por entre peças de carne e bandejas apinhadas de ameixas, tâmaras e
romãs. Muitos dos homens estavam bêbados de leite coalhado de
égua, mas Dany sabia que naquela noite os a r a k h s não se
chocariam, não ali na cidade sagrada, onde as lâminas e o
derramamento de sangue eram proibidos.
Khal Drogo desmontou e ocupou seu lugar no banco elevado. Khal
Jommo e Khal Ogo, que já estavam em Vaes Dothrak com seus
k h a l a s a r e s quando o deles chegara, ficaram nos lugares de grande
honra, à esquerda e à direita de Drogo. Os companheiros de sangue
dos três k h a l s sentaram-se abaixo deles e, mais abaixo, as quatro
esposas de Khal Jommo.
Dany desceu de sua prata e entregou as rédeas a um dos escravos.
Enquanto Doreah e Irri lhe preparavam as almofadas, procurou pelo
irmão. Mesmo do outro lado do salão apinhado, Viserys seria fácil de
se notar com a sua pele clara, cabelos prateados e farrapos de
pedinte, mas não o via em lugar nenhum.
Seu olhar vagueou pelas mesas apinhadas junto às paredes, onde
homens cujas tranças eram ainda mais curtas que seus membros se
sentavam sobre tapetes puídos e almofadas achatadas em torno das
mesas baixas, mas todos os rostos que viu tinham olhos negros e
pele acobreada. Vislumbrou Sor Jorah Mormont perto do centro do
salão, nas imediações da fogueira do meio. Era um lugar de respeito,
se não de grande honra; os dothrakis estimavam a perícia do
cavaleiro com uma espada. Dany mandou Jhiqui trazê-lo para sua
mesa. Mormont veio de imediato e caiu sobre o joelho à sua frente,
- K h a l e e s i - disse -, estou às vossas ordens.
Dany deu palmadinhas na grossa almofada de couro de cavalo que
tinha ao lado.
- Sente-se e converse comigo.
- Será uma honra - o cavaleiro sentou-se na almofada com as pernas
cruzadas. Um escravo ajoelhou-se à sua frente, oferecendo uma
bandeja de madeira cheia de figos maduros. Sor Jorah pegou um e
arrancou metade com uma dentada.
- Onde está meu irmão? - Dany perguntou. - Já deveria ter chegado
para o banquete.
- Vi Sua Graça hoje de manhã - ele respondeu. - Disse-me que ia ao
Mercado Ocidental, em busca de vinho.
- Vinho? - a voz de Dany tinha tom de dúvida. Sabia que Viserys não
conseguia se habituar ao gosto do leite fermentado de égua que os
dothrakis bebiam, e por aqueles dias era frequente encontrá-lo nos
bazares bebendo com os mercadores que chegavam nas grandes
caravanas do leste e do oeste. Parecia achar a companhia deles mais
agradável que a sua.
- Vinho - confirmou Sor Jorah -, e alimenta algumas ideias de
recrutar homens para o seu exército entre os mercenários que
guardam as caravanas - uma criada depositou uma torta de sangue
na sua frente, e o cavaleiro a atacou com ambas as mãos,
- Será isso sensato? - Dany perguntou. - Ele não tem ouro para pagar
a soldados. E se for traído? - os guardas das caravanas raramente
eram muito perturbados por pensamentos sobre honra, e o
Usurpador em Porto Real pagaria bem pela cabeça do irmão. - Devia
ter ido com ele, para mantê-lo a salvo. O senhor é seu juramentado.
- Estamos em Vaes Dothrak - lembrou-lhe. - Aqui ninguém pode
transportar uma lâmina ou derramar o sangue de um homem.
- Apesar disso, os homens morrem. Jhogo contou-me. Alguns dos
mercadores têm consigo eunucos, homens enormes que estrangulam
ladrões com faixas de seda. Desse modo, nenhum sangue é
derramado e os deuses não se zangam.
