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oficiais, e Sor Jaremy não era conhecido pela sua paciência.

- Não lhe pedi opinião, rapaz - Rykker disse friamente.

- Deixe-o falar, senhor - exclamou Jon.

Os olhos de Mormont saltitaram de Sam para Jon e de volta a Sam.

- Se o moço tem alguma coisa a dizer, quero ouvi-lo. Aproxime-se,

rapaz. Não conseguimos vê-lo aí atrás dos cavalos.

Sam passou por Jon e pelos pequenos cavalos, suando profusamente.

- Senhor, não.. não pode ser um dia, ou... olhe... o sangue...

- Sim? - Mormont resmungou impacientemente. - Que tem o

sangue?

- Ele suja a roupa de baixo ao vê-lo - gritou Chett, e os patrulheiros

riram. Sam limpou o suor da testa.

- Vocês. . vocês podem ver o lugar onde Fantasma... o lobo gigante de

Jon... podem ver onde ele arrancou a mão daquele homem, e no

entanto... o toco não sangrou... olhem... - sacudiu uma mão. - Meu

pai... L-lorde Randyll, ele, ele me obrigava às vezes a assistir enquanto

esquartejava animais, quando... depois.. - Sam balançou a cabeça de

um lado para o outro, fazendo tremer o duplo queixo. Agora que

olhara para os cadáveres, não parecia ser capaz de afastar os olhos. -

Uma morte recente.. o sangue ainda fluiria, senhores. Mais tarde..

mais tarde estaria coagulado, como uma... uma geleia, espesso e... e..

- parecia estar prestes a vomitar.

- Este homem. . olhe para o pulso, está todo... em crosta... seco...

como...

Jon compreendeu de imediato o que Sam queria dizer. Via as veias

rasgadas no pulso do morto, vermes de ferro na carne clara. O

sangue era um pó negro. Mas Jaremy Rykker não estava convencido.

- Se eles estivessem mortos há muito mais de um dia, estariam agora

decompostos, rapaz. Nem sequer cheiram.

Dywen, o velho e deformado lenhador que gostava de se vangloriar

de ser capaz de cheirar a neve chegando, aproximou-se dos cadáveres

e farejou.

- Bom, não são nenhuns amores-perfeitos, mas. . o senhor tem razão.

Não há fedor de cadáver,

- Eles... eles não estão apodrecendo - Sam apontou, com o gordo

dedo tremendo só um pouco. - Olhe, não há... não há larvas, nem. .

nem... vermes, nem nada... têm estado aqui na floresta, mas não... não

foram mordidos nem comidos por animais... só Fantasma... fora isso,

estão... estão..

- Intocados - disse Jon em voz baixa. - E Fantasma é diferente. Os

cães e os cavalos não se aproximam deles.

Os patrulheiros trocaram olhares; viam que era verdade, todos eles.

Mormont franziu as sobrancelhas, olhando de relance para os

cadáveres e os cães.

- Chett, traz os cães para mais perto.

Chett tentou, praguejando, puxando-os pelas correias, dando um

pontapé em um deles. A maior parte dos cães limitou-se a ganir e

fincar as patas no chão. Então ele tentou arrastar um só. A cadela

resistiu, rosnando e contorcendo-se como que para se libertar da

coleira. Por fim, o atacou. Chett largou a correia e tropeçou para

trás, O cão saltou por cima dele e desapareceu por entre as árvores.

- Isto... isto está tudo errado - disse Sam Tarly, muito sério. - O

sangue... há manchas de sangue nas roupas, e... e na pele, secas e

duras, mas. . não há nenhuma no chão, ou.. em lado nenhum. Com

aquelas... aquelas.. aquelas... - Sam obrigou-se a engolir e inspirou

profundamente. - Com aquelas feridas... terríveis feridas... deveria

haver sangue por todo o lado. Não deveria?

Dywen chupou os dentes de madeira.

- Pode ser que não tenham morrido aqui. Pode ser que alguém os

trouxe e os deixou para nós. Como um aviso - o velho lenhador

espreitou para baixo com ar de suspeita. - E pode ser que eu esteja

doido, mas não me lembro de Othor ter olhos azuis.

