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Mormont.

- Não, senhor - Sam respondeu numa voz fina e nervosa. Jon sabia

que os grandes oficiais o assustavam, e o Velho Urso acima de todos.

- Recebi o nome à luz dos Sete no septo de Monte Chifre, tal como

meu pai, e o pai dele, e todos os Tarly ao longo de mil anos.

- Por que quer abandonar os deuses de seu pai e sua Casa? - quis

saber Sor Jaremy Rykker.

- A Patrulha da Noite é agora a minha Casa - Sam respondeu. - Os

Sete nunca responderam às minhas preces. Talvez os deuses antigos

o façam.

- Como quiser, rapaz - disse Mormont. Sam voltou a se sentar e o

mesmo fez Jon. - Colocamos cada um de vocês numa Ordem que

mais se adapta às nossas necessidades e aos seus pontos fortes e

perícias - Bowen Marsh avançou e entregou-lhe um papel. O Senhor

Comandante desenrolou-o e começou a ler. - Halder, para os

construtores - começou. Halder fez um aceno rígido de aprovação. -

Grenn, para os patrulheiros. Albett, para os construtores. Pypar, para

os patrulheiros - Pyp olhou para Jon e sacudiu as orelhas. - Samwell,

para os intendentes - Sam descaiu de alívio, limpando a testa com

um lenço de seda. - Matthar, para os patrulheiros. Dae-ron, para os

intendentes. Todder, para os patrulheiros. Jon, para os intendentes.

Os intendentes? Por um momento Jon não conseguiu acreditar no

que ouvira. Mormont devia ter lido errado. Começou a erguer-se, a

abrir a boca, a dizer-lhes que tinha havido um engano.. e então viu

que Sor Alliser o estudava, com os olhos brilhantes como duas lascas

de obsidiana, e compreendeu.

O Velho Urso enrolou o papel.

- Seus chefes irão instruí-los quanto aos seus deveres. Que todos os

deuses os protejam, irmãos - o Senhor Comandante concedeu-lhes

uma meia reverência e se retirou. Sor Alliser foi com ele, com um

tênue sorriso no rosto. Jon nunca vira o mestre de armas com um ar

tão feliz.

- Patrulheiros, comigo - gritou Sor Jaremy Rykker depois de eles

partirem. Pyp não tirou os olhos de Jon enquanto se pôs lentamente

em pé. Tinha as orelhas vermelhas. Grenn, com um largo sorriso, não

parecia compreender que havia algo de errado. Matt e Sapo

juntaram-se a eles e saíram do septo atrás de Sor Jaremy.

- Construtores - anunciou Othell Yarwyck, com seu queixo em forma

de lanterna, Halder e Albett saíram em seu rastro.

Jon olhou em volta com incredulidade nauseada. Os olhos cegos de

Meistre Aemon estavam erguidos para a luz que não podia ver. O

septão arrumava cristais no altar. Só Sam e Daeron permaneciam

nos bancos; um gordo, um cantor.,. e ele.

O Senhor Intendente Bowen Marsh esfregou as mãos roliças.

- Samwell, vai prestar assistência a Meistre Aemon no viveiro dos

corvos e na biblioteca. Chett vai para os canis, ajudar com os cães de

caça. Deverá ter sua cela, para estar perto do meistre noite e dia.

Espero que tome conta dele bem. É muito velho e muito precioso

para nós. Daeron, dizem-me que cantou à mesa de muitos grandes

senhores e partilhou da sua comida e bebida. Vamos enviá-lo para

Atalaialeste. Pode ser que o seu paladar seja útil a Cotter Pyke

quando as galés mercantes chegarem para fazer negócio. Estamos

pagando demais por carne salgada e peixe de salmoura, e a qualidade

do azeite que temos recebido tem sido tenebrosa. Apresente-se a

Bóreas quando chegar, ele o manterá ocupado entre navios.

Marsh virou seu sorriso para Jon.

- O Senhor Comandante Mormont requisitou-o como seu intendente

pessoal, Jon. Dormirá numa cela sob seus aposentos, na torre do

Senhor Comandante.

