de vista, Que fariam se a vissem correndo através do pátio? Vista lá
de cima, ela devia parecer muito pequena; seriam eles capazes de
reconhecê-la? E se importariam?
Disse a si mesma que tinha de se pôr andando a g o r a , mas quando
o momento chegou descobriu-se assustada demais para se mover.
C a l m a c o m o á g u a s p a r a d a s , sussurrou-lhe uma pequena voz
ao ouvido. Arya ficou tão sobressaltada que quase deixou cair a
trouxa. Olhou vivamente em volta, mas não havia ninguém no
estábulo além dela, dos cavalos e dos homens mortos.
S i l e n c i o s a c o m o u m a s o m b r a , ouviu. Seria sua voz ou a de
Syrio? Não saberia dizer, mas de algum modo a voz acalmou-lhe os
receios.
Deu um passo para fora do estábulo.
Foi a coisa mais assustadora que já fizera. Quis fugir e esconder-se,
mas obrigou-se a c a m i n h a r através do pátio, lentamente,
colocando um pé à frente do outro como se tivesse todo o tempo do
mundo e nenhuma razão para temer fosse quem fosse. Pareceu-lhe
que conseguia sentir os olhos deles, como bichos rastejando pela sua
pele sob a roupa. Nunca olhou para cima. Sabia que, se os visse, toda
a coragem a abandonaria, e deixaria cair a trouxa de roupa e fugiria
chorando como um bebê, e então eles a teriam nas mãos. Manteve os
olhos no chão.
Quando atingiu a sombra do septo real, do outro lado do pátio,
estava gelada de suor, mas ninguém dera o alarme.
O septo estava aberto e vazio. Lá dentro, meia centena de velas de
oração ardia num silêncio odorífero. Arya achou que os deuses nunca
dariam pela falta de duas. Apagou-as, enfiou-as nas mangas e saiu
por uma janela dos fundos. Esgueirar-se até a viela onde encurralara
o gato zarolho foi fácil, mas depois disso se perdeu. Rastejou para
dentro e para fora de janelas, saltou por cima de muros e atravessou
caves escuras às apalpadelas, silenciosa como uma sombra. Ouviu
uma mulher chorar. Levou mais de uma hora para encontrar a janela
baixa e estreita que se inclinava para a masmorra onde os monstros
a esperavam.
Atirou a trouxa pela janela e voltou atrás para acender a vela. Foi um
risco; a fogueira que se lembrava de ter visto tinha se reduzido a
brasas, e ouviu vozes quando soprava os carvões. Pondo os dedos em
taça em volta da tremeluzente vela, saiu pela janela no momento em
que os donos das vozes entravam pela porta, mas não chegou a vê-
los, nem mesmo de relance.
Daquela vez os monstros não a assustaram. Pareciam quase velhos
amigos. Arya segurou a vela acima da cabeça. A cada passo que dava,
as sombras moviam-se contra as paredes, como se se virassem para
vê-la passar.
- Dragões - sussurrou. Tirou Agulha de dentro da capa. A esguia
lâmina parecia muito pequena e os dragões, muito grandes, mas de
alguma forma ela se sentia melhor com o aço na mão.
O longo salão sem janelas que se estendia para lá da porta era tão
negro como Arya recordava. Empunhou Agulha com a mão esquerda,
sua mão da espada, e a vela com a direita. Cera quente escorria-lhe
pelos nós dos dedos. A boca do poço ficava do lado esquerdo;
portanto, virou para a direita. Parte dela queria correr, mas tinha
medo de apagar a vela. Ouviu os tênues guinchos das ratazanas e
vislumbrou um par de minúsculos olhos brilhantes no limite da luz,
mas ratazanas não a assustavam. Outras coisas sim. Seria tão fácil
esconder-se ali, como ela se escondera do feiticeiro e do homem com
a barba bifurcada. Quase conseguia ver o cavalariço em pé contra a
parede, de mãos enroladas em garras, com o sangue ainda pingando
dos profundos golpes nas palmas, onde Agulha as cortara. Podia
estar à espera de agarrá-la quando passasse. Veria sua vela se
aproximando de uma grande distância. Arya talvez ficasse melhor
sem a luz..