Sor Jaremy pareceu surpreso.

- Nem Flowers - exclamou, virando-se para fitar o morto.

O silêncio caiu na floresta. Por um momento, tudo o que ouviram foi

a respiração pesada de Sam e o som úmido de Dywen chupando os

dentes. Jon acocorou-se ao lado de Fantasma.

- Queime-os - sussurrou alguém. Um dos patrulheiros; Jon não

saberia dizer qual. - Sim, queime-os - insistiu uma segunda voz.

O Velho Urso balançou teimosamente a cabeça.

- Ainda não. Quero que Meistre Aemon os examine. Vamos levá-los

de volta para a Muralha.

Há ordens que são dadas mais facilmente do que obedecidas.

Enrolaram os mortos em mantos, mas quando Hake e Dywen

tentaram atar um deles a um cavalo, o animal enlouqueceu, berrando

e empinando-se, escoiceando, chegando a morder Ketter quando este

correu para ajudar. Os patrulheiros não tiveram melhor sorte com os

outros cavalos; nem o mais plácido dentre eles queria ter algo a ver

com aqueles fardos. Por fim, foram forçados a quebrar galhos e

improvisar trenós para levar os cadáveres a pé. O meio-dia já passara

havia muito quando se puseram a caminho.

- Quero que sejam feitas buscas nesta floresta - ordenou Mormont a

Sor Jaremy ao partir. - Em todas as árvores, em todas as rochas, em

todos os arbustos e em todos os metros de terreno lamacento num

raio de dez léguas. Use todos os homens que tiver, e se não forem

suficientes, peça caçadores e lenhadores aos intendentes. Se Ben e os

outros estiverem aqui, mortos ou vivos, quero que sejam

encontrados. E se houver alguém mais nesses bosques, quero ficar

sabendo. Devem persegui-los e capturá-los, vivos, se possível.

Compreendido?

- Sim, senhor - Sor Jaremy respondeu. - Assim será feito.

Depois disso, Mormont cavalgou em silêncio, matutando. Jon seguia

logo atrás dele; como intendente do Senhor Comandante, era este o

seu lugar. O dia estava cinzento, úmido, encoberto, um daqueles dias

que fazia desejar a chuva. Nenhum vento agitava os bosques; o ar

pairava úmido e pesado, e a roupa de Jon aderia-lhe à pele. Estava

morno. Demasiado morno. A Muralha gotejava copiosamente, há

dias, e por vezes Jon até imaginava que estava encolhendo.

Os velhos chamavam àquele tempo o verão dos espíritos, e diziam

que significava que a estação estava enfim despedindo-se de seus

fantasmas. Depois viria o frio, preveniam, e um longo verão

significava sempre um longo inverno. Aquele verão tinha durado dez

anos. Jon era bebê de colo quando começara.

Fantasma correu ao lado deles durante algum tempo e depois

desapareceu por entre as árvores. Sem o lobo gigante, Jon sentiu-se

quase nu. Deu por si olhando para cada sombra com desconforto.

Involuntariamente, pôs-se a recordar as histórias que a Velha Ama

costumava contar quando era pequeno em Winterfell. Quase

conseguia ouvir de novo sua voz, e o clic-clic-clic de suas agulhas.

Naquela escuridão, os Outros atacaram, costumava dizer, com a voz

cada vez mais baixa. Eram frios e estavam mortos, e odiavam o ferro,

e o fogo, t o toque do sol, e todas as criaturas vivas que possuíssem

sangue quente nas veias. Os castelos, as cidades e os reinos dos

homens caíram perante eles à medida que iam se deslocando para o

sul sobre pálidos cavalos mortos, à frente de hostes de cadáveres.

Alimentavam os criados mortos com carne de crianças humanas...

Quando viu o primeiro sinal da Muralha pairar acima da copa de um

antigo carvalho nodoso, Jon sentiu-se muito aliviado. Mormont puxou