, de mim ou de
Jaime?
- Para começar - disse Ned -, não mato crianças. Seria bom me
escutar, senhora. Direi isto apenas uma vez. Quando o rei regressar
de sua caçada, pretendo colocar a verdade perante ele. Nesse
momento já deverá estar longe. A senhora e seus filhos, os três, e
não no Rochedo Casterly. Se fosse você, embarcaria para as Cidades
Livres, ou até para mais longe, para as Ilhas do Verão ou o Porto de
Ibben. Até tão longe quanto os ventos soprarem.
- Exílio - disse ela. - Uma taça amarga de onde beber.
- Uma taça mais doce do que a que o seu pai serviu aos filhos de
Rhaegar - Ned disse -, e mais bondosa do que merece. Seu pai e seus
irmãos fariam bem em ir com você. O ouro de Lorde Tywin lhe
comprará conforto e contratará soldados para mantê-la em
segurança. Irá precisar deles. Garanto-lhe, não importa para onde
fuja, a ira de Robert a seguirá até o fim do mundo se necessário.
A rainha se levantou.
- E a minha ira, Lorde Stark? - perguntou num tom suave. Seus
olhos esquadrinharam o rosto dele. - Devia ter ficado com o reino.
Estava livre para quem o tomasse. Jaime contou-me como você o
encontrou no Trono de Ferro no dia em que Porto Real caiu e o
obrigou a cedê-lo. Esse foi o seu momento. Tudo o que tinha de
fazer era subir aqueles degraus e se sentar. Um erro tão triste.
- Cometi mais erros do que pode imaginar, mas este não foi um
deles.
- Ah, mas foi, senhor - Cersei insistiu. - Quando se joga o jogo dos
tronos, ganha-se ou morre. Não existe meio-termo.
Ergueu o capuz para esconder o rosto inchado e o deixou ali, na
escuridão, sob o carvalho, no sossego do bosque sagrado, sob um céu
quase negro. As estrelas começavam a surgir.
Daenerys
O coração fumegava no ar frio da noite quando Khal Drogo o
depositou à sua frente, cru e sangrento. Os braços dele estavam
vermelhos até o cotovelo. Atrás, os companheiros de sangue
ajoelhavam ao lado do cadáver do garanhão selvagem com facas de
pedra nas mãos. O sangue do garanhão parecia negro sob o oscilante
clarão laranja dos archotes que rodeavam as altas paredes de calcário
do recinto,
Dany tocou o suave inchaço da barriga, Tinha a pele coberta de
gotículas de suor que lhe escorriam pela testa. Podia sentir as velhas
observando-a, as antigas feiticeiras de Vaes Dothrak, com olhos que
brilhavam, escuros como sílex polido, nos rostos enrugados. Não
devia vacilar nem parecer assustada. S o u d o s a n g u e d o d r a g ã o ,
disse a si mesma quando tomou o coração do garanhão em ambas as
mãos, o levou à boca e mergulhou os dentes na carne dura e fibrosa.
Sangue quente encheu-lhe a boca e escorreu-lhe pelo queixo. O sabor
ameaçou nauseá-la, mas obrigou-se a mastigar e a engolir. O coração
de um garanhão tornaria seu filho forte, ágil e destemido, ou pelo
menos era isso que os dothrakis pensavam, mas só se a mãe
conseguisse comê-lo todo. Caso se engasgasse com o sangue ou
vomitasse a carne, os presságios eram menos favoráveis; a criança
podia nascer morta ou, se sobrevivesse, podia vir fraca, deformada,
ou mulher.
As aias tinham-na ajudado a se preparar para a cerimônia. Apesar do
seu estômago fraco de mãe que a afligira ao longo das últimas duas
luas, Dany jantara tigelas de sangue meio coagulado para se habituar
ao sabor, e Irri a fizera mastigar bocados de carne-seca de cavalo até
deixá-la com os maxilares doloridos. Antes da cerimônia, jejuara
durante um dia e uma noite, na esperança de que a fome a ajudasse
a manter a carne crua no estômago.