O m e d o g o l p e i a m a i s p r o f u n d a m e n t e q u e a s e s p a d a s ,
segredou a voz baixa dentro dela. De repente, Arya lembrou-se das
criptas de Winterfell. Disse a si mesma que eram muito mais assus-
tadoras que aquele lugar. Era apenas uma menininha quando as vira
pela primeira vez. Seu irmão Robb os levara até lá embaixo, ela,
Sansa e o bebê Bran, que então não era maior que Rickon era agora.
Possuíam apenas uma vela para todos, e os olhos de Bran tinham se
tornado grandes como pires quando ele olhara as caras de pedra dos
Reis do Inverno, com os lobos a seus pés e as espadas de ferro sobre
as pernas.
Robb levara-os bem até o fundo, para lá do avô, de Brandon e de
Lyanna, para lhes mostrar suas próprias sepulturas. Sansa não tirara
os olhos da velinha atarracada, temendo que se apagasse. A Velha
Ama dissera-lhe que ali embaixo havia aranhas e ratazanas do
tamanho de cães. Robb sorrira quando ela disse aquilo, "Há coisas
piores que aranhas e ratazanas", sussurrara. "É aqui que os mortos
caminham," Foi então que ouviram o som, baixo, profundo e trêmulo.
O pequeno Bran agarrara-se à mão de Arya.
Quando o espírito saíra da tumba aberta, branco e gemendo por
sangue, Sansa fugira aos gritos para a escada, e Bran enrolara-se na
perna de Robb, soluçando. Arya mantivera-se firme e dera um murro
no espírito. "Seu estúpido", dissera-lhe, "assustou o bebê", mas Jon e
Robb limitaram-se a rir, e em breve Bran e Arya também começaram
a rir.
A recordação a fez sorrir, e dali em diante a escuridão deixou de
conter terrores. O cavalariço estava morto, ela o matara e, se ele
saltasse sobre ela, o mataria de novo. Arya ia para casa. Tudo seria
melhor quando estivesse de novo em casa, segura entre as muralhas
cinzentas de granito de Winterfell.
Seus passos fizeram correr suaves ecos à frente enquanto
mergulhava mais profundamente na escuridão.
Sansa
Vieram buscar Sansa no terceiro dia.
Escolheu um vestido simples de lã cinza-escuro, com um corte
despretensioso, mas ricamente bordado em volta do colarinho e das
mangas. Sentiu os dedos grossos e desajeitados enquanto lutava com
as presilhas de prata sem a ajuda de criados, Jeyne Poole fora
confinada com ela, mas Jeyne não servia para nada, Tinha a cara
inchada de tanto chorar, e não parecia ser capaz de parar de soluçar
por causa do pai.
- Estou certa de que seu pai está bem - Sansa lhe disse, quando
finalmente conseguiu abotoar bem o vestido. - Pedirei à rainha que a
deixe vê-lo - pensou que a gentileza talvez melhorasse o estado de
espírito de Jeyne, mas a moça limitou-se a olhá-la com olhos
vermelhos e inchados, e pôs-se a chorar ainda mais. Era uma
c r i a n ç a .
Sansa também tinha chorado, no primeiro dia. Mesmo dentro dos
robustos muros da Fortaleza de Maegor, com a porta fechada e
trancada, era difícil não ficar aterrorizada quando a matança
começou. Crescera ao som do aço, no pátio, e dificilmente se passara
um dia da sua vida em que não tivesse escutado o estrondo de
espadas que se cruzavam, mas saber que a luta era real fazia toda a
diferença do mundo. Ouvira esse som como nunca o tinha ouvido
antes, e também outros, grunhidos de dor, pragas iradas, gritos por