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o b t é m a q u i l o q u e g a n h a , dissera Benjen Stark na última noite

em que Jon o vira vivo. N ã o é n e n h u m p a t r u l h e i r o . J o n , n ã o

p a s s a d e u m r a p a z v e r d e a i n d a c h e i r a n d o a v e r ã o .

Ouvira dizer que os bastardos cresciam mais depressa que as outras

crianças; na Muralha, ou se crescia ou se morria.

Jon soltou um profundo suspiro.

- Tem razão. Estava agindo como uma criança.

- Então ficará e dirá as suas palavras comigo?

- Os velhos deuses estão à nossa espera - obrigou-se a sorrir.

Partiram ao fim da tarde. A Muralha não tinha portões propriamente

ditos, nem ali em Castelo Negro nem em ponto algum das suas

trezentas milhas. Levaram os cavalos por um túnel estreito cortado

no gelo, com paredes frias e escuras apertando-se à volta deles

enquanto a passagem se retorcia e curvava. Três vezes viram o

caminho bloqueado por grades de ferro, e tiveram que parar

enquanto Bowen Marsh pegava as chaves e destrancava as maciças

correntes que as seguravam. Jon conseguia sentir o vasto peso que se

encontrava sobre sua cabeça enquanto esperava atrás do Senhor

Intendente. O ar estava mais frio que uma tumba, e mais parado

também. Sentiu um estranho alívio quando voltaram a emergir para

a luz da tarde do lado norte da Muralha.

Sam piscou com o súbito clarão e olhou em volta com apreensão.

- Os selvagens... eles não... eles nunca se atreveriam a aproximar-se

tanto da Muralha, não?

- Nunca o fizeram - Jon subiu na sela. Depois de Bowen Marsh e sua

escolta de patrulheiros terem montado, Jon pôs dois dedos na boca e

assobiou. Fantasma saiu aos saltos do túnel.

O cavalo do Senhor Intendente relinchou e afastou-se do lobo

selvagem.

- Pretende trazer esse animal?

- Sim, senhor - disse Jon. A cabeça de Fantasma ergueu-se, Parecia

saborear o ar. Num piscar de olhos tinha partido, correndo através

do largo campo coberto de ervas daninhas até desaparecer entre as

árvores.

Uma vez na floresta, encontraram-se num mundo diferente. Jon

caçara frequentemente com o pai, Jory e o irmão Robb. Conhecia a

Mata de Lobos que rodeava Winterfell tão bem como qualquer outro

homem. A floresta assombrada era muito parecida, mas a sensação

que projetava era muito diferente.

Talvez tudo estivesse no conhecimento. Tinham cavalgado até depois

do fim do mundo; de certa forma, isso mudava tudo. Cada sombra

parecia mais escura, cada som, mais agourento. As árvores

apertavam-se e afastavam a luz do sol poente. Uma fina crosta de

neve fendia-se sob os cascos dos cavalos, com um som que fazia

lembrar o quebrar de ossos. Quando o vento fazia restolhar as folhas,

era como se um dedo gelado desenhasse um percurso ao longo da

espinha de Jon. A Muralha estava nas suas costas, e só os deuses

sabiam o que tinham à frente.

O sol afundava-se atrás das árvores quando alcançaram seu destino,

uma pequena clareira nas profundezas da floresta, onde nove

represeiros cresciam num círculo grosseiro. Jon prendeu a respiração

e viu Sam Tarly olhar fixamente. Mesmo na Mata de Lobos, nunca se

viam mais de duas ou três das árvores brancas crescerem juntas; um

grupo de nove era inaudito. O chão da floresta encontrava-se

atapetado de folhas caídas, vermelhas como sangue no topo, negras

de podridão por baixo. Os grandes troncos lisos eram pálidos como

ossos, e nove caras olhavam para dentro. A seiva seca que se

encrostou nos olhos era vermelha e dura como rubi. Bowen Marsh

ordenou-lhes que deixassem os cavalos fora do círculo.