- Então, esperemos que seu irmão seja suficientemente sensato para
não roubar nada - Sor Jorah limpou a gordura da boca com as costas
da mão e aproximou-se por sobre a mesa. - Ele tinha planejado
roubar seus ovos de dragão, mas o preveni de que lhe cortaria a mão
se os tocasse.
Por um momento Dany sentiu-se tão chocada que não encontrou
palavras.
- Os meus ovos... mas são m e u s , Magíster Illyrio os deu para mim,
uma prenda de noivado, por que quereria Viserys... são apenas
pedras...
- O mesmo poderia ser dito de rubis, diamantes e opalas de fogo,
princesa... e ovos de dragão são de longe mais raros. Aqueles
mercadores com quem ele tem bebido venderiam os próprios
membros viris por apenas uma dessas p e d r a s , e, com as três,
Viserys poderia comprar tantos mercenários quanto quisesse.
Dany não sabia, nem sequer suspeitara.
- Então.. ele devia ficar com eles. Não precisa roubá-los. Só tinha de
pedir. Ele é meu irmão... e o meu rei verdadeiro.
- Ele é seu irmão - reconheceu Sor Jorah.
- Não compreende, sor - ela disse, - Minha mãe morreu ao dar-me à
luz, e meu pai e meu irmão Rhaegar morreram ainda antes. Nunca
teria aprendido nem sequer os seus nomes se Viserys não estivesse lá
para me ensinar. Foi o único que restou. O único. É tudo o que
tenho.
- Outrora, sim - disse Sor Jorah. - Mas agora não, kh a le e si. Agora
pertence aos dothrakis. Em seu ventre cavalga o garanhão que monta
o mundo - ergueu a taça e uma escrava a encheu de leite de égua
fermentado, de cheiro azedo e espesso de grumos.
Dany mandou a escrava embora com um gesto. Até o cheiro da
bebida a fazia sentir-se agoniada, e não queria correr nenhum risco
de pôr para fora o coração de cavalo que se forçara a comer.
- Que significa isso? - ela perguntou. - O que é este garanhão? Todo
mundo estava gritando isso, mas eu não compreendo.
- O garanhão é o k h a l dos k h al s prometido numa antiga profecia,
menina. Ele vai unir os dothrakis num único k h a l a s a r e cavalgar
até o fim do mundo, ou pelo menos é essa a promessa. Todas as
pessoas do mundo serão a sua manada.
- Ah - disse Dany com voz fraca. A mão alisou o roupão sobre a
barriga inchada. - Chamei-o Rhaego.
- Um nome que congelará o sangue do Usurpador. De repente,
Doreah começou a puxá-la pelo cotovelo.
- Senhora - sussurrou a aia em tom urgente -, vosso irmão...
Dany olhou para a extremidade do longo salão sem teto e ali estava
ele, encaminhando-se a passos largos na sua direção. Pelo
desequilíbrio no andar, compreendeu de imediato que Viserys
encontrara o seu vinho... e algo que se passava por coragem.
Vestia suas sedas escarlates, enodoadas e manchadas pela viagem. A
capa e as luvas eram de veludo negro, desbotado pelo sol. As botas
estavam secas e fendidas, os cabelos prateados, baços e emaranhados.
Uma espada balançava, presa ao cinto, enfiada numa bainha de
couro. Os dothrakis fitavam a espada enquanto ele passava. Dany
ouviu pragas, ameaças e murmúrios zangados que se erguiam de
todos os lados, como uma maré. A música extinguiu-se num gaguejo
nervoso de tambores.
Uma sensação de terror apertou-se em torno de seu coração.
- Vá até ele - ordenou a Sor Jorah. - Pare-o. Traga-o aqui. Diga-lhe
que pode ficar com os ovos de dragão se for isso que deseja - o
cavaleiro pôs-se rapidamente em pé.
- Onde está minha irmã? - gritou Viserys, com a voz espessa de
vinho. - Cheguei para o seu banquete. Como se atrevem a começar
sem mim? Ninguém come antes do rei. Onde está ela? A puta não