O coração do garanhão selvagem era puro músculo, e Dany tinha de
dilacerá-lo com os dentes e mastigar cada bocado durante muito
tempo. Nenhum aço era permitido dentro das sagradas fronteiras de
Vaes Dothrak, sob a sombra da Mãe das Montanhas; tinha de rasgar
o coração com os dentes e as unhas. O estômago irritava-se e se
nauseava, mas ela insistiu, com o rosto manchado de sangue, que por
vezes parecia explodir contra os lábios.
Khal Drogo estava em pé ao seu lado enquanto ela comia, com o
rosto duro como um escudo de bronze. A longa trança negra
brilhava de óleo. Usava anéis de ouro no bigode, campainhas de ouro
na trança e um pesado cinto de medalhões de puro ouro em torno
da cintura, mas o tronco estava nu. Dany olhava-o sempre que sentia
que as forças lhe faltavam; olhava-o, e mastigava e engolia, mastigava
e engolia, mastigava e engolia. Por fim, julgou vislumbrar um orgulho
feroz em seus olhos escuros e amendoados, mas não tinha certeza.
Não era frequente que o rosto do k h a l traísse os pensamentos
interiores.
E, por fim, foi feito. Sentia o rosto e os dedos pegajosos enquanto
forçava os últimos bocados para baixo. Só então voltou a olhar para
as velhas mulheres, as feiticeiras do d o s h k h a l e e n .
- K h a l a k k a d o t h r a e m r ’ a n h a ! - Dany proclamou no seu
melhor dothraki. U m p r í n c i p e c a v a l g a d e n t r o d e m i m !
Treinara a frase durante dias com a aia Jhiqui.
A mais velha das feiticeiras, uma mulher que mais parecia um pau
dobrado e seco, com um único olho negro, ergueu bem alto os
braços.
- K h a l a k ka d o t h r ae ! - guinchou. O p rí n c i pe c av a lg a!
- E le c av a lg a! - responderam as outras mulheres, - R a k h ! R ak h !
R a k h h a j ! - proclamaram. U m r a p a z , u m r a p a z , u m f o r t e
r a p a z .
Soaram sinos, um súbito clangor de aves de bronze. Uma trombeta
de guerra de som profundo ressoou com sua longa nota grave. As
velhas iniciaram um cântico. Sob as vestes de couro pintado, os seios
murchos balançaram de um lado para o outro, brilhantes de óleo e
suor. Os eunucos que as serviam atiraram feixes de ervas secas sobre
um grande braseiro de bronze, e nuvens de fumaça odorífera
ergueram-se na direção da lua e das estrelas. Os dothrakis acredi-
tavam que as estrelas eram cavalos feitos de fogo, uma grande
manada que galopava pelo céu durante a noite.
Enquanto a fumaça subia, o cântico morreu e a feiticeira mais velha
fechou o único olho, a fim de melhor espreitar o futuro. O silêncio
que caiu foi total. Dany ouvia os chamamentos distantes de aves
noturnas, os silvos e estalidos dos archotes, o suave bater da água do
lago. Os dothrakis olharam-na com olhos de noite, à espera.
Khal Drogo pousou a mão sobre o braço de Dany. Ela sentia a tensão
de seus dedos. Mesmo um k h a l tão poderoso como Drogo conhecia
o medo quando a d o s h k h a l e e n espreitava a fumaça do futuro.
Atrás dela, as aias agitavam-se ansiosamente.
Por fim, a feiticeira abriu o olho e ergueu os braços.
- Vi seu rosto e ouvi o troar de seus cascos - proclamou numa voz
fina e vacilante.
- O troar de seus cascos! - responderam os outros em coro.
- Cavalga veloz como o vento, e atrás dele seu k h a la s ar cobre a
terra, homens sem-número, com a r a k h s brilhando nas mãos como