- E quais serão meus deveres? - perguntou Jon em tom cortante. -

Servirei as refeições do Senhor Comandante, o ajudarei a prender

suas roupas, irei buscar água quente para seu banho?

- Com certeza - Marsh franziu as sobrancelhas perante o tom de Jon.

- E transmitirá suas mensagens, manterá um fogo ardendo em seus

aposentos, trocará seus lençóis e cobertores todos os dias e fará tudo

o que o Senhor Comandante lhe ordenar,

- Toma-me por um criado?

- Não - disse Meistre Aemon do fundo do septo. Clydas o ajudou a

pôr-se em pé. - Toma-mos-o por um homem da Patrulha da Noite...

mas talvez nos tivéssemos enganado.

Tudo o quejón conseguiu fazer foi impedir-se de sair. Esperariam

que batesse leite para fazer manteiga e cosesse gibões como uma

moça para o resto de seus dias?

- Posso ir? - perguntou rigidamente.

- Como quiser - respondeu Bowen Marsh.

Daeron e Sam saíram com ele. Desceram em silêncio até o pátio. Lá

fora, Jon olhou a Muralha que brilhava ao sol, com o gelo que

derretia escorrendo pelo flanco numa centena de estreitos dedos. A

raiva de Jon era tanta que teria esmagado tudo aquilo num instante,

e o mundo que se danasse.

- Jon - disse Samwell Tarly num tom excitado. - Espere. Não percebe

o que eles estão fazendo?

Jon virou-se para ele, em fúria.

- Vejo a maldita mão de Sor Alliser, é o que vejo. Quis me

envergonhar, e conseguiu. Daeron deu-lhe um olhar carrancudo.

- Ser intendente é bom para gente como você e eu, Sam, mas não

para Lorde Snow.

- Sou melhor espadachim e melhor cavaleiro que qualquer um de

vocês - exclamou Jon em resposta. - Não é j u s t o l

-Justo? - disse Daeron em tom de escárnio. - A moça estava à minha

espera, nua como no dia em que nascera. Puxou-me pela janela, e

fala do que é j u s t o ? - e afastou-se.

- Não há vergonha em ser um intendente - disse Sam.

- Pensa que quero passar o resto da vida lavando as roupas de baixo

de um velho?

- O velho é o Senhor Comandante da Patrulha da Noite - relembrou-

lhe Sam. - Estará com ele dia e noite. Sim, servirá seu vinho e

verificará se sua roupa de cama está lavada, mas também

transportará suas cartas, o ajudará em reuniões, servirá como seu

escudeiro em batalha. Estará tão perto dele como uma sombra.

Saberá de tudo, fará parte de tudo.. e o Senhor Intendente disse que

Mormont o pediu p e s s o a l m e n t e . Quando eu era pequeno, meu

pai costumava insistir que o ajudasse na sala de audiências sempre

que as concedesse. Quando ia a Jardim de Cima dobrar o joelho ao

Lorde Tyrell, obrigava-me a ir também. Mas mais tarde começou a

levar Dickon e me deixar em casa, e já não se importava se eu estava

presente em suas audiências, desde que Dickon lá estivesse. Queria

seu h e r d e i r o a seu lado, não vê? Para observar e ouvir, e aprender

com aquilo que fazia. Aposto que é por isso que Lorde Mormont te

requisitou, Jon. Que outra coisa poderia ser? Quer prepará-lo para o

c o m a n d o 1 .

Jon foi apanhado de surpresa. Era verdade, Lorde Eddard fizera com

frequência com que Robb participasse de seus conselhos em

Winterfell. Poderia Sam ter razão? Mesmo um bastardo podia

ascender a grande altura na Patrulha da Noite, dizia-se.

- Nunca pedi isto - disse teimosamente.

- Nenhum de nós está aqui por ter p e d i d o - relembrou-lhe Sam. E

de súbito Jon Snow sentiu-se envergonhado.

Covarde ou não, Samwell Tarly encontrara a coragem de enfrentar

seu destino como um homem. N a M u r a l h a , u m h o m e m s ó