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Desceu do seu pequeno cavalo, entregando as rédeas a Jon. A manhã

estava anormalmente quente; gotas de suor salpicavam a larga testa

do Senhor Comandante como orvalho num melão. Seu cavalo estava

nervoso, rolando os olhos, afastando-se dos mortos o mais que a

rédea permitia. Jon o levou alguns passos para trás, lutando para

evitar que fugisse. Os cavalos não gostavam daquele lugar. Na

verdade, Jon também não.

Os cães eram os que gostavam menos. Fantasma levara o grupo até

ali; a matilha de cães de caça mostrara-se inútil. Quando Bass, o

mestre dos canis, tentou fazer com que sentissem o cheiro da mão

cortada, tinham enlouquecido, uivando e ladrando, lutando para

escapar. Mesmo agora, ora rosnavam ora ganiam, puxando as

correias enquanto Chett os amaldiçoava, chamando-os de covardes.

E s ó u m a f l o r e s t a , disse Jon a si mesmo, e e l e s s ã o s ó

c a d á v e r e s . Já vira cadáveres antes...

Na noite anterior, tivera de novo o sonho de Winterfell. Vagueava

pelo castelo vazio, à procura do pai, descendo até as criptas. Só que

dessa vez o sonho tinha ido mais longe do que nas anteriores. Na

escuridão, ele ouviu o raspar de pedra em pedra. Quando se virou,

viu que os jazigos estavam se abrindo, um após o outro. Quando os

reis mortos começaram a sair, aos tropeções, de suas sepulturas frias

e negras, Jon acordou numa escuridão de breu, com o coração

batendo fortemente no peito. Nem quando Fantasma saltou para a

cama e lhe encostou o focinho no rosto conseguiu afastar aquele

profundo sentimento de horror. Não se atreveu a dormir novamente.

Em vez disso, subiu à Muralha e caminhou, inquieto, até ver a luz da

alvorada surgir no leste. F o i s ó u m s o n h o . S o u a g o r a u m

i r m ã o d a P a t r u l h a d a N o i t e , n ã o u m r a p a z a s s u s t a d o .

Samwell Tarly encolhia-se sob as árvores, meio escondido atrás dos

cavalos. Seu rosto gordo e redondo estava da cor de leite coalhado,

Ainda não tinha cambaleado até a floresta para vomitar, mas também

não olhara para os mortos, nem de relance.

- Não posso olhar - sussurrou com ar infeliz.

- Tem de olhar - disse-lhe Jon, mantendo a voz baixa para que os

outros não o ouvissem. - Meistre Aemon o enviou para lhe servir de

olhos, não foi? De que servem os olhos se estiverem fechados?

- Sim, mas.. sou tão covarde, Jon, Jon pousou a mão no ombro de

Sam.

- Temos conosco uma dúzia de patrulheiros, os cães, e até Fantasma.

Ninguém te fará mal, Sam. Vai e olha. A primeira olhadela é a mais

difícil.

Sam fez um aceno trêmulo, tentando ganhar coragem com um

esforço visível. Lentamente girou a cabeça. Os olhos abriram-se

muito, mas Jon segurou seu braço para que não pudesse se virar.

- Sor Jaremy - perguntou bruscamente o Velho Urso -, Ben Stark

tinha consigo seis homens quando se afastou da Muralha. Onde estão

os outros?

Sor Jaremy balançou a cabeça.

- Bem gostaria de saber.

Foi evidente que a resposta não agradou a Mormont.

- Dois de nossos irmãos assassinados quase à vista da Muralha, e, no

entanto, seus patrulheiros não ouviram nem viram nada. Foi a isto

que a Patrulha da Noite se reduziu? Ainda varremos estes bosques?

- Sim, senhor, mas. .

- Ainda montamos vigias?

- Montamos, mas. .

- Este homem tem um corno de caça - Mormont apontou para

Othor. - Deverei supor que ele morreu sem o fazer soar? Ou será

que seus patrulheiros ficaram todos não apenas cegos, mas também

surdos?