- Este é um lugar sagrado, não o profanaremos.

Quando entraram no bosque, Samwell Tarly virou-se lentamente,

olhando para uma das caras de cada vez. Não havia duas iguais.

- Eles nos observam - sussurrou. - Os deuses antigos.

- Sim - Jon ajoelhou, e Sam ajoelhou a seu lado.

Proferiram as palavras em conjunto, enquanto a última luz

desaparecia a oeste e o dia cinzento se transformava em noite negra.

- Escutem as minhas palavras e testemunhem os meus votos -

recitaram, com as vozes enchendo o bosque penumbroso. - A noite

chega, e agora começa a minha vigia. Não terminará até minha

morte. Não tomarei esposa, não possuirei terras, não gerarei filhos.

Não usarei coroas e não conquistarei glórias. Viverei e morrerei no

meu posto. Sou a espada na escuridão. Sou o vigilante nas muralhas.

Sou o fogo que arde contra o frio, a luz que traz consigo a alvorada,

a trombeta que acorda os que dormem, o escudo que defende os

reinos dos homens. Dou a minha vida e a minha honra à Patrulha da

Noite, por esta noite e por todas as noites que estão para vir.

A floresta caiu no silêncio.

- Ajoelharam como rapazes - entoou solenemente Bowen Marsh. -

Ergueram-se agora como homens da Patrulha da Noite.

Jon estendeu a mão para ajudar Sam a pôr-se de novo em pé. Os

patrulheiros aproximaram--se para oferecer sorrisos e parabéns;

todos, menos o velho e áspero lenhador Dywen,

- É melhor nos colocarmos a caminho, senhor - disse ele a Bowen

Marsh. - A escuridão está caindo e há qualquer coisa no cheiro da

noite que não me agrada.

E, de repente, Fantasma estava de volta, caminhando silenciosamente

entre dois represeiros. P e l o b r a n c o e o l h o s v e r m e l h o s , Jon

percebeu, intranquilo. C o m o a s á r v o r e s . . . O lobo tinha qualquer

coisa entre as mandíbulas. Qualquer coisa negra.

- Que tem ele ali? - perguntou Bowen Marsh, franzindo a testa.

- A mim, Fantasma. - Jon ajoelhou. - Traga aqui.

O lobo selvagem trotou até ele. Jon ouviu a brusca inspiração de

Samwell Tarly.

- Que os deuses sejam bons - murmurou Dywen. - Isto é uma mão.

Eddard

A luz cinzenta da alvorada jorrava através de sua janela quando o

trovão dos cascos acordou Eddard Stark de seu breve sono exausto.

Ergueu a cabeça da mesa para olhar para o pátio. Lá embaixo,

homens revestidos de cota de malha e mantos carmesins faziam a

manhã ressoar ao som de espadas e derrubavam falsos guerreiros

recheados de palha. Ned observou Sandor Clegane, que galopava pela

dura terra batida e espetava uma lança de ponta de aço na cabeça de

um espantalho. A tela foi rompida e palha se espalhou ao som das

piadas e pragas dos guardas Lannister.

S e r á e s t e b r a v o e s p e t á c u l o p a r a m e u b e n e f í c i o ? ,

perguntou a si mesmo. Se fosse, Cersei era mais tola do que ele

imaginara. M a l d i t a s e j a , pensou, p o r q u e n ã o f u g i u e s t a

m u l h e r ? D e i - l h e o p o r t u n i d a d e a t r á s d e o p o r t u n i d a d e . . .

A manhã estava encoberta e sombria. Ned tomou o café da manhã

com as filhas e Septã Mordane. Sansa, ainda desconsolada, ficou

olhando, carrancuda, para a comida e recusou-se a comer, mas Arya

devorou tudo o que lhe foi posto à frente.

- Syrio diz que temos tempo para uma última lição antes de

embarcarmos esta noite - ela disse. - Posso, pai? Tenho todas as