Sor Jaremy eriçou-se e seu rosto ficou tenso de ira.

- Não foi soprado nenhum corno, senhor, caso contrário, meus

patrulheiros teriam ouvido. Não tenho homens suficientes para

montar tantas patrulhas como gostaria.. e desde que Benjen se

perdeu, temos permanecido mais perto da Muralha do que

costumávamos ficar antes, por vossa ordem.

O Velho Urso soltou um grunhido.

- Sim. Bom. Seja como quiser - fez um gesto impaciente. - Diga-me

como eles morreram.

Agachando-se ao lado do homem que se chamava Jafer Flowers, Sor

Jaremy o agarrou pelos cabelos, que se quebraram entre os dedos

como palha, O cavaleiro praguejou e bateu-lhe na cara com o pulso.

Um grande golpe abriu-se na parte lateral do pescoço do cadáver,

como uma boca coberta por uma crosta de sangue seco. Só alguns

tendões brancos ainda prendiam a cabeça ao pescoço.

- Isto foi feito com um machado.

- Sim - murmurou Dywen, o velho lenhador, - Talvez o machado que

Othor levava, senhor.

Jon sentia o café da manhã às voltas no estômago, mas apertou os

lábios e obrigou-se a olhar para o segundo corpo. Othor era um

homem grande e feio, e transformara-se num cadáver grande e feio

também. Não se via nenhum machado. Jon lembrava-se de Othor; era

um dos que berravam a canção obscena quando os patrulheiros

partiram. Seus dias de cantor tinham terminado. A pele empalidecera

até se tornar branca como leite em todo o corpo, menos nas mãos,

que estavam negras, como as de Jafer. Gotas de sangue gretado

decoravam as feridas fatais que o cobriam como num ataque de

brotoeja, no peito, nas virilhas e na garganta. Mas os olhos ainda

estavam abertos. Fixos no céu, azuis como safiras.

Sor Jaremy pôs-se em pé.

- Os selvagens também têm machados. Sor Mormont curvou-se para

ele.

- Acredita então que isto foi obra de Mance Rayder? Tão perto da

Muralha?

- Quem mais poderia ser, senhor?

Jon podia ter-lhe dito. Sabia, todos eles sabiam; mas nenhum deles

queria proferir as palavras. Os Outros são só uma história, uma

fábula para fazer tremer as crianças. Se alguma vez viveram de fato,

desapareceram há oito mil anos. Só de pensar nessa hipótese, sentiu-

se tolo; era agora um homem-feito, um irmão negro da Patrulha da

Noite, não o rapaz que em tempos passados se sentou aos pés da

Velha Ama com Bran, Robb e Arya.

Mas o Senhor Comandante Mormont bufou.

- Se Ben Stark tivesse sido atacado por selvagens à meio dia de

viagem de Castelo Negro, teria regressado em busca de mais homens,

teria perseguido os assassinos até os sete infernos e teria me trazido

suas cabeças.

- A não ser que também tenha sido morto.

As palavras magoaram, mesmo naquela altura. Passara-se tanto

tempo que parecia loucura agarrar-se à esperança de que Ben Stark

ainda estivesse vivo, mas se havia algo a dizer sobre Jon Snow, era

como era teimoso.

-Já se passou quase meió ano desde que Benjen nos deixou, senhor -

prosseguiu Sor Jaremy.

- A floresta é vasta. Os selvagens podem ter caído sobre ele em

qualquer lugar. Aposto que estes dois foram os últimos sobreviventes

do grupo e vinham de regresso.. mas o inimigo os apanhou antes

que pudessem atingir a segurança da Muralha. Os cadáveres ainda

estão frescos, estes homens não podem estar mortos há mais de um

dia...

- Não - Samwell Tarly protestou.

Jon sobressaltou-se. A voz nervosa e aguda de Sam era a última coisa

que esperava ouvir. O rapaz gordo sentia-se atemorizado